domingo, 17 de março de 2013

Major Passos - Boris Schnaiderman

folha de são paulo

Um personagem de livro na campanha da FEB
BORIS SCHNAIDERMANRESUMO Ex-combatente recorda a batalha de Monte Castelo, na Itália (1944-5), momento-chave da participação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial (1939-45). Entre pracinhas e oficiais, desponta a figura do major Passos, que, alheio aos dramas e às emoções do front, marcou a memória do jovem soldado.
Vamos chamá-lo assim, pois não me lembro de seu nome. Tinha estatura média e era pouco loquaz. Subcomandante do grupo de artilharia em que eu servia como calculador de tiro, parecia estar ali para um caso de impedimento do comandante.
Não me lembro de o ter visto executando qualquer tarefa. Ele sempre passava por nós a caminho do quarto do comandante do grupo, o tenente-coronel Da Camino.
Contava-se que tinha em sua folha de serviço ações que não combinavam com o seu vulto tão comum e o rosto sem vibração. Teria participado da Coluna Prestes e, quando esta, na década de 1920, depois de percorrer milhares de quilômetros pelo interior do Brasil, foi acossada pelas forças do governo, cruzou a fronteira e asilou-se na Bolívia, ele se recusou a acompanhá-la e se escondeu num jazigo de família, no cemitério de um povoado, de onde conseguiu esgueirar-se para o Rio de Janeiro. Teria vivido na clandestinidade até a Revolução de 1930 e seria reintegrado no Exército com todas as honras.
No entanto, o que lembro dele não tem nada a ver com esse passado glorioso. Estávamos em pleno inverno, fazia muito frio, mas ainda não havia nevado. O lugarejo em que nos instalamos, Silla, ficava diante de uma ponte constantemente bombardeada, pois passavam por ela os suprimentos para o front da infantaria, pouco adiante. E, para dificultar a regulagem de tiro pelo inimigo, os norte-americanos instalaram máquinas fumígenas nas cabeceiras da ponte, de modo que vivíamos dentro de uma nuvem de fumaça.
RANCHO Quando estávamos fora de casa, na hora do rancho, começava o bombardeio, cada um se jogava no chão e então se ouvia o ploque-ploque dos estilhaços de granada. Depois, o praça se erguia, apalpava o corpo, feliz por não estar ferido, e voltava para seu lugar na fila, a fim de encher a marmita. Aliás, muitas vezes, eu não ia para a fila e alguém se encarregava de me levar a boia.
Sinto até hoje na boca o gosto de certos pratos particularmente detestáveis, como o da carne com feijão ("Lima beans"), a ração C do Quinto Exército norte-americano, ao qual estávamos incorporados.
Recordo o major Passos num dia fatídico para a FEB, o do ataque ao Monte Castelo em 12 de dezembro de 1944. Tinha havido antes um ataque conjunto americano-brasileiro repelido pelos alemães. Dessa vez, porém, era tudo por nossa conta.
De véspera, ficamos calculando tiro sobre uma série de posições alemãs e fomos avisados de que iríamos acordar de madrugada, para acompanhar com outros tiros a progressão da infantaria.
Dito e feito. Passamos a manhã em atividade, calculando tiros de acordo com os pedidos do observador avançado, oficial de nosso grupo que ficava num ponto da linha de frente, de binóculo milimetrado, observando o ataque e regulando os tiros pelo telefone.
Ficamos calculando o dia todo numa torcida louca para que a ação desse certo. As coisas pareciam ir bem, o Castelo ia ser nosso, mas já de noitinha os alemães lançaram o contra-ataque, e os infantes brasileiros foram desbaratados com grandes perdas.
Eu me lembro de nossa tristeza, dos rostos de meus companheiros na luz escassa que era possível naquelas circunstâncias e da raiva que eles concentravam na pessoa do comandante da infantaria e que encabeçava o ataque, o general Zenóbio da Costa.
Pois bem, naquele clima de desalento, ouviu-se de repente a voz do major Passos: "Também, que ideia absurda, querer tomar o morro com os nossos negroides!".
Não me lembro dele nos dias subsequentes, mas certamente estava lá, abrindo caminho entre as nossas pranchetas, na direção do quarto do comandante.
MAPA O que se gravou com muita força em minha memória foi o mapa daquele pedaço da Itália, com curvas de nível muito próximas entre si e com círculos desenhados em cima, cada um com um nome de mulher, de modo que os tiros eram calculados sobre nomes poéticos: Wilma 12, Eva 5, Deise 8 etc.
Não estávamos mais em Silla, pois o comando finalmente percebera (depois de quase um mês e meio!) a inutilidade de ficarmos expostos a tantos perigos. Instalamo-nos, portanto, em Bellavista, na montanha, pertinho de Porretta Terme, que se via embaixo.
