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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Fora da lei, 11 capitais negam tempo livre a professores

folha de são paulo
(FÁBIO TAKAHASHI, NATÁLIA CANCIAN, RAFAEL TATEMOTO E RAYANNE AZEVEDO)

Municípios ignoram exigência de horário para docente planejar aula
Prefeituras alegam falta de verbas; apenas Macapá ainda não paga o valor mínimo de R$ 1.567 de salário-base
DE SÃO PAULO
Cinco anos após ser aprovada no Congresso, a lei que fixa condições mínimas aos professores de escolas básicas públicas não é cumprida em 12 das 27 capitais. Uma delas não paga o piso salarial e as outras 11 não concedem jornada extraclasse mínima.
A regra determina piso salarial de R$ 1.567 no ensino fundamental e médio (jornada de 40 horas semanais).
Também exige que o docente fique 1/3 do período fora das aulas, para preparação de atividades, por exemplo.
Levantamento da Folha com secretarias municipais de Educação aponta que em 11 capitais o período extraclasse é inferior ao exigido (Belém, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis, Maceió, Manaus, Natal, Recife, Salvador, São Paulo e Vitória). Em relação ao valor do salário, Macapá paga R$ 1.345 --menos que o piso, portanto.
A lei visa melhorar condições de trabalho dos docentes em atividade e atrair mais jovens para o magistério.
A maior dificuldade para se cumprir a regra da jornada extraclasse é que ela requer contratação de docentes, pois os professores já em atividade teriam que dar menos aulas.
Segundo a Undime, que representa secretários municipais de Educação, gestores buscam cumprir a regra, mas alegam falta de verbas.
"Todo mundo vai ter de ceder nesse processo", disse a presidente da Undime, Cleuza Repulho, referindo-se a prefeituras e sindicatos.
SANÇÃO
A lei não prevê sanção automática ao gestor que descumpra a regra. Ao sancionar a norma, o então presidente Lula afirmou que só cabe punição se comprovada a desonestidade do administrador.
Pesquisador da USP em direito administrativo, Gustavo Justino de Oliveira entende que a própria legislação sobre improbidade prevê punição a quem desrespeita lei como a do piso do magistério. Um passo necessário é o pedido do Ministério Público.
Já Carlos Ari Sundfeld, pesquisador da PUC e da FGV, vê como exagerada uma ação de improbidade em casos que não se caracterizem má fé. Diz, porém, que há respaldo legal para que docentes peçam cumprimento da lei.
Resolução do Conselho Nacional de Educação estabeleceu 2015 como prazo final de transição. A regra, porém, não tem força de lei.
Há divergências sobre o alcance da lei do piso. "Atividade intelectual, principalmente como a docência, exige reflexão e preparação", disse o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.
Já Ilona Becskeházy, consultora em educação, considera ser mais importante a definição de currículo claro para as escolas, melhoria nos materiais e infraestrutura.
OUTRO LADO
Redes municipais dizem que vão se adequar à norma
DE SÃO PAULOAs capitais que descumprem a lei do magistério dizem buscar a adequação, mas esbarram na falta de recursos.
Única capital que não paga o valor salarial mínimo, a Prefeitura de Macapá diz que o pagamento é compensado com gratificações, que podem aumentar "em até quatro vezes" o salário docente.
A lei do magistério, porém, fixa piso para o salário-base. "Há uma série de penduricalhos [gratificações]. Se formos pagar o piso-base, quebra a prefeitura", afirmou a secretária de Educação, Antônia Costa Andrade.
A rede paulistana diz que apenas parte dos professores não tem o 1/3 da jornada fora da aula (os com contrato de 30 horas semanais). Mesmo eles, afirma a prefeitura, podem migrar para jornadas que já cumprem o que prevê a lei.
Florianópolis e Belém dizem que, como não conseguem deixar todos os professores 1/3 da jornada fora da sala de aula, pagam gratificações para compensar.
A capital catarinense afirma que os professores dos anos finais do fundamental já estão enquadrados na lei. E que os demais estarão adequados até 2015.
Campo Grande, Maceió, Natal, Recife e Salvador dizem que também estão em processo de adequação.
A Prefeitura de Cuiabá afirma que seu percentual de jornada extraclasse ao menos cumpre lei municipal (20%).
As redes de Manaus e Vitória não explicaram por que descumprem a regra.
O Ministério da Educação afirma reconhecer a dificuldade de implementação da lei, mas diz que não tem o poder de fiscalizar as prefeituras, que têm autonomia.

