segunda-feira, 10 de junho de 2013

Eduardo Almeida Reis-Maledicência‏

Só existe uma explicação para as pessoas que, não precisando, saqueiam as cargas: espírito de imitação 


Eduardo Almeida Reis

Estado de Minas: 10/06/2013 

Virou moda falar mal do mineiro Eike Fuhrken Batista. Mais de uma vez, neste espaço imaculado de nossa mídia impressa, aconselhei o referido senhor a se naturalizar paquistanês ou indonésio, como forma de não ser odiado pelos brasileiros. A esmagadora maioria dos nossos patrícios não suporta a ideia de dividir os 8,5 milhões de quilômetros quadrados do nosso território com um valadarense que fala inglês, francês, alemão e ameaçava tornar-se o sujeito mais rico do mundo.

Entrou areia nos seus projetos. Demétrio Magnoli, sociólogo sério, escreveu o seguinte: “Eike Batista valia US$ 1,5 bilhão em 2005, US$ 6,6 bi em 2008, US$ 30 bi em 2011 e US$ 9,5 bi em março passado, depois de 12 meses nos quais seu patrimônio encolheu num ritmo médio de US$ 50 milhões por dia”.

De março para cá, diz o philosopho, parece que a situação do Grupo X conseguiu piorar bastante, a julgar pelo que leio nos jornais. Desejo sinceramente que o empresário consiga recompor os seus negócios e volte a figurar no topo da lista de mais ricos do mundo. Não o conheço pessoalmente, não quero nem preciso conhecer. Se tivesse que torcer “contra”, selecionaria alguns bandidos que conheço bem, mas deles só quero distância: são casos de polícia, não de philosopho.

Vinte anos atrás publiquei um livrinho – Pau-de-tinta, Memória de um país em construção – em que há um ou dois capítulos sobre a epopeia da Ferrovia do Diabo, a Madeira-Mamoré, que envolveu o empresário norte-americano Percival Farquhar (1864-1953), de abastada família quacre, formado em engenharia na Universidade de Yale, uma das melhores dos Estados Unidos.

Algo me diz que Eike tem muito de Farquhar e vice-versa ao contrário. A vida do engenheiro americano foi retratada numa porção de livros, sem que os autores concordem na crítica ou na louvação do sujeito que, entre outras proezas, construiu o porto de Belém (PA), envolveu-se na maluquice da Madeira-Mamoré e teve ferrovias e minas na Rússia, negociando pessoalmente com Lenin.

Em 2011, o governo de Rondônia outorgou a comenda Marechal Rondon, in memoriam, a Percival Farquhar e aos 876 americanos envolvidos na construção da ferrovia, numa região que, segundo Oswaldo Cruz, era a mais insalubre do mundo. Entre 1905 e 1918, Farquhar foi o maior investidor privado do Brasil, império que, segundo o escritor e ex-ministro Ronaldo Costa Couto, só rivalizou com o do conde Francisco Matarazzo e com o do visconde de Mauá.

Farquhar fazia de navio, sem telefone, o que Eike faz de jatinho com celular, ambos os dois com imenso prestígio junto aos governos dos países em que as suas empresas atuam ou atuavam.

O saque e os fatos


Faz tempo que acompanho, mesmo sem querer, a história do Haiti. Não me perguntem por quê. Acompanho, como vocês todos acompanham e devem ter notado que nunca se roubou tanto no país caribenho. Também não me lembro de Senado e Câmara tão vulgares, tão analfabetos como os atuais. Claro que o país tem problemas; todos têm. Mas só agora atinei com a explicação para o quadro doloroso.

O leitor já deve ter presenciado ou visto, nas matérias televisivas, caminhões tombados com as cargas espalhadas pelas ruas e pelas estradas. São acidentes que ocorrem no mundo inteiro, provocando fenômeno que, no Brasil, não consigo explicar: o saque das cargas.

Em regiões estimáveis, pessoas estimáveis, muitas das quais bem de vida, atiram-se ao saque como se dependessem da mercadoria saqueada para sobreviver. Tentei procurar explicação do Google, mas só encontrei saquê, bebida japonesa obtida de arroz fermentado artificialmente, e saque no vôlei e no tênis.

Só existe uma explicação para as pessoas que, não precisando, saqueiam as cargas: espírito de imitação. Como todos estão roubando, o cavalheiro e a dama dizem: “Também vou roubar”. Macaquear que se aplica, à maravilha, aos quadros político-administrativos. É triste, mas é a mais pura verdade.

O mundo é uma bola


10 de junho de 1770: Bucarell, governador de Buenos Aires, ordena que os britânicos desocupem as Ilhas Malvinas. Pelo visto, a luta pela posse das Falklands vem de longe.

Em 1842, irrompe a Revolução Liberal em Barbacena, Minas Gerais, Brasil. Instada pela Guarda Nacional e o povo, a Câmara Municipal declarou a cidade sede do governo da província e deu posse a José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, mais tarde barão de Cocais, como “presidente interino da Província”.

Entre os barbacenenses que atuaram no movimento, além de Camilo Ferreira Armond, o conde de Prados, a internet fala do coronel Marcelino Ferreira Armond, primeiro barão de Pitangui, dos irmãos João Gualberto, Pedro Teixeira e Antônio Teixeira de Carvalho, e do vigário Joaquim Camilo de Brito.

A partir do movimento, em vez de ficar pelejando com revoluções liberais, os barbacenenses devem ter achado mais divertido dividir-se em andradistas e biistas, e lá estão até hoje fingindo que se odeiam, quando, no fundo, se amam de montão.

Hoje é o Dia da Artilharia e o Dia da Raça. Pelo menos, é o que vejo da Wikipédia.

Ruminanças


“A provação do ridículo é uma das mais decisivas a que se pode sujeitar um homem.” (Ramalho Ortigão, 1836-1915)

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