As casinhas do povoado eram todas térreas, e ali se fixara uma população heterogênea, todos em trânsito e completamente desarvorados (já escrevi sobre isso em "Guerra em Surdina").
Lá, num ponto mais elevado, víamos o conjunto Monte Castelo -Monte della Torraccia- Monte Belvedere, este de cumeeira lisa, despida de vegetação. Mas, apesar de estarmos num lugar relativamente seguro, de noite ouvíamos o zunir das granadas, que iam rebentar em Porretta Terme.
Finalmente, soubemos pelo rádio (geralmente ligado aos nossos telefones) que a 10ª Divisão de Montanha norte-americana ia ser lançada contra o Monte Belvedere. Ficamos ouvindo notícias sobre a progressão dos norte-americanos e, finalmente, soubemos da conquista daquela posição: uma cumeeira lisa e redonda que dominava o vale.
Era evidente que isto seria seguido por um ataque brasileiro ao Castelo. E foi o que aconteceu.
Houve horas mortas na Central de Tiro, noite a dentro. Eu ficava calculando sem parar, e o capitão circulando entre as duas pranchetas, a do controlador vertical, que era eu, a do controlador horizontal e as cadeiras dos três calculadores das baterias de tiro.
Pobre capitão Melo! Encolhido em seu capotão, a cabeça ainda mais encolhida sob o capacete de cortiça e o rosto quase escondido atrás de uma echarpe de lã, ficava circulando entre os comandados, esfregando as mãos e desviando-as para os lados, numa posição de quem vai alçar voo, o que lhe valeu a alcunha: "Borboleta". "Cuidado! Cuidado! Senão vai tiro contra a nossa infantaria, né!" Este "né" era a marca pessoal de todo seu discurso.
Calculando sem parar, deixei definitivamente de ir à fila do rancho e alguém me trazia a marmita com o almoço ou o jantar. Apenas uma vez, o próprio capitão me substituiu e fui almoçar sobre umas medas de feno, de costas para Porretta Terme.
Viam-se dali as montanhas de que fazia parte o Monte Castelo, no qual se fixavam nossos olhos. Ali, ao longe, nossos aviões desciam em voo rasante, ouvindo-se então um matraquear de metralhadora, nossas e dos alemães.
Voltando à Central de Tiro, retomei os cálculos, mas, após mais de 48 horas de trabalho, disse a Borboleta: "Capitão, eu não aguento mais. Trate de me substituir". Desci os degraus da entrada cambaleando e, indo para a estrada, joguei-me à sombra do casebre e dormi um par de horas. Depois, voltei a subir e continuei dobrado sobre a prancheta, olhando no mapa as curvas de nível e rabiscando cálculos.
Em dado momento, o rádio transmitiu: "O Castelo é nosso!". Pulei então de junto da prancheta e ficamos nos abraçando, os praças entre si, ante o olhar estático de Borboleta.
Mas, em meio a nossa explosão de júbilo, ressoou a voz monocórdia do major Passos: "Ora, com tanto tiro nem é vantagem!".
Aquilo parecia vir de um outro mundo, não era o mundo em que se lutava contra o nazismo, a barbárie.
Passado algum tempo, iniciou-se a investida para o vale do Pó, então em efervescência devido aos combates entre alemães e "partigiani". Na frente ia o carro-comando do tenente-coronel, com o major ao lado, sempre pálido e sisudo. Depois, os jipes dos oficiais, seguidos pelos "tratores" das baterias, cada qual com o seu canhão atrelado.
Enfrentamos ainda resistência em Zocca e Zocchetta. Quando atravessamos Zocca, sentimos o cheiro nauseante de cadáveres em decomposição. Certamente, não foi por causa de nossas granadas, pois não dava tempo: deve ter havido ali um massacre de fascistas pelos "partigiani".
Passávamos por povoados com lençóis alvos pendurados nas janelas. Depois, encontramos populares aglomerados em alguns pontos, atirando flores e gritando: "Liberatori d'Italia! Liberatori d'Italia! Viva i liberatori d'Italia!". Na frente, o carro-comando, com o tenente-coronel e major ao lado, sempre pálido e sisudo. Em meio à emoção, nem percebíamos o que havia de absurdo nessa apoteose.
Depois, nos cruzamentos, vimos rapazes e moças, de fuzil a tiracolo, que nos saudavam de punho cerrado. Parecia até que estávamos na Espanha republicana
Um dia, quando nos instalamos num mosteiro abandonado, soubemos que o comando do grupo ia passar para oficiais recém-chegados do Brasil. Não houve qualquer cerimônia de despedida, sequer um aperto de mão, e lá se foi o nosso major, tão alheio a cada um de nós como desde o início, e nunca mais soube algo a seu respeito.

