domingo, 28 de abril de 2013

O que é que a Joana tem? - Isabel Coutinho

folha de são paulo

DIÁRIO DE LISBOA
mapa da cultura
A artista que transpira Portugal em Venezao
ISABEL COUTINHOO que é que Joana Vasconcelos tem? Transpira Portugal. Depois de o ano passado se ter tornado a primeira mulher e a mais jovem artista a expor no Palácio de Versalhes, numa exposição que foi visitada por 1,7 milhão de pessoas, Joana Vasconcelos --que em 2008 expôs na Pinacoteca do Estado de São Paulo-- é a representante de Portugal na 55.ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza.
E já que neste ano Portugal não teria possibilidade de ter um pavilhão, a artista teve a ideia de levar o cacilheiro Trafaria Praia, barco que faz o transporte de passageiros entre as margens do rio Tejo, que servirá de pavilhão português.
O Trafaria Praia tem estado no estaleiro da Navaltagus, no Seixal, a ser transformado para que a parte de cima do barco possa ser forrada a cortiça para ser utilizada como um palco, onde possam acontecer concertos, conferências, mesas-redondas. O exterior vai ser forrado de azulejos azuis e brancos, pintados à mão pelo artista Jorge Nesbitt e feitos pela tradicional fábrica da Viúva Lamego.
O desenho mostrará a Lisboa de hoje, mas a inspiração veio do famoso painel "Grande Panorama de Lisboa" (c. 1700), atribuído a Gabriel del Barco. A artista e o comissário Miguel Amado querem que o cacilheiro funcione em Veneza como "uma montra de Portugal" e por isso terão uma loja a bordo com produtos "made in Portugal".
Por tudo isto o secretário de Estado da Cultura português, João Barreto Xavier, na apresentação do projecto à imprensa disse que "ao apresentar-se em Veneza, [a artista] não é só a Joana, é a Joana de Lisboa, a Joana de Portugal".
LUSTRE DE TAMPÕES
"A Noiva" é uma das obras mais emblemáticas de Joana Vasconcelos. É um gigantesco lustre feito com 20 mil tampões higiénicos femininos que foi exposto pela primeira vez na Bienal de Veneza de 2005, mas a peça foi excluída da mostra em Versalhes porque a organização considerou que não se adequava àquele espaço e a censurou.
O que não viram os franceses pode ser admirado na sala d. João 4º, do Palácio da Ajuda, em Lisboa, onde até 25 de agosto está a exposição com 38 das obras criadas pela artista na última década. Outras das suas obras mais conhecidas, como o "Coração Independente Vermelho" está na sala d. João 6º e os gigantes sapatos "Marilyn", feitos de panelas, estão na sala do trono.
O desafio que a artista lançou foi colocar o património histórico e o contemporâneo em diálogo.
ACORDO ORTOGRÁFICO
Dizem que sem Vieira não teríamos a língua que temos. A "Obra Completa" do padre António Vieira (1608-97), que inclui cartas, sermões, profecias, política, poesia e teatro, está a ser publicada pela Círculo de Leitores com direcção do historiador José Eduardo Franco e do filósofo Pedro Calafate.
São 30 volumes organizados em quatro tomos --Epistolografia, Paranética, Profética, Varia--, mais de 12 mil páginas que incluem documentos inéditos e a publicação dos escritos em latim (agora traduzidos).
O projecto, que deverá estar concluído até 2014, tem uma equipa com mais de 30 especialistas, portugueses e brasileiros, a trabalhar nele. Mas quando saíram os primeiros volumes, iniciou-se a polémica.
O escritor Vasco Graça Moura considera esta "uma das mais importantes iniciativas editoriais que, nos últimos tempos, terá tido lugar no mundo da língua portuguesa". Porém, vê "um grave problema": "A edição pretende pautar-se pela norma ortográfica em vigor e afinal aplica uma norma que não está em vigor nem nunca esteve, e que é a do Acordo Ortográfico." E pergunta: "Viverão num mundo nefelibata? Ignoram a polémica e os problemas? Não sabem que há hoje três grafias divergentes a serem aplicadas no mundo da língua portuguesa?"
José Eduardo Franco respondeu-lhe: "Este era um projecto luso-brasileiro e uma das formas de nos entendermos foi cumprir o contrato e usar a norma em vigor. Há leis de que gostamos mais e outras menos. Não há acordos perfeitos."
Veja o blog da "Obra Completa" de Vieira em bit.ly/obravieira.
SARAMAGO EXPLICA-SE
Em 1997, na Universidade de Turim, José Saramago fez uma palestra de improviso. "A Estátua e a Pedra" foi gravada, transcrita e posteriormente revista e acrescentada por ele. Tem agora uma edição bilíngue, em português e espanhol, da Fundação José Saramago com apoio da Alfaguara.
Foi lançada no dia 19 na Feira do Livro de Bogotá, onde Portugal é o país convidado, e já está nas livrarias portuguesas. É uma reflexão sobre os seus livros e o medo de que se lhe esgotasse a capacidade criadora e não tivesse outro remédio senão deixar de escrever.