Jornada afeta professor e aluno, diz docente
DE SALVADOR
A baiana Ivone Anunciação Souza, 43, não se conforma. Ela trabalha na rede municipal de Salvador, que descumpre a lei dos professores e não lhe dá um terço de sua jornada para preparar aulas ou corrigir provas.
Ivone, que ensina em dois turnos (à noite, para jovens e adultos), diz que isso compromete a qualidade do curso e de sua vida.
"Nós também temos relações interpessoais e nosso futuro. Isso tudo fica prejudicado quando se tem uma pilha de provas para corrigir ou três empregos", diz.
Em 2011, o STF (Supremo Tribunal Federal) julgou que a reserva do chamado terço extraclasse é constitucional.
"Assim como vocês, repórteres, precisam de tempo para apurar uma história e depois escrevê-la, o professor precisa para fazer seu planejamento pedagógico", diz.
O professor Arlindo César, 24, concorda.
"Por enquanto não tenho filhos e estou sem namorar. Como conseguirei ter uma vida normal no ritmo que levo?", questiona.
ANÁLISE
Da intenção à realidade, ainda há uma grande distância
MARCELO LEITEDE SÃO PAULOCom a adoção de um piso salarial nacional para professores de educação básica, há cinco anos, a sociedade brasileira emitiu sinal inequívoco de que deseja pôr termo à progressiva proletarização dessa profissão decisiva para o desenvolvimento do país e de seus cidadãos. Da intenção à realidade, todavia, vai uma grande distância.
A boa notícia do levantamento realizado pela Folha está na razoável obediência à norma salarial pelas redes municipais de ensino nas capitais. Só em Macapá se observa descumprimento.
O valor do piso também é respeitado pela maioria das secretarias estaduais de Educação, indicam levantamentos anteriores. Falta porém, uma pesquisa sobre as outras 5.544 cidades do país, que indicará se esse padrão mínimo de remuneração determinado pela lei "pegou" ou não.
Não seria arriscado dizer, tomando só as capitais e as redes estaduais de ensino, que a maioria dos alunos de educação básica no Brasil já conta com professores que recebem o piso. Embora acarrete um ônus e tanto para prefeitos e governadores, seria leviano concluir que está tudo bem. Longe disso.
Em primeiro lugar, o piso de R$ 1.567 não pode ser considerado alto. Equivale a 2,3 salários mínimos, é verdade, mas fica abaixo do salário médio nacional de R$ 1.793 (dado de 2011) divulgado em maio passado pelo IBGE, com base no Cadastro Central de Empresas (Cempre).
Se comparado com a média dos que têm diploma de nível superior (R$ 4.135), como se exige da quase totalidade de docentes de educação básica, o piso dá uma medida mais objetiva do prestígio social conferido à categoria: o trabalho do professor vale não muito mais do que um terço (38%) do que ganham outros profissionais com a mesma titulação.
QUALIDADE
De um ponto de vista qualitativo, então, a realidade é ainda mais preocupante.
O levantamento constatou também que só 16 das sedes de unidades da Federação cumprem outro dispositivo menos lembrado da lei 11.738: a obrigação de reservar um terço da jornada de 40 horas semanais para trabalho fora da sala de aula.
Para dar uma educação melhor, o professor precisa de tempo para preparar aulas, fazer cursos e atualizar-se sobre novos conhecimentos, livros didáticos e técnicas de ensino na sua área.
Se ficar oito horas por dia em classe, a tendência é que repita sempre a mesma aula. Ou, pior, que siga sem refletir as receitas prontas, sem adaptá-las aos alunos de carne e osso que tem diante de si.
O piso salarial representa um avanço importante para a educação brasileira. Mas o país ainda está muito aquém do teto do que é possível e necessário realizar para que se eleve acima do pântano de mediocridade em que afunda.