    Conservadores alemães podem se unir à oposição pelos direitos dos gays

    UOL

    • 17.mai.2012 - Dolores Ochoa/AP
    Os conservadores do partido da chanceler Angela Merkel se opõem oficialmente em conceder às uniões civis entre homossexuais o mesmo status de que gozam os casamentos heterossexuais, apesar de as pesquisas mostrarem que a maioria de seus eleitores apoiaria tal medida.
    Agora, alguns dos aliados de Merkel estão considerando a ideia de se juntar à oposição para definir o tema.
    As tentativas tranquilas da chanceler para acabar com o debate sobre o casamento homossexual dentro de seu partido estão acabando, uma vez que vários de seus aliados no parlamento estudam apoiar uma petição contra o governo, liderada pela oposição, em favor dos direitos dos homossexuais.
    Um grupo de parlamentares do partido de Merkel, a União Democrata Cristã, de centro-direita, está pensando em assinar uma "petição em grupo" na qual se aliariam publicamente à oposição em relação ao tema. A petição solicitará que o governo amplie os direitos das parcerias civis firmadas entre casais do mesmo sexo para incluir todos os benefícios fiscais já concedidos aos casais heterossexuais.
    "Apresentar uma petição de um grupo multipartidário seria uma opção", disse o parlamentar Stefan Kaufmann, da CDU. Seu colega de partido, Jens Spahn, disse que simpatiza com a oposição, mas prefere esperar as discussões dentro da própria CDU.

    Os social-democratas de centro-esquerda e os ambientalistas estão planejando apresentar suas próprias petições ao governo nesta semana. Nelas, eles solicitarão que casais do mesmo sexo tenham direito aos mesmos benefícios fiscais que os casais heterossexuais.

    Enquanto o partido de Merkel se mantém oficialmente contrário a tais planos, vários membros da CDU já declararam publicamente que são favoráveis em fazer com que as uniões gays sejam equivalentes ao casamento heterossexual.
    Até agora, porém, nenhum parlamentar da CDU rompeu com a plataforma do partido nem assinou nenhuma petição oficial – após uma decisão judicial sobre os direitos de adoção, emitida no mês passado, ter empurrado o tema para as manchetes dos jornais. Assinar uma petição com a oposição seria uma demonstração simbólica de simpatia para com os eleitores que apoiam os direitos dos homossexuais.

    A lei alemã concede aos casais homossexuais que vivem sob uniões civis a maior parte dos direitos conferidos aos casais heterossexuais casados, incluindo os direitos de imigração e de herança. No entanto, os casais gays não podem adotar crianças em conjunto nem apresentar declarações de imposto de renda conjuntas.

    "Minoria estridente" X "maioria silenciosa"

    Dentro do governo, a oposição mais veemente ao casamento entre parceiros do mesmo sexo vem da União Social Cristã (CSU), partido-irmão da CDU e originário da Baviera. O secretário geral da CSU, Alexander Dobrindt, disse ao jornal dominical Welt am Sonntag que pequenos grupos de interesse não podem ser autorizados a conduzir o debate sobre os direitos de gays e lésbicas.

    "Temos 17 milhões de casamentos na Alemanha e 30 mil parcerias entre casais do mesmo sexo", disse Dobrindt. Segundo ele, a missão da parceria CDU/CSU é "dar voz à maioria silenciosa contra uma minoria estridente".