    Vinicius Torres Freire

    folha de são paulo

    O Brasil no mata-burro
    Erro rudimentar de política econômica faz o país empacar e esquecer de debates mais fundamentais
    O BRASILZINHO empacou de novo no mata-burro da inflação. Mata-burro, aquele estrado sobre uma vala debaixo das porteiras, feito para impedir que o gado, cavalos e quiçá burros fujam. A gente não consegue fugir.
    Entra ano, sai ano, e cá estamos a discutir de novo se a taxa de juros deve subir 0,25 ponto ou 0,5 ponto, em quatro ou oito prestações mensais, ou a perder de vista.
    Pior não é a recaída nessa conversinha, mas o filme que deu origem à série de preços em alta e crescimento em baixa.
    Lá em 2011 o governo de Dilma Rousseff parecia ter optado por uma combinação razoável de política de gastos públicos e de juros, ao menos da boca para fora: gasto menor, juro menor.
    O caldo porém entornou com o Pibinho de 2011. O governo ficou atônito com o baixo crescimento e afobou-se. Juntou a fome com a vontade de comer. Intervencionistas de coração, Dilma & Cia saíram do armário, rasgaram a fantasia de economistas comportados e precipitaram-se a baixar medidas de estímulo e decretos mais ou menos informais de regulação de preços.
    Não deu certo. Ao final de três anos, 2011-2013, o Brasil terá crescido uns 2,2%. Poderíamos ter perdido esse tempo na oficina, consertando o carro. Mas continuamos rodando e vamos chegar a 2014 com o motor avariado. No fim das contas, o crescimento ficaria na mesma, mas o carro não bateria pino.
    Não haverá desastre. Mas ainda viajaremos no ritmo de carroças.
    Não, não se trata de dizer que há receitas únicas em economia, que não precisamos do Estado ou que nossos problemas são apenas macroeconômicos (gasto público, juros, inflação etc). Mas certas misturas, chiclete com banana, uísque na feijoada, não dão certo.
    Para começo de conversa, gastar mais, reduzir juros e querer inflação baixa é algo que não faz lé com cré.
    Segundo, mas ainda mais importante, é ignorância ou má-fé acreditar que anabolizante é solução para o crescimento; apenas cria uma ilusão que nos impede de pensar em problemas fundamentais.
    O Brasil precisa do Estado e de regulações para várias coisas, mas o Estado e normas estão fora do lugar, muita vez no mesmo lugar em que estavam nos tempos da ditadura, da inflação crônica e dos sonhos de autarquia econômica. O mundo mudou, até nós mudamos um pouco, e os móveis cafonas continuam no mesmo lugar.
    O Estado dissipa energia e dinheiro engessando a economia, em vez de criar infraestrutura e, menos ainda, de incentivar a criação de novos setores e democratizar as oportunidades econômicas (pequenas e novas empresas comem o pão que o diabo cuspiu).
    Recolhemos impostos demais e fazemos dívida para sustentar uma máquina que não funciona, dirigida por gente inepta, administrada de modo disfuncional.
    Temos uma estrutura econômica que resultou em empresas que não inovam, associadas de forma oportunista ao Estado, e em que não há incentivos ou meios bastantes de qualificar gente (educação é mais que isso, mas passemos).
    Com tanto problema fundamental, a gente se perde num debate primitivo sobre o meio ponto dos juros e politiquice macroeconômica.
    Este colunista vai se privar dessa discussão pelas próximas quatro semanas. Estará em férias.