    sexta-feira, 26 de abril de 2013

    Assassino de Glauco pode voltar para casa

    folha de são paulo

    Juíza que acompanha internação psiquiátrica diz que liberação, ainda sem data, é 'um fato' após aval de médico
    Magistrada diz, porém, não ter como garantir que ele não cometerá outro crime; cartunista foi morto em 2010
    NATÁLIA CANCIANDE SÃO PAULOTrês anos e um mês após a morte do cartunista Glauco Vilas Boas e do filho dele, Raoni, a Justiça de Goiás diz que o assassino confesso já está apto a sair da clínica psiquiátrica em que está internado e ir para a casa dos pais.
    Não há data para a saída de Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, 27. Mas a juíza Telma Aparecida Alves, que acompanha o processo, disse à Folha que a liberação "é um fato" e tem respaldo médico. Segundo ela, Cadu teve "evolução positiva" no tratamento psiquiátrico.
    A juíza diz, por outro lado, que é impossível garantir que ele não voltará a cometer um crime. "Qualquer um de nós, mesmo em perfeito estado, pode um dia agredir alguém. Não tem como eu dizer que ele nunca fará nada."
    "Por mais que se tenha prova, ele foi absolvido porque não teve capacidade de entender o que fazia", diz a juíza.
    Glauco e Raoni foram mortos em Osasco (Grande SP), em março de 2010. Cadu, ex-frequentador da igreja Céu de Maria, fundada por Glauco, confessou o crime. Declarado inimputável pela Justiça, ficou num complexo médico penal no Paraná (onde foi preso após fugir) e, em outubro de 2012, foi transferido a Goiânia, a pedido da família.
    Cadu passou por clínicas vinculadas ao Paili (Programa de Atenção ao Louco Infrator), da Secretaria de Saúde de Goiás. O advogado de Cadu em Goiás, Sérgio Divino Carvalho Filho, diz que ele teve evolução no tratamento depois da transferência.
    "Imagina um manicômio, sem cela, mas com grades. É onde ele estava antes. Como deixa de ser prisão, é outra perspectiva", diz o advogado.
    Segundo a coordenadora do Paili, Maria Aparecida Diniz, após sair da clínica, o paciente segue para tratamento ambulatorial, com acompanhamento. "O que extingue é a relação com a Justiça, mas não com o tratamento."
    O advogado da família de Glauco, Alexandre Khuri Miguel, vai à Justiça para impedir a liberação. "Ele já teve problemas com arma e com droga antes de surtar", diz.
    Segundo Miguel, a família sofre pelo ocorrido. "É preocupante. A juíza vai assinar salvo-conduto para esse rapaz matar quem quiser."

      quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

      MINHA HISTÓRIA - WALTER ORTHMANN, 90

      FOLHA DE SÃO PAULO

      75 anos de suor
      Catarinense recebe o título de funcionário com maior tempo de registro em uma empresa
      (...) Depoimento a
      NATÁLIA CANCIANDE SÃO PAULORESUMO Aos 90 anos, o catarinense Walter Orthmann só tem um registro em sua carteira de trabalho: desde os 15, ele nunca mudou de empresa nem parou de trabalhar. Na semana passada, ele recebeu o título de funcionário com o maior tempo de registro trabalhista em uma só empresa, pelo "RankBrasil", o livro dos recordes brasileiro. Agora, seus colegas planejam reivindicar o mesmo registro no "Guinness".
      Hoje [ontem] estou em São Paulo. Na segunda vou para o Rio e, depois do Carnaval, fico três semanas no Nordeste. Viajo um terço do ano, como gerente de vendas, uma mala de amostras na mão e a minha, de roupas, na outra. Preciso visitar meus clientes.
      Já estou com 90 anos. Na semana passada, quebrei meu próprio recorde pelo maior tempo de trabalho em uma única empresa: 75 anos. Nunca pensei em parar.
      Quando comecei, em 17 de janeiro de 1938, o meu salário era em réis. Desde então, já passei por oito moedas diferentes. Na minha carteira, o meu salário é na casa dos milhões. Hoje, não vale nada [ri].
      HISTÓRIA
      Eu tinha 15 anos quando fui com minha mãe pedir um emprego na RenauxView [ex-Indústrias Têxteis Renaux]. Batemos na porta e, em seguida, um diretor nos atendeu e disse que eu poderia começar na segunda.
      Meu primeiro cargo foi como auxiliar de expedição. Era das 6h às 18h, mas parava ao meio-dia. Enrolava tecidos, escrevia nas etiquetas. À noite, eu estudava datilografia.
      Depois fui trabalhar como estafeta, o que chamam de office-boy. Naquela época tudo era feito em dinheiro vivo, que buscava para pagar aos operários. Ia com minha própria bicicleta até o banco.
      Meu cargo seguinte foi em faturamento. Quando comecei, fazia tudo a mão. Não tinha máquina de calcular.
      Em 1955, o diretor achou que eu deveria viajar e conhecer clientes. Na minha primeira viagem, fechei uma venda para as Casas Pernambucanas que fez a tecelagem trabalhar por um mês inteiro. Não parei mais de viajar.
      Ia de ônibus para Rio e São Paulo. Depois, com o avião, passei a percorrer o Norte e o Nordeste. Ia de Porto Alegre a Manaus. Ainda hoje, o Nordeste é inteirinho meu.
      A empresa tem clientes mais antigos que me acompanharam e fazem questão de serem atendidos por mim. Em muitos lugares, já estou na terceira geração. Comecei a negociar com o pai, depois com o filho e hoje o neto.
      IGUAL AO PAI
      Tenho oito filhos, cinco do primeiro casamento e três do segundo. Casei de novo aos 58 anos, com uma moça de 27. Meu filho mais novo, Marcelo, nasceu quando eu tinha 71 anos. Hoje ele tem 19 e começou a fazer estágio na mesma empresa em que trabalho, mas no setor de compras.
      É igual ao pai, já quer trabalhar! As pessoas brincam com ele e perguntam: "Marcelo, você também vai ficar na empresa por 70 anos?".
      Também convivi com todos os 12 diretores. Em 2006, mudou o controle e entrou como presidente o Armando [Hess de Souza]. Eu vendia tecidos para a mãe dele.
      SEM E-MAIL
      Acompanho todas as mudanças na tecnologia, na produção. Mas não deixo a máquina de escrever, que ainda uso. Nunca pensei em trocar por um computador. Hoje, computador é preciso, mas não quero pegar um. Já trabalho o dia todo e não quero me viciar nisso.
      O mesmo vale para e-mail. Se eu tiver um e-mail, vou acabar olhando em casa e trabalhar à noite. Não dá.
      Minha rotina é simples: acordo às 6h, tomo banho, depois como um mamão papaya, iogurte, tomo suco de laranja e um pinguinho de café. Mas sem açúcar, porque não é bom para ninguém.
      Começo a trabalhar às 8h, faço pausa para o almoço e fico até as 17h. Mas nas viagens não tenho horário. Já cheguei a sair de casa à noite e chegar só no outro dia.
      FÉRIAS
      Eu me aposentei em 1978, mas perguntaram se eu não queria continuar a trabalhar. Eu era útil para a empresa.
      Desde então, nunca pensei em sair. Se me aposentar, não vivo mais. Meus amigos que se aposentaram não estão mais comigo.
      Trabalhar é saúde. Se ficar em casa, você fica doente. Ao mesmo tempo, no trabalho, você não pode ficar nervoso. É preciso trabalhar com alegria e fazer o que gosta.
      Eu faço o que gosto. Conheço todos os tipos de tecido, todos os panos. Não gosto de tirar férias. Eu fico nervoso. Em casa, eu durmo tarde, acordo tarde, fico com o corpo duro de ficar no sofá.
      Já recebi outras ofertas de emprego quando era mais novo. Uma empresa de Brusque ofereceu até o dobro do salário. Mas nem cogitei sair.
      Quando fiz 70 anos na empresa, fiz questão de fazer uma festa. E disse no meu discurso: "Se Deus quiser, daqui a cinco anos estarei aqui novamente para comemorar".
      E comemorei. Agora, o que vier é lucro. Vou trabalhar até a saúde me ajudar.