    Na verdade, uma pesquisa de opinião divulgada no mês passado pela revista semanal Stern revelou que 74% dos alemães apoiaria que as uniões civis entre casais do mesmo sexo passassem a ser legalmente equivalentes ao casamento heterossexual. Esse percentual inclui 64% dos eleitores que votam na CDU e na CSU.

    Ponto de discórdia

    O debate interno em curso na CDU ocorre após os delegados do menor partido da coalizão de Merkel, o Partido Democrático Livre (FDP), que apoia o setor empresarial da Alemanha, terem votado e aprovado por maioria esmagadora a igualdade entre as uniões homossexuais e o casamento heterossexual durante um congresso partidário realizado no fim de semana passado.

    O presidente do FDP, Philipp Rösler, que também atua como ministro da Economia e vice-chanceler, pediu que o partido de Merkel modernize sua posição em relação aos direitos dos homossexuais. Ele fazia alusão a uma decisão que deve ser tomada em breve pelo Tribunal Constitucional Federal, que pode obrigar o governo a conceder aos casais homossexuais em uniões civis benefícios fiscais iguais aos dos casais heterossexuais. Para Rösler, o governo deveria se antecipar ao tribunal e alterar a lei agora.

    "Nós, como governo, temos uma oportunidade única atualmente de enviar um sinal claro para a construção de uma sociedade livre e tolerante – antes que qualquer decisão do Tribunal Constitucional entre em vigor", disse à emissora pública ARD.

    Apesar de seu apoio aos direitos dos homossexuais, Rainer Brüderle, principal candidato do FDP às eleições deste ano na Alemanha, disse que o partido não iria votar com a oposição sobre a questão fiscal. Mas essa declaração se seguiu a uma declaração conflitante do secretário-geral do FDP, Patrick Döring. O secretário disse ao jornal Frankfurter Allegemeine Sonntagszeitung que os votos anteriores do partido contra a concessão de direitos fiscais para as uniões gays foram dados apenas por respeito à coligação com a CDU, mas que ele "não consegue imaginar que o grupo parlamentar venha a votar dessa maneira novamente".

    Reforma fiscal

    Enquanto isso, o ministro da Fazenda, Wolfgang Schäuble, está elaborando uma possível reforma para o código fiscal alemão, segundo a qual os atuais benefícios concedidos aos casais casados seriam ampliados a todas as famílias com filhos. Schäuble exige como condição que essa reforma não acabe por piorar a situação dos casais que já vivem sob a lei atual e que seu impacto fiscal seja neutro – o que significa que crédito fiscal concedido para quem tem filhos e o subsídio mensal pago pelo governo por cada filho teriam que ser abolidos.

    Essas possíveis reformas seriam aplicáveis a todos os tipos de arranjos familiares – e, presumivelmente, também incluiriam casais do mesmo sexo com filhos. Por essa razão, o Ministério da Fazenda disse que as reformas provavelmente levariam anos para ser aprovadas e transformadas em lei.