      Redução de estômago será testada contra hipertensão e complicações do diabetes

      folha de são paulo

      MARIANA VERSOLATO
      DE SÃO PAULO

      Três hospitais de São Paulo --o HCor (Hospital do Coração), o InCor (Instituto do Coração do HC da USP) e o Hospital Alemão Oswaldo Cruz-- vão testar a cirurgia bariátrica para o tratamento de outras doenças que não a obesidade e o diabetes, suas indicações primárias.
      As pesquisas se concentrarão em problemas circulatórios e cardíacos, e as três instituições estão recrutando voluntários (veja abaixo).
      Ricardo Cohen, ex-presidente da Sociedade de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, diz que a intervenção atingiu sua fase de maturidade.
      "A grande demanda agora são os outros resultados que a operação pode trazer."
      No HCor, a redução de estômago será testada para controlar a hipertensão resistente, condição na qual o paciente não consegue baixar a pressão mesmo tomando dois ou mais remédios todo dia.
      Carlos Schiavon, um dos coordenadores do projeto, diz que estudos apontam que pacientes submetidos à cirurgia têm melhora na pressão como "efeito colateral"
      O estudo vai comparar a cirurgia com o tratamento clínico. Os pacientes devem ter obesidade grau 1 ou 2 --ou seja, IMC (Índice de Massa Corporal) entre 30 e 40. Esse índice é obtido dividindo o peso, em quilos, pela altura, em metros, ao quadrado.
      "Há pacientes que tomam quatro, cinco remédios e não têm um bom controle. É uma doença de tratamento difícil", afirma Schiavon.
      Para Bruno Geloneze, endocrinologista do Laboratório de Investigação em Metabolismo e Diabetes da Unicamp, a iniciativa tem um "grau de ousadia e coragem" por se concentrar no paciente que está sem tratamento.
      "Esse é um estudo inédito que pode cobrir uma lacuna importante."
      CORAÇÃO
      Já o estudo do InCor pretende investigar como a cirugia bariátrica pode reduzir o risco cardiovascular.
      "É difícil dizer que variáveis a cirurgia altera para reduzir o risco. Investigaremos esses mecanismos", diz Bruno Caramelli, diretor da unidade de medicina interdisciplinar em cardiologia do InCor e coordenador do estudo.
      Os pacientes devem ter diabetes e IMC entre 28 e 35, ou seja, sobrepeso e obesidade grau 1. Hoje, a cirurgia só é autorizada no país para obesos grau 3 e grau 2 --neste último caso, quando há doenças associadas.
      Geloneze avalia a escolha do perfil dos pacientes como "inadequada". "Já se sabe que, quanto menor o IMC, pior o resultado da cirurgia."
      Mas Caramelli diz que o objetivo é investigar como o diabetes se desenrola desde o começo. "A ideia é tentar identificar, numa fase precoce, quem são os caras que amanhã terão IMC de 35 e 40."
      DIABETES
      No hospital Oswaldo Cruz, o estudo quer comprovar os benefícios do tratamento cirúrgico para problemas microvasculares decorrentes do diabetes tipo 2, como as doenças renais e da retina (que pode levar à cegueira).
      A cirurgia será comparada ao melhor tratamento clínico disponível para o diabetes.
      Segundo o cirurgião Ricardo Cohen, coordenador da pesquisa, se a cirurgia levar à redução da incidência dessas complicações, causará também uma diminuição na mortalidade cardiovascular a longo prazo.
      "Acredito que, se comprovarmos a eficácia da cirurgia nesse caso, o paciente com a doença microvascular terá indicação cirúrgica imediata. Não há razão para esperar falhar o tratamento clínico."
      Os pacientes devem ter obesidade grau 1 (IMC entre 30 e 35), perfil para o qual a cirurgia não é autorizada fora de protocolos de estudo.
      Cohen justifica a escolha porque a média do IMC dos diabéticos no Brasil é 29. "Vamos focar na população que realmente precisa."
      O endocrinologista Bruno Geloneze da Unicamp, porém, afirma que um estudo já mostrou que, depois de cinco anos, a melhora de problemas microvasculares em pacientes diabéticos com IMC acima de 40 foi variada.
      "Essa melhora depende de tempo de doença, fatores genéticos e boa nutrição. Como há o risco de desnutrição nesses pacientes menos obesos, o balanço tende a ser desfavorável", diz.
      O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, Almino Ramos, diz que os estudos se concentraram no diabetes, doença associada à obesidade que tinha mais resultados com a cirurgia. "Agora, eles devem focar em outros fatores, como a apneia do sono."
      Mas, para Geloneze, é preciso lembrar que a prioridade é operar quem mais precisa -- obesos grau 3, com IMC acima de 40.
      "Discutir novas indicações é uma forma de excluir os casos mais urgentes. Há que se pensar sempre no interesse do paciente."
      Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress


      Doenças ligadas ao diabetes serão alvo de estudos
      DE SÃO PAULONo hospital Oswaldo Cruz, um estudo quer comprovar os benefícios do tratamento cirúrgico para problemas microvasculares decorrentes do diabetes tipo 2, como as doenças renais e da retina (que pode levar à cegueira).
      A cirurgia será comparada ao melhor tratamento clínico disponível para o diabetes.
      Segundo o cirurgião Ricardo Cohen, coordenador da pesquisa, se a cirurgia levar à redução da incidência dessas complicações, causará também uma diminuição na mortalidade cardiovascular a longo prazo.
      "Acredito que, se comprovarmos a eficácia da cirurgia nesse caso, o paciente com a doença microvascular terá indicação cirúrgica imediata. Não há razão para esperar falhar o tratamento clínico."
      Os pacientes devem ter obesidade grau 1 (IMC entre 30 e 35), perfil para o qual a cirurgia não é autorizada fora de protocolos de estudo.
      Cohen justifica a escolha porque a média do IMC dos diabéticos no Brasil é 29. "Vamos focar na população que realmente precisa."
      O endocrinologista Bruno Geloneze da Unicamp, porém, afirma que um estudo já mostrou que, depois de cinco anos, a melhora de problemas microvasculares em pacientes diabéticos com IMC acima de 40 foi variada.
      "Essa melhora depende de tempo de doença, fatores genéticos e boa nutrição. Como há o risco de desnutrição nesses pacientes menos obesos, o balanço tende a ser desfavorável", diz.

        Clovis Rossi

        folha de são paulo

        Brasil, colônia da China
        Industriais, incomodados com uma concorrência desleal, demonstram que não há uma real parceria
        Marcos Troyjo, diretor do BRICLab da Universidade Columbia e professor do Ibmec, fez a seguinte comparação em artigo recente: "O comércio com a China aumentou dez vezes na última década. Mas tal expansão foi impulsionada principalmente pelo crescimento dramático da China e seu resultante apetite voraz por commodities minerais e agrícolas em que o Brasil tem vantagens comparativas.
        O resultado? Uma tonelada de exportações brasileiras para a China vale cerca de US$ 200. Uma tonelada de exportações chinesas para o Brasil vale mais do que US$ 2 mil. Isso dificilmente poderia ser chamado de parceria".
        Tem razão. É muito mais uma relação colonial, o que causa tremendo incômodo à indústria brasileira, até porque 63% dos exportadores queixam-se à CNI (Confederação Nacional da Indústria) de prejuízos com a concorrência chinesa.
        Natural, portanto, que a entidade decidisse encomendar um estudo sobre a política industrial chinesa ao escritório King & Spalding, que habitualmente presta consultoria aos governos norte-americano e mexicano quando o assunto é China.
        As conclusões põem números nessa relação de tipo colonial. São dados relativamente conhecidos, mas apresentados em conjunto impressionam muito. Cito apenas dois de uma vasta coleção:
        O Brasil exporta para a China apenas 7,6% de produtos considerados de alta tecnologia, mas importa 41,4% nessa rubrica.
        Já em commodities primárias (produtos típicos de colônia), as exportações brasileiras saltam para 31,6%, enquanto os chineses vendem ao Brasil só 1,6% nessa área.
        Conclusão inescapável do relatório: "Esse padrão levou à preocupação no Brasil e em outros países de que a predominância da China nas manufaturas pode levar à desindustrialização em seus parceiros comerciais".
        É uma situação que incomoda também o governo tanto que, na agenda de sua visita à China, já faz dois anos, Dilma Rousseff reivindicou uma mudança na qualidade do comércio.
        Passados dois anos, o relatório divulgado agora pela CNI demonstra que a reivindicação não produziu mudança alguma.
        Nem vai haver mudança, prevê o documento: "Apesar da adoção de políticas orientadas pelo mercado, no fim dos anos 70, o governo da China continua, em todos os níveis, a exercer substancial influência sobre o setor industrial. Os subsídios para indústrias são substanciais, e essa subsidiação tem provavelmente causado danos às indústrias brasileiras concorrentes tanto no mercado doméstico como nos de exportação".
        O escritório recomenda que o Brasil recorra à Organização Mundial de Comércio para propor "ações apropriadas", em vista do que leva todo o jeito de ser concorrência desleal, já que a indústria brasileira está, na verdade, competindo com o portentoso Tesouro chinês, não apenas com as suas congêneres.
        Resta ver se o governo Dilma terá a coragem de peitar a China para tentar reconduzir a relação para a parceria, em vez de um neocolonialismo.