        domingo, 13 de janeiro de 2013

        Pulseira 'high-tech' ajuda a encontrar criança na praia

        folha de são paulo - folha verão

        Familiares cadastrados receberão informações via SMS no litoral paulista, onde, desde 21/12, houve 323 casos de crianças perdidas
        Produto, que será lançado no dia 25, custará R$ 6 e poderá ser usado também em shoppings e aeroportos
        NATÁLIA CANCIANDE SÃO PAULOPrimeiro, foram as palmas e as pulseirinhas de papel. Depois, as tendas e os bandeirões coloridos. Agora, pulseiras de silicone à prova d'água ligadas a um sistema eletrônico são as novas estratégias disponíveis aos pais para ajudar a localizar filhos perdidos na praia.
        Só no auge deste verão, de 21 de dezembro a 10 de janeiro, o litoral paulista já soma 323 casos de crianças perdidas, segundo o Corpo de Bombeiros - o que representa um avanço de 41% em relação à temporada passada e de 201% ante a de 2010/2011.
        De fabricação chinesa, a nova pulseirinha deve chegar primeiro às areias do Guarujá, a partir do dia 25. A ideia é da ONG Anjos do Verão, grupo de voluntários que há seis anos espalhou o "batepalmaço" para localizar crianças que se perdiam na multidão.
        Na nova estratégia, o grupo instala um código numérico em baixo relevo na pulseira -que pode ser usada por até dois anos- e cadastra no sistema dados da criança, celular e e-mail dos pais e de outros familiares.
        Se a criança se perder, quem encontrá-la verá na pulseira instruções para que envie SMS ao grupo ou acione o código na internet, no site www.sosanjos.com.br.
        Assim que o código é digitado, familiares cadastrados recebem automaticamente uma mensagem dizendo que a criança foi encontrada.
        O sistema permite ainda cadastrar o nome e telefone de quem a encontrou e informar um ponto de referência. Um geolocalizador também avisará aos pais de onde o código foi acionado.
        Segundo o coordenador da Anjos do Verão, Rui Silva, a ideia é instituir uma nova forma de identificação, sem correr o risco de expor dados da criança e da família.
        Inicialmente, a nova pulseirinha custará R$ 6 -o valor deve bancar custos do desenvolvimento do sistema e monitores para atuar nas praias. O material pode ser adquirido na praia da Enseada, no Guarujá.
        Desde 2006, a ONG afirma ter encontrado 1.030 crianças -a meta é chegar a 1.200 nesta temporada. Agora, a ideia é levar o sistema para além da faixa de areia.
        "Queremos criar um ponto de encontro eletrônico que sirva não só para as praias, mas também para o pai que leva os filhos ao shopping, ao aeroporto ou até a rua 25 de Março", diz Silva.


        FRASE
        "Queremos usar todas as ferramentas tecnológicas para diminuir o tempo do reencontro com os filhos. Hoje, a maioria já usa smartphone e o leva à praia"

          FOLHA VERÃO
          15 crianças se perdem por dia no litoral paulista
          Registro de ocorrências também cresce em praias de outros Estados, como em Santa Catarina e no Paraná
          Corpo de Bombeiros diz que o aumento nesta temporada é 'atípico' e indica que pais devem redobrar a atenção
          DE SÃO PAULOBastaram dois minutos de distração para que Erick, 9, que brincava na areia, perdesse de vista o guarda-sol onde estavam os pais no Guarujá.
          "Ele estava a poucos metros e sumiu. Achei que o tivessem levado", diz Marilsa Trindade, 32, que passava férias com o filho na praia da Enseada.
          Um parente ficou no guarda-sol, enquanto ela e o marido saíram à procura. Encontraram o garoto 30 minutos depois, com ajuda de guarda-vidas e voluntários. "Parecia uma eternidade. Quando o vi, só sabia chorar e abraçá-lo."
          Casos como esse, registrado no último domingo, têm sido mais frequentes no litoral paulista. Segundo o Corpo de Bombeiros, o número de crianças perdidas na praia dobrou nos últimos dois anos -de 607 em 2011 para 1.161 em 2012.
          O verão concentra a maioria dos casos. Só nesta temporada (do dia 21/12 até o último dia 10), foi uma média de 15 crianças perdidas ao dia. O número pode ser maior, pois representa só casos em que guarda-vidas são acionados.
          Para o tenente-coronel Eduardo Nocetti, do Corpo de Bombeiros, o aumento é "atípico" e indica que pais precisam redobrar a atenção.
          O aumento também ocorre em outros Estados. No Paraná, desde o início da temporada, houve 140 ocorrências -alta de 40% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já em Santa Catarina, em três meses, foram 332 casos -o Estado não informou dados de anos anteriores.
          Recomenda-se, para evitar o problema, o uso de pulseiras de identificação e a fixação, juntamente com os filhos, de um ponto de referência, como um prédio alto.