    Tradutor: Cláudia Gonçalves

    A batuta do Fürher - Silvia Bittencourt

    folha de são paulo

    A gestão nazista na Filarmônica de Berlim
    SILVIA BITTENCOURTRESUMO Historiador canadense investigou período em que a Orquestra Filarmônica de Berlim, quando, prestes a quebrar, foi encampada pelo regime nazista de Hitler (1933-45). O autor relata a influência do Estado alemão no repertório da orquestra, os esforços para mantê-la ativa durante a Guerra e a exclusão dos músicos judeus.
    Conversando por acaso com um músico da Filarmônica de Berlim, em 1995, o historiador canadense Misha Aster descobriu que essa que é uma das mais famosas e tradicionais orquestras do mundo tinha um passado obscuro: os anos em que esteve submetida ao regime nazista.
    Cinco anos mais tarde, Aster viajou à Alemanha e começou a sua pesquisa. Vasculhou os arquivos da Filarmônica, nos quais encontrou apenas o espólio dos músicos (muitos documentos haviam se perdido com o bombardeio do prédio, em 1944), e o Arquivo Federal de Berlim. Ali estavam as atas do Ministério da Propaganda, chefiado por Joseph Goebbels, a quem a orquestra ficou sujeita a partir de 1933, depois de ficar à beira da bancarrota.
    Os detalhes desse pacto entre a Filarmônica e a elite política nazista, delineado sobretudo pelo grande maestro Wilhelm Furtwängler (1886-1954), estão em "A Orquestra do Reich" [trad. Rainer Patriota, Nelson Patriota e Ibaney Chasin, Perspectiva, 340 págs. R$ 70].
    Por um lado, a Filarmônica estava salva financeiramente e pôde continuar tocando pela Alemanha e o mundo, difundindo a grande tradição musical do país. Por outro, tornou-se um dos principais instrumentos de propaganda de Goebbels, perdeu seus músicos judeus e era obrigada a tocar em eventos do partido hitlerista.
    De Berlim, onde trabalha para a produtora Deutsche Grammophon, Aster, 34, falou àFolha por telefone.
    Folha - Quando a Filarmônica de Berlim foi encampada pelo Estado nacional-socialista, não houve protestos por parte dos músicos?
    Misha Aster - Houve uma intensa discussão, não só em 1933, mas antes disso. A questão era como salvar a Filarmônica, que ligações políticas e que meios poderiam ser usados para assegurar verbas públicas e garantir a sua sobrevivência.
    Naquela época, já fazia muito tempo que a Filarmônica ameaçava fechar. Eles só conseguiam tocar porque a gerência da orquestra fazia tramoias com a contabilidade. A última saída foi aceitar, através do engajamento de Furtwängler, o apoio financeiro dos nacional-socialistas. Acho que a orquestra não teria confiado nos nazistas, não fosse por ele, que se responsabilizou pelas negociações e pelo futuro da Filarmônica.
    Que vantagens os músicos tiveram?
    Com a orquestra submetida ao Ministério de Propaganda, os salários aumentaram e eram reajustados a cada dois anos. Os músicos estavam então entre os mais bem pagos no país. Além disso, a Filarmônica era requisitada pelos poderosos, passou a tocar em eventos importantes e a ser celebrada em toda a Alemanha. Tocava nos congressos do partido, no rádio, em ocasiões especiais, como nos aniversários de Hitler.
    Considerando que a orquestra estava perto da bancarrota, nesse momento ela passou ao centro do agito cultural e político. O prestígio social lisonjeava, assim como a proximidade com os detentores do poder. Muitos músicos também eram recompensados por Goebbels, Hitler ou [Albert] Speer [o arquiteto de Hitler], de quem ganhavam presentes e instrumentos.
    Além disso, a orquestra viajava para o exterior e, assim, seus músicos tinham uma outra visão do que acontecia na Alemanha e no mundo. Finalmente, seus músicos foram liberados do serviço militar. Até 1944, os músicos continuaram sendo protegidos. Eles jamais precisaram pegar numa arma.
    Apenas alguns músicos eram membros do partido nazista. Pode-se dizer que a maioria deles era contra o regime hitlerista?
    Eu não diria isso. Os números mostram que a orquestra refletia aproximadamente os da sociedade alemã. Em 1933, dos cerca de cem membros da Filarmônica, quatro eram judeus, ou seja, um índice acima do registrado na população alemã [0,75% do total no censo daquele ano]. Já os membros do partido formavam, no final da Guerra, menos de 20% da orquestra, quase a mesma proporção encontrada na sociedade. Muitos que ingressaram no partido tiravam proveito disso e não eram necessariamente nazistas convictos. Mas isso não significa que os que não estavam no partido fossem contrários ao regime.
    Pelas vantagens que tinham, não achavam necessário se filiar.
    Havia pressão sobre não filiados?
    Os músicos de ascendência judaica ou casados com judias só puderam continuar tocando graças a esforços pessoais de Furtwängler. Eles, sim, eram pressionados permanentemente por um punhado de músicos nazistas convictos. Havia um clima de desconfiança.
    Além disso, como acontecia em toda instituição pública, a Filarmônica era frequentemente visitada por representantes do regime, que falavam de suas obrigações perante o partido e o país. Mas os músicos eram pessoas viajadas, talvez um pouco menos vulneráveis às influências do partido.
    Às vezes alguns músicos chegavam aos ensaios vestidos com uniformes da tropa de choque nazista. Não havia conflitos com os demais?
    Havia músicos que eram orgulhosos do partido, que eram bem ideológicos e de quem os demais precisavam se defender. Mas não houve grandes conflitos. Afinal, a vida é assim numa orquestra, um precisa confiar no outro para manter o nível musical. Eles precisavam conviver, viajar juntos etc.
