domingo, 19 de maio de 2013

Clovis Rossi

folha de são paulo

Se Dilma fosse japonesa
Brasil e Japão adotam políticas parecidas, mas na mídia só brilha uma. Adivinhe qual delas
A economia brasileira cresceu 1,05% no primeiro trimestre do ano, na comparação com o trimestre anterior. A economia do Japão cresceu 0,9%, sempre na comparação entre esses dois períodos.
Quem você imagina, então, que aparece na capa da revista "The Economist", com direito à roupa de super-herói/heroína? Se respondeu Dilma Rousseff, errou feio. É Shinzo Abe, primeiro-ministro japonês faz quase cinco meses.
Não é só na "Economist" que a pobre Dilma perde para Abe. Na própria Folha, o crescimento japonês ganhou manchete de página no caderno "Mundo", mas o do Brasil não mereceu idêntico privilégio no caderno "Mercado".
Até entenderia o tratamento mais rico para quem cresceu menos se, por acaso, Dilma e Abe praticassem políticas econômicas muito diferentes, ele pró-mercado, como gosta a grande maioria da mídia nacional e internacional, e ela fosse uma espécie de Hugo Chávez de saias.
Mas não é assim. Com as inevitáveis diferenças decorrentes das respectivas histórias e tamanho da economia, vale para Dilma o que a "Economist" diz da "Abenomics", como está sendo chamado o modelo do novo premiê japonês: é "um misto de reinflação, de gasto do governo e de uma estratégia de crescimento desenhada para chacoalhar a economia de um estado de animação suspensa que a sufocou por mais de duas décadas" e que pretende "tornar o governo vigoroso de novo".
(Usei o neologismo reinflação em lugar de "reflation", em inglês, para deixar claro que se trata de reverter a deflação que o Japão enfrenta há muito tempo e que, de resto, a "Abenomics" ainda não conseguiu desmanchar. O índice de preços ao consumidor mostrou queda de 0,9% em março, o décimo mês consecutivo de deflação.)
O texto da "Economist" soa a elogio, a ponto de dizer que Abe "eletrizou uma nação que havia perdido a fé na sua classe política".
Para Dilma, ao contrário, a revista britânica reservou há pouco um necrológio, ao definir como "moribunda" a economia brasileira.
Não só a "Economist", mas nove de cada dez analistas que habitualmente frequentam as páginas dos jornais não acham que Dilma eletrize alguma coisa; ao contrário, em vez de eletrizante, ela é retratada como insuportável intervencionista.
Não estou dizendo que as políticas de Dilma devam ser elogiadas ou que não tenham defeitos. O que não me parece lógico é tratar como tamanha diferença de enfoque políticas que têm um razoável parentesco -e resultados idem.
Até porque a opinião pública, no Japão como no Brasil, trata igualmente seus respectivos governantes. Abe, lembra a "Economist", tem 70% de aprovação. Dilma, lembra o Datafolha, está com 64%, o mais alto índice desde que tomou posse há dois anos e cinco meses.
Pode ser que, mais lá na frente, a diferença de tratamento se justifique, sabe-se lá. Mas, por enquanto, faz lembrar, com sinal trocado, antiga propaganda de um produto japonês fabricado no Brasil que dizia algo como "nossos japoneses são mais criativos que os outros".