            DEPOIMENTO
            Perdida, só me lembrava do 'índio' do prédio
            DENISE CHIARATOEDITORA DE “COTIDIANO”
            "A única coisa que ela sabe é que tem o desenho de um índio na porta do prédio", dizia o sorveteiro, um pouco confuso, sem saber o que fazer com aquela criança perdida na avenida em frente à praia. Ele tentava convencer duas senhoras a assumir o problema, no caso eu.
            Em silêncio, de cabeça baixa, eu morria de vergonha diante de tamanha proeza -conseguir me perder entre os poucos metros que separavam o edifício onde estava com minha família e a banca de revistas. Tão senhora de mim aos oito anos de idade, nem percebi que segui em direção à praia, quando deveria voltar. E lá fui eu com as duas novas tutoras e o sorveteiro, em busca do tal edifício. Para elas, o jeito era chamar a polícia.
            Anda de um lado, pergunta do tal índio pro outro, até que ouço uma voz: "achamos". Uma prima, quase em prantos, me abraçou e disse "estávamos desesperados".
            Lá pelos anos 70, sem celular, iPhone, iPad ou outras tantas muletas, a estratégia foi cada integrante da família se dividir e fixar um tempo para voltar à porta do prédio. Estavam todos lá, minha mãe, primos, tia, o sorveteiro, as duas mulheres e eu -ainda muda. Só choro, abraço e, para o meu espanto, nenhuma bronca. E a cara de surpresa quando todos viram que só eu havia reparado no tal índio pintado na porta do prédio.
            Talvez nada disso teria acontecido se tivesse uma dessas pulseirinhas de identificação. Mas talvez também não tivesse aprendido que é sempre bom saber como voltar pra casa.