    Foram poucos os casos de discussão intensa. Os grandes debates aconteceram depois da Guerra. O que fazer com os colegas, músicos excepcionais, que haviam integrado o partido?
    O que aconteceu com eles?
    Ainda antes de serem iniciadas as medidas de desnazificação, em 1945, a orquestra já tinha posto alguns músicos para fora. Mas a maioria dos filiados do partido ficou lá. Então os próprios músicos diferenciaram entre "bons" e "maus" nazistas. Logo depois foram Leo Borchard e Sergiu Celibidache [dirigentes da Filarmônica após a capitulação] que conduziram, autorizados pelos americanos, as medidas de desnazificação e as demissões.
    Um dos principais personagens de seu livro é Wilhelm Furtwängler, que deixou a orquestra em 1934, depois de conflitos com os nazistas, mas que acabou retornando. Quão próximo Furtwängler estava do nacional-socialismo?
    É uma pergunta delicada. Definitivamente, Furtwängler não foi um amigo dos nacional-socialistas. Várias fontes provam isso. Mas ele era um patriota. Para ele era impossível separar-se da Alemanha e, então, se dispôs a fazer acordos e trabalhar com os nazistas. Era um idealista e isto era mais importante do que coisas pragmáticas e banais. Ele se propôs a preservar uma grande tradição cultural alemã e para isso precisou se submeter à maquinaria política do regime. Mas está claro que não foi um simpatizante do nazismo.
    Como o regime influenciou o repertório da Filarmônica?
    Havia poucos conflitos nesta questão. O repertório da Filarmônica já era conservador, focado no grande cânone romântico alemão. Primeiramente, por causa de Furtwängler, adepto desta tradição romântica. Ele já não tocava muito compositores como
    [Gustav] Mahler, que, para os nazistas, seria inaceitável por causa da ascendência judaica. Também não tocava música contemporânea ou de vanguarda. Mas Furtwängler era amigo de [Paul] Hindemith e reconhecia a importância de [Arnold] Schoenberg, que não foram mais tocados depois de 1933.
    Em segundo lugar, esses já não eram os favoritos da burguesia e, como a Filarmônica era uma empresa comercial, precisava ficar atenta ao gosto musical de seu público. Foram então pequenas as lacunas no repertório, logo preenchidas por compositores mais próximos do regime, ou pelo menos aceitos por ele, como Werner Egk.
    E na época da Guerra? Podiam tocar compositores de países inimigos?
    Não. Mas nunca houve uma censura. Havia vários postos burocráticos, nos quais os programas eram examinados. Mas não existia uma lista negra do que não se podia apresentar. Os mecanismos de controle ficavam nas mãos das orquestras, dos teatros e das óperas. Até 1941 [quando a União Soviética entrou na Guerra], a Filarmônica tocou músicos russos, mas mesmo depois, uma vez ou outra, apresentou peças de [Piótr] Tchaikóvski.
    Em 1938, o jovem dirigente Herbert von Karajan ingressou na Filarmônica. Mais tarde, com fama mundial, foi acusado de carreirista. De que forma o apoio que recebeu dos nazistas ajudou sua ascensão?
    Sua ascensão deve ser entendida dentro do contexto político. Desde o início se procurou um contrapeso a Furtwängler, que estava sempre agitando e fazendo reivindicações. Os nazistas queriam mostrar que ele era substituível.
    Por outro lado, havia uma rivalidade entre Goebbels, a quem a Filarmônica estava submetida, e [Hermann] Göring [ministro do Interior da Prússia], que tinha o poder sobre a Ópera Estatal de Berlim. Göring sempre procurou um herói musical, que elevasse a fama de sua ópera. Viu em Karajan, um jovem carismático e talentoso, a sua grande chance e também o contrapeso a Furtwängler. Karajan, que na verdade venerava Furtwängler, beneficiou-se desta situação.
    Os nacional-socialistas ordenaram que a Filarmônica tocasse até o final da Guerra. Como você justifica essa insistência absurda em divulgar a alta cultura musical da Alemanha?
    Foi realmente injusto os músicos da Filarmônica sobreviverem, tocando Beethoven, enquanto seus colegas de outras orquestras partiam para a Guerra. Mas isso prova como a música era importante para a Alemanha. Num determinado ponto, Goebbels até quis sacrificar a Filarmônica, mas quem interveio foi Speer, que deu uma permissão especial para a orquestra continuar tocando. Acho que Speer, um homem ligado à cultura, pensou no futuro. A Guerra estava perdida, e ele não conseguia imaginar uma Alemanha sem música, sem a Filarmônica. Foi ele quem salvou a orquestra.
    Seu livro saiu na Alemanha em 2007. Por que foram necessários mais de 60 anos para esse capítulo da Filarmônica se tornar conhecido?
    Pesquisas intensas sobre o nazismo foram feitas na Alemanha só a partir dos anos 60, quando se procurou uma confrontação com aquele período. Mas não havia um clima cooperativo para chegar a uma compreensão. Ainda havia muita gente em posições importantes, como Karajan [chefe da Filarmônica entre 1955 e 1989], que não queriam mexer muito a fundo naquele passado. Mas depois da queda do Muro, quando essa geração saiu de cena, foi possível fazer uma pesquisa mais ampla.
    Você ainda consegue ouvir a música da Filarmônica de Berlim sem pensar nessa fase de sua história?
    Sim. Música é música, política é política. É possível desfrutar um concerto da Filarmônica hoje, assim como uma gravação de Furtwängler de 1942. Tons não são políticos.