    Banho de povo - Painel - Vera Magalhães

    folha de são paulo

    Eleito ontem presidente do PSDB, Aécio Neves estrela as inserções do partido na TV a partir de terça-feira. As peças são endereçadas ao eleitor das classes B e C, com renda familiar mensal de até R$ 3.000. O presidenciável tucano aparece conversando com "gente comum", como donas de casa e caminhoneiros, sobre problemas cotidianos do Brasil, do preço dos alimentos à má conservação das estradas. Será a estreia da parceria de Aécio com o publicitário Renato Pereira.
    Café no bule No esforço para aproximar o partido do eleitorado de baixa renda, Aécio fará uma participação na quinta-feira no "Programa do Ratinho", do SBT, palco usado em eleições passadas para lançar candidatos petistas, como Dilma Rousseff e Fernando Hadadd.
    Ibope 1 Pesquisas qualitativas encomendadas pelos tucanos mostram que o programa do PSB de Eduardo Campos, em abril, foi bem recebido entre os ricos, mas temas como o pacto federativo não foram compreendidos pelos eleitores mais pobres.
    Ibope 2 Já a propaganda do PT, a cargo de João Santana, atingiu picos de aceitação entre os mais pobres quando mostrou o ex-presidente Lula, mas eleitores se disseram confusos sobre quem será o candidato: ele ou Dilma.
    Amistoso? A inauguração da Arena Recife amanhã, com um jogo entre operários que trabalharam na obra do estádio, será o primeiro encontro entre a presidente e Campos desde que o governador de Pernambuco subiu o tom nas críticas ao governo, na propaganda do PSB na TV.
    Petit comité Mesmo depois de prometer ao vice-presidente Michel Temer (PMDB)que passaria a convidar parlamentares para viajar no avião presidencial quando Dilma fosse a suas bases, o Planalto só incluiu um na viagem de amanhã: o senador petista Humberto Costa.
    Mãozinha Aloizio Mercadante (Educação) ajudou Fernando Pimentel a convencer Dilma a demitir Alessandro Teixeira da secretaria-executiva do Ministério do Desenvolvimento.
    Sabático O número dois da pasta entrará em férias a partir de amanhã e, na volta, será aproveitado em outra função no governo.
    Agora vai? Passada a MP dos Portos, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) vai colocar em pauta o projeto que torna o Orçamento impositivo antes do recesso de julho.
    Para ontem O presidente da Câmara pediu para o relator Edio Lopes (PMDB-RR) apressar a aprovação da proposta na comissão especial. O Planalto não vê com bons olhos o projeto que torna obrigatórias as emendas.
    Quem te viu... Irritado com a dobradinha entre Ideli Salvatti e Anthony Garotinho (PR-RJ) na MP dos Portos, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) lembra que o deputado fustigou a ministra quando ela foi convocada para explicar a compra de lanchas pelo Ministério da Pesca, em 2012.
    ... quem te vê A ministra falava sobre a cota da pesca de atum quando o deputado fluminense atacou: ''É uma belíssima explanação sobre o atum, mas nossa preocupação aqui é com o robalo".
    Lembra? Cunha saiu em defesa da petista e emendou, sobre Garotinho: "Tem gente que fez piada aqui e está condenada a dois anos e meio por formação de quadrilha".
    Diplomacia Para evitar mais desgastes com vereadores paulistanos por vetar seus projetos, Fernando Haddad resolveu apontar mudanças desejadas nas propostas antes de elas serem votadas.
    TIROTEIO
    A base da presidente Dilma é paquidérmica e um serpentário de lutas intestinas. É uma mistura de torre de babel e nau sem rumo.
    DO DEPUTADO FEDERAL MARCUS PESTANA (PSDB-MG), sobre a dificuldade de negociação entre governo e partidos aliados para a votação da MP dos Portos.
    CONTRAPONTO
    Que deselegante!
    A sessão para votar a MP dos Portos se estendia madrugada adentro na Câmara quando o deputado Silvio Costa (PTB-PE) criticou o presidente Henrique Alves (PMDB-RN), que prorrogava a discussão para fazer a "vontade" de Dilma Rousseff após receber telefonema dela.
    -Muito me honraria, deputado Silvio Costa, mas não recebi ligação alguma da presidente -respondeu Alves.
    -Não recebeu? Isso é uma tremenda injustiça! A presidente deveria ao menos lhe dar um telefonema, tamanho o esforço que Vossa Excelência está fazendo! -disparou.
    Mesmo com o cansaço o plenário irrompeu em risadas.

      Escolho a vida - Betty Lago e Em defesa da vida - Grella/da Ponte [tendências/debates]