            quarta-feira, 21 de novembro de 2012

            Escolas excluem alunos de passeio cultural


            Escolas excluem alunos de passeio cultural
            Sem vagas suficientes, professores e diretores da rede estadual têm de selecionar quem visita museus e exposições
            'Os estudantes ficam frustrados e, nós, muito mais', diz docente; prática contraria regras do governo paulista
            NATÁLIA CANCIANREYNALDO TUROLLO JR.DE SÃO PAULOCom número de vagas em passeios insuficiente para atender a todos os alunos, professores e diretores de escolas estaduais de São Paulo se veem obrigados a excluir parte dos estudantes de visitas a museus e exposições.
            Pelas normas do programa Lugares de Aprender, o maior da pasta nessa modalidade, cada visita contempla 40 alunos. As regras dizem que, em uma visita, devem ser levados todos os alunos de uma classe, "sem distinção".
            Mas, na prática, isso não acontece. Nas últimas cinco semanas, a Folha conversou com dezenas de professores de escolas estaduais de 14 cidades, que relataram ser comum alunos de uma mesma sala serem preteridos do passeio. Os escolhidos geralmente são os que têm as melhores notas ou bom comportamento.
            Segundo os professores, isso ocorre porque a secretaria costuma ofertar só um ônibus para uma determinada série de uma escola.
            Assim, para levar alunos das quatro salas da oitava série à Bienal, por exemplo, docentes selecionam dez de cada classe. Os demais ficam de fora.
            "Já chegam com a lista dos alunos pronta. Vão sempre os mesmos. E aí os outros pensam: 'Por que vou me interessar?'", afirma a aluna do ensino médio Mayara Cardoso, 18, da zona leste da capital, que diz ter sido preterida.
            Em Santo André, a mãe de um aluno de 15 anos chamou de "absurda" a exclusão do filho de um passeio neste ano, também à Bienal. Ele já havia sido excluído de outro dois anos atrás. Neste ano, segundo relato do aluno à Folha, a escola teve de selecionar 40 alunos de três classes do primeiro ano do ensino médio.
            A reportagem contatou professores, alunos e pais por telefone e pessoalmente, durante visitas à Bienal de São Paulo e ao Catavento Cultural, ambos na capital. De todos ouviu relatos semelhantes sobre exclusão de alunos. A maioria pediu para ter seus nomes e os das escolas preservados.
            EXCLUSÃO AUTOMÁTICA
            Quando a sala tem mais de 40 alunos, o excedente está automaticamente excluído.
            Nesses casos, de acordo com uma professora de Pirajuí (a 384 km de São Paulo), costuma-se deixar de fora os que faltaram à aula no dia do anúncio do passeio.
            Mesmo escolas que tentam cumprir as normas, levando uma classe inteira por vez, recebem queixas. "Por que a escola leva sempre só o 1º ano A? Minha filha nunca foi", diz Alexandra Wolf, 42, mãe de aluna do 1º ano D de escola de Santo André (Grande São Paulo).
            "A moral da história é essa: escolha", diz uma professora de Ribeirão Pires (Grande São Paulo). "Os alunos ficam frustrados e, nós, muito mais."
            Conforme um professor de artes de São José dos Campos (a 97 km de São Paulo), a escola em que ele leciona faz uma lista dos "alunos de destaque", que são "convidados" para os eventos extraclasse.
            "Já aconteceu de aluno que não foi [ao passeio] estudar mais, para ir no próximo", diz.
            Mas para Neide Noffs, da Faculdade de Educação da PUC-SP, nem sempre o aluno entende o critério. "O excluído fica com uma mágoa que pode prejudicar seu rendimento."
            Neste ano, 852 mil participaram do programa; a rede tem 4,3 milhões de alunos.


            OUTRO LADO
            Governo apura problemas e pretende ampliar programa
            Secretaria diz que número de alunos beneficiados aumentou de 160 mil, em 2008, para 852 mil neste ano
            DE SÃO PAULOA Secretaria da Educação de São Paulo afirma que o uso de critérios como nota e comportamento para selecionar alunos para passeios é contrário às regras do programa e que vai apurar "quaisquer irregularidades para que sejam adotadas as medidas cabíveis".
            Segundo o governo, o número de alunos beneficiados aumentou de 160 mil, em 2008, para 852 mil neste ano. A rede estadual tem 4,3 milhões de alunos matriculados.
            Para 2013, a pasta diz ter a perspectiva de "aumentar o número de parcerias com espaços culturais e, se possível, ampliar a quantidade de estudantes por visita".
            Por meio de nota da FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), responsável pelo Lugares de Aprender, a pasta diz que orienta alunos e professores "a procurar as diretorias de ensino para informar sobre problemas no desenvolvimento das atividades do programa".
            As diretorias regionais são orientadas a organizar as ações "de modo que todos os estudantes de uma mesma classe participem das atividades".
            A secretaria diz que a necessidade de mais de 40 vagas por classe é "atípica" e que, quando ocorre, são contratados veículos extras.
            E que só existe o limite de 40 alunos por passeio porque instituições como museus oferecem número restrito de vagas. "As instituições recebem um número de visitantes de acordo com sua capacidade, em média, de 40 estudantes e dois docentes."
            A nota afirma também que "a única razão pela qual um estudante pode deixar de participar das visitas didáticas é a não anuência de seus pais".
            Com base no direito ao sigilo da fonte previsto na Constituição, a Folha informou à fundação que, a pedido de alunos, professores e diretores, que temem represálias, não divulgaria as escolas dos entrevistados.
            "A FDE lamenta que o jornal tenha se negado a informar em quais e quantas escolas haveria problemas. Com essa omissão, a Folha contribui para a manutenção de supostas práticas contrárias às regras do programa."