    As artes e o Estado
    JÚLIO MEDAGLIADesde que a criação artística ganhou contornos profissionais mais elevados, da Renascença para cá, criou-se também um conflito entre os mecanismos de sua produção e a natureza de seu financiamento.
    O "valor de mercado" de uma atividade ou objeto artístico é algo tão complexo e diversificado como os próprios mistérios de sua criação. Ainda hoje uma máquina sinfônica, por mais que toque para plateias lotadas, jamais poderá se autossustentar. Por isso é antiga a relação da produção artística com poderes constituídos.
    Se Michelangelo contou com a igreja para criar as mais belas obras da história, a Filarmônica de Berlim, tida como uma das mais carismáticas e importantes do mundo, num dado momento teve que apelar para a ajuda do Estado. No caso, do nacional-socialista.
    Os Filarmônicos de Berlim, numa tradução correta de seu nome, se reuniram no ano de 1882. O grupo representava a elite dos músicos da cidade e do universo germânico, responsável pela autoria de mais da metade da música clássica ocidental.
    Como o próprio nome diz, a orquestra procurou financiamentos privados além dos recursos provenientes da bilheteria de seus concertos. Apenas os melhores maestros do final do século 19 eram convidados para dirigi-la e, a partir das lideranças de Hans von Bülow (de 1887 a 1892) e de Arthur Nikisch (de 1895 a 1922), a orquestra tornou-se símbolo da excelência sinfônica.
    Considerando as enormes dificuldades de sobrevivência no entre guerras, na época já liderada por Wilhelm Furtwängler, a orquestra recebeu recursos do Estado alemão. Inicialmente a orquestra e seu diretor tinham liberdade de atuação e escolha de repertorio. Mas, com o tempo, o enorme prestígio internacional da orquestra seria usado pelo 3º Reich para seus propósitos propagandísticos.
    Com a radicalização dos preconceitos nazistas, a Filarmônica deixou de representar aquela redoma cultural sublime para perfilar-se aos ideais do partido.
    Esse fato levou Furtwängler a abdicar sua direção e à saída de muitos músicos. Com mais de 80% da cidade destruída, a fase final da Guerra representava também o fim da orquestra, que veio a recuperar seu prestígio com a volta de Furtwängler em 1952. Depois da morte dele, a orquestra foi conduzida pelo maior maestro da segunda metade do século 20, Herbert von Karajan -aliás, ex-filiado ao partido nazista.