      folha de são paulo

      BETTY LAGO
      Escolho a vida
      Numa tarde chuvosa aqui no Rio, me encontro diante do computador com a missão de escrever sobre Angelina Jolie versus câncer. Talvez seja o assunto mais comentado nesta semana, não só no Brasil, mas mundo afora.
      Aceitei a incumbência muito pelo fato de ter tido câncer, e de como isso transformou a minha vida. Mas isso é uma outra conversa. Voltemos a Angelina e sua atitude cheia de coragem.
      Sua mensagem é clara. Viver, ser mãe e alertar milhares de mulheres sobre mais possibilidades para evitar contrair essa terrível doença, o câncer de mama, que, segundo a Organização Mundial da Saúde, mata 458 mil mulheres por ano. Número devastador.
      Podemos mudar essa estatística. Não de uma forma banal ou desinformada. Nem achando que a solução seja a mastectomia, porque a maior estrela do planeta Terra a fez. Mas nos informando, pesquisando e ajudando aqueles que têm menos acesso e menos recursos também.
      Todos deveriam ler o artigo publicado no jornal "The New York Times", escrito por Angelina Jolie. Ele se chama "My medical choice" ("Minha escolha médica"), mas deveria se chamar "Escolho a vida". É bem escrito, simples, direto e cheio de amor. Me emocionei.
      Inesperado? Sim e não. Sempre fui fã com o distanciamento de quem não quer ser tiete. Afinal de contas, não pega bem. Mas sempre fui muito mais fã do lado humanitário de Angelina, de sua disposição e força para fazer diferença num mundo cada vez mais indiferente a tudo.
      Nesta semana, perguntei-me inúmeras vezes se teria coragem de fazer uma mastectomia e depois vir a público com tanta tranquilidade, mesmo que seja apenas aparente.
      A resposta que encontrei dentro de mim mesma foi sim. Sim, teria coragem de fazer essa cirurgia. Pela vida, pelos filhos, pelos netos que quero conhecer.
      E também escreveria sobre o assunto, porque aprendi com o Reynaldo Gianecchini, bem antes da Angelina, que falar sobre o assunto, além de ajudar aos outros, ajuda a nós mesmos.
      No meu caso, falei pouco porque fiquei mais concentrada no tratamento do que em falar sobre ele. Tenho a sorte de ter uma família incrível, amigos pacientes e carinhosos e médicos mais incríveis ainda.
      Meu câncer foi na vesícula, e aconteceu muito pelo fato de eu ter protelado a retirada da mesma. Sempre tinha uma novela para fazer, uma viagem incrível depois da novela e depois mais novelas e mais viagens...
      Como? Não existe viagem mais incrível do que estar viva e com saúde. Mas isso eu não tinha a capacidade de enxergar, porque, sem querer, me acreditava imortal.
      Nós vamos vivendo e nem percebemos o tempo passar. Não enxergamos nossa vulnerabilidade, ou não queremos enxergá-la. Clichê? Sim, mas é a pura verdade.
      A atitude de Angelina foi um wake up call, não só para o universo feminino, mas para todos nós, seres humanos, cheios de medos e preconceitos.
      Claro que o fato de ter Brad Pitt como seu partner e de ser bilionária ajuda. Mas como disse antes, nada pode diminuir o seu gesto.
      Long live the queen Jolie.

        FERNANDO GRELLA VIEIRA E ANTONIO CARLOS DA PONTE
        Em defesa da vida
        É equivocada a afirmação de que o governo proibiu policiais de prestar socorro a vítimas. Ele dá preferência ao serviço especializado
        Nas últimas semanas, tem havido polêmica sobre uma medida da Secretaria da Segurança Pública que visa preservar vidas e aprimorar a ação policial, atendendo, portanto, às justas expectativas da sociedade.
        Trata-se da resolução nº 5, que estabelece parâmetros para os policiais que atendam ocorrências de crimes envolvendo lesões corporais graves ou morte. É simplesmente equivocada a afirmação, muito repetida no noticiário, de que a resolução "proíbe policiais de prestar socorro". Isso não está escrito em lugar nenhum.
        O texto estabelece que os policiais deverão "acionar, imediatamente, a equipe do resgate, Samu ou serviço local de emergência, para o pronto e imediato socorro" e também "preservar o local até a chegada da perícia". A resolução, portanto, dá preferência a que o socorro seja feito por serviço especializado, de acordo com as normas internacionais. Mas não existe em seu texto, repetimos, qualquer proibição dirigida aos policiais.
        Se o policial chamar o resgate e não houver viatura disponível ou se o tempo estimado para a chegada implicar risco à vida da vítima, é evidente que ele pode e deve prestar os primeiros socorros, sob orientação da equipe médica, a ser dada por rádio ou telefone. Também deve ser levado em conta, como é óbvio, a avaliação da gravidade do ferimento, a ser feita pela equipe de socorro considerando as informações passadas pelos policiais.
        A resolução também não proíbe os policiais de, quando julgarem necessário, transportarem a vítima para onde possa receber atendimento médico. Tanto é que há uma norma de procedimento operacional padrão da PM que, com base na resolução, determina que "na ausência dos meios indicados, o socorro poderá ser providenciado por policiais".
        Da mesma forma, não há impedimento para que familiares ou outras pessoas façam o transporte da vítima. Se esta for suspeita de crime, o policial deve acompanhá-la para evitar eventual tentativa de fuga.
        Vale mencionar ainda que a resolução apoia-se na legislação em vigor. Portanto, não existe nenhuma possibilidade de que os policiais incorram no crime de omissão de socorro. Afinal, ao acionar o resgate, o policial já está agindo em busca do socorro.
        Também é equivocado dizer que a norma coloca a preservação do local do crime acima da vida da vítima. A resolução contribui para a defesa da vida. O procedimento estabelecido pela resolução, além de já ser seguido nos casos de acidentes de trânsito, também já era aplicado na maioria dos atendimentos a vítimas de armas de fogo. O transporte feito pela polícia era mais comum nos episódios em que os feridos eram suspeitos de algum crime.
        Depois da resolução, o número de mortos decorrentes de intervenções policiais caiu quase 40%. Enquanto isso, a produtividade da polícia aumentou. Estamos prendendo mais pessoas e esclarecendo mais crimes. Em consequência, os índices de homicídios já apresentam tendência de queda. Com certeza, a resolução contribuiu para tal melhora, pois facilita o trabalho da perícia.
        Outra confusão que se tenta instaurar é dizer que as equipes do Resgate e do Samu ficaram sobrecarregadas. Os casos de feridos com disparos de armas de fogo correspondem a apenas 0,07% dos chamados de socorro do serviço de Resgate do Corpo de Bombeiros nos primeiros quatro meses deste ano.
        Por fim, cabe lembrar que a resolução nº 5 tem o aval de entidades internacionais e nacionais que atuam na defesa dos direitos humanos. E também de organismos federais, como a Secretaria Especial de Direitos Humanos. Se houvesse qualquer sinal de que a norma atentasse contra a vida, tais entidades não a teriam endossado.