      Morte e vida de um rio - Amanda Kamanchek

      folha de são paulo

      O Saracura, um dos 300 cursos de água da cidade, nasce limpo perto da Paulista se junta a outros dois e vai até o poluído Tamanduateí; quase ninguém sabe
      AMANDA KAMANCHEKDE SÃO PAULOQuem diria que a São Paulo árida e cinza tem uma grande história sobre um rio. Uma não, 300 histórias de rio, segundo o geólogo Luiz de Campos Jr., 51, que coordena o projeto Rios e Ruas.
      Segundo ele, esses cursos de água têm 3.500 km de extensão. "Não se anda mais de 200 metros na cidade sem passar por um desses cursos", diz Campos.
      Vamos contar a história de um rio que tem nome de pássaro: o Saracura. Ele nasce escondido, atrás da avenida Paulista, e escorre pela avenida Nove de Julho, depois segue pelo Vale do Anhangabaú, até chegar ao rio Tamanduateí, ao lado do Mercado Municipal. Para vê-lo, somente seguindo as pistas que restaram sob prédios e rodovias. São as galerias pluviais, os bueiros e os fundos de vale que trazem essas evidências.
      Na pequena rua sem saída Garcia Fernandes, atrás do hotel Maksoud, impera outro clima. Menos luz, umidade latente e temperatura amena indicam que ali nasce o Saracura.
      A água é conduzida até uma galeria pluvial e segue assim até chegar ao Tamanduateí. É o que acontece com 99% desses cursos de água.
      Em dias de chuva, quando transbordam os bueiros, é possível ver uma água translúcida descendo pela rua Rocha, onde fica o lavador de táxis Onofre Sabino, 81. Ele puxa por uma mangueira parte da água da nascente, que brota num terreno, para lavar carros desde 1986.
      "Nunca faltou água em todos esses anos", diz Sabino.
      O lavador diz saber que ali há uma nascente e que ela é sua principal fonte de renda.
      Dali, ele explica, a água desce pela rua Rocha até a praça 14 Bis, no Bixiga - bairro onde viviam os negros recém-libertos, nos anos 1930, e que hoje abriga a escola de samba Vai-Vai.
      "Aqui foi um brejo até os anos 1960. Quem morava na região era muito pobre", diz Fernando Penteado, 66, diretor de Harmonia da Vai-Vai. "Nadei no Saracura até o fim dos anos 1950, quando começaram a canalizar o rio", diz.
      Nos períodos de chuva, o Saracura faz aparições, inundando a praça 14 Bis. "Brincamos que de vez em quando o Saracura se invoca e diz: 'tô aqui'", afirma o sambista.
      Ao chegar à praça das Bandeiras, ele se junta aos rios Itororó (que vem da av. 23 de Maio) e Bixiga. Os três formam o rio Anhangabaú, que segue dali até a rua 25 de Março e deságua no poluído rio Tamanduateí, na avenida do Estado. É o fim da história do Saracura.

        Rios sumiram sob o concreto; enchentes e poluição surgiram
        DE SÃO PAULOEnchentes, poluição e mau cheiro são as principais consequências da canalização ou da retificação dos rios da cidade, segundo especialistas.
        "A galeria pluvial é reta, vai para o vale sem que a água evapore, não tem curvas nem obstáculos para freá-la. E as pessoas ainda querem que não haja enchente?", diz o geógrafo Luiz de Campos Jr.
        Além disso, "com os rios encobertos, fica difícil preservá-los", afirma o engenheiro Sérgio Costa, do Instituto de Engenharia.
        Segundo a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), as pessoas jogam nas ruas pneus, bitucas de cigarro e até colchões. Tudo isso vai parar nos rios.
        Até 2020, a Sabesp, junto às prefeituras da região metropolitana, tem a meta de despoluir o rio Tietê e toda a sua bacia, o que inclui o rio Saracura e os outros córregos que passam pelo município.
        OPERAÇÃO LIMPEZA
        O Projeto do Tietê é financiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e custará no total R$ 3,9 bilhões.
        "O objetivo é recuperar o contato da população com a natureza", diz Paulo Massato, diretor da Sabesp na região metropolitana. Segundo ele, já foram limpos e são monitorados 137 córregos pelo projeto Córrego Limpo.
        No entanto, o Anhangabaú ainda não foi limpo porque "ele e seus afluentes são invisíveis".
        "Os córregos priorizados são aqueles onde ocorrem reformas contra enchentes ou a construção de novos conjuntos habitacionais", diz.
        Sobre a prevenção de enchentes, a Prefeitura diz que planeja construir um piscinão no Anhangabaú.
        "Esses piscinões fazem o papel de várzea em locais que não poderiam ter sido invadidos, diz o engenheiro Aluisio Canholi, engenheiro civil e um dos autores do plano de macrodrenagem do Estado.
        "Não se planejou a cidade há 500 anos. Agora, vamos correndo atrás do tempo perdido", afirma.