          Quando eu estiver louco se afaste - MARTHA MEDEIROS

          ZERO HORA - 19/05/2013

          Há que se respeitar quem sofre de depressão, distimia, bipolaridade e demais transtornos psíquicos que afetam parte da população. Muitos desses pacientes recorrem à ajuda terapêutica e se medicam a fim de minimizar os efeitos desastrosos que respingam em suas relações profissionais e pessoais.

          Conseguem tornar, assim, mais tranquila a convivência. Mas tem um grupo que está longe de ser doente: são os que simplesmente se autointitulam “difíceis” com o propósito de facilitar para o lado deles.

          São os temperamentais que não estão seriamente comprometidos por uma disfunção psíquica — ao menos, não que se saiba, já que não possuem diagnóstico. São morrinhas,
          apenas. Seja por alguma insegurança trazida da infância, ou por narcisismo crônico, ou ainda por terem herdado um gênio desgraçado, se decretam “difíceis” e quem estiver por perto que se adapte. Que vida mole, não?

          Tem uma música bonita do Skank que começa dizendo: “Quando eu estiver triste, simplesmente me abrace/Quando eu estiver louco, subitamente se afaste/quando eu estiver fogo/suavemente se encaixe...”. A letra é poética, sem dúvida, mas é o melô do folgado.

          Você é obrigada a reagir conforme o humor da criatura. Antigamente, quando uma amiga, um namorado ou um parente declarava-se uma pessoa difícil, eu relevava. Ora, estava previamente explicada a razão de o infeliz entornar o caldo, promover discussões, criar briga do nada, encasquetar com besteira. Era alguém difícil, coitado. E teve a gentileza de avisar antes. Como não perdoar?

          Já fui muito boazinha, lembro bem. Hoje em dia, se alguém chegar perto de mim avisando “sou uma pessoa difícil”, desejo sorte e desapareço em três segundos.

          Já gastei minha cota de paciência com esses difíceis que utilizam seu temperamento infantil e autocentrado como álibi para passar por cima dos sentimentos dos outros feito um trator, sem ligar a mínima se estão magoando — e claro que esses “outros” são seus afetos mais íntimos, pois com colegas e conhecidos eles são uns doces, a tal “dificuldade” que lhes caracteriza some como num passe de mágica. Onde foi parar o ogro que estava aqui?

          Chega-se numa etapa da vida em que ser misericordioso cansa. Se a pessoa é difícil, é porque está se levando a sério demais. Será que já não tem idade para controlar seu egocentrismo?

          Se não controla, é porque não está muito interessada em investir em suas relações. Já que ficam loucos a torto e direito, só nos resta se afastar, mesmo. E investir em pessoas alegres, educadas, divertidas e que não desperdiçam nosso tempo com draminhas repetitivos, dos quais já se conhece o final: sempre sobra pra nós os fáceis.