              domingo, 11 de novembro de 2012

              Ministério Público investiga ameaças feitas a estudante


              DE SÃO PAULO
              As ameaças relatadas por Isadora Faber devido ao "Diário de Classe" viraram alvo de investigação.
              O Ministério Público de Santa Catarina abriu um procedimento na semana passada para verificar se a aluna "está sofrendo constrangimento no ambiente escolar" e para discutir que medidas devem ser tomadas para protegê-la.
              A Polícia Civil também investiga a autoria do ataque à casa da estudante.
              Segundo o delegado Leonardo Silva, a diretora da escola Maria Tomázia Coelho, Liziane Farias, fez um boletim de ocorrência nesta semana acusando os pais de Isadora de "perturbação de sossego e do trabalho escolar".
              Procurada pela Folha, a diretora preferiu por não se pronunciar.
              Segundo a Secretaria de Educação de Florianópolis, a diretora procurou a polícia devido a discussões recentes e também após Isadora publicar que o funcionário contratado para realizar a pintura da quadra não fez o serviço.
              O atraso na pintura, que voltou a ser executada na semana passada, ocorreu por problemas de saúde do pintor, segundo a pasta.
              Sobre as ameaças relatadas, a secretaria afirma que pediu um aumento do efetivo policial ao redor da escola e fez reuniões com a família.

                Autora de 'Diário de Classe' diz que não sai mais sozinha


                Autora de 'Diário de Classe' diz que não sai mais sozinha
                Isadora Faber, 13, teve sua casa apedrejada depois que criou diário virtual
                Estudante afirma que tem apoio dos pais e dos colegas de classe, mas que nenhum professor, até agora, a ajudou
                NATÁLIA CANCIANDE SÃO PAULODepois de criar o "Diário de Classe", diário virtual em que relata os problemas da escola pública onde estuda, a catarinense Isadora Faber, 13, viu sua vida mudar.
                Na escola, enfrenta ameaças de alunos e funcionários. Os pais não a deixam mais sair sozinha. "Tem gente que diz que vai me bater", conta.
                Em entrevista à Folha, a aluna da 7ª série da escola municipal Maria Tomázia Coelho, de Florianópolis, fala sobre sua rotina (que inclui duas horas diárias para ver os comentários da página) e as represálias que sofre.
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                Folha - Você criou o "Diário de Classe" em julho. Como vê o resultado hoje?
                Isadora Faber - Fico muito feliz com o resultado e um pouco triste com o jeito que alguns alunos agem em relação a isso, porque veio muita coisa boa para a escola. Mas os professores contam para eles que estou fazendo uma coisa ruim, que eles têm que tomar uma providência.
                O que esses alunos dizem?
                Tem bastante aluno que me xinga, que diz que vai me bater, me pegar na saída. Mas não tenho medo porque meus pais estão sempre lá.
                Sua rotina mudou?
                Antes eu podia sair sozinha. Agora, não. Meus pais estão preocupados. Na rua, bastante gente me olha com cara feia. E alguns vêm me dizer parabéns pela coragem.
                Hoje, o diário tem mais de 370 mil seguidores. Você imaginava essa repercussão?
                Minha intenção era só mostrar como as escolas públicas eram por dentro. Eu fiquei surpresa e feliz quando começaram as reformas.
                Há alguma coisa que ainda precisa melhorar por lá?
                Falta pintura na escola inteira. A diretora disse que iam pintar, mas o pintor nunca apareceu. E já faz dois anos.
                Sua casa foi apedrejada na segunda-feira. Como foi isso?
                Estávamos no pátio, e começou a vir pedra, uma na grama, outras no carro. Uma acertou a minha avó, que não fala nem anda. Eu e minhas irmãs corremos para dentro. Meu pai foi ver quem estava jogando, mas não deu tempo, porque minha avó estava sangrando. Fiquei com um pouco de raiva.
                Você acha que o ataque está relacionado ao diário?
                Bah, com certeza. É muita gente me ameaçando.
                Como são as ameaças?
                A maioria vem da filha do pintor [da quadra, a quem Isadora criticou no Facebook por não ter feito o serviço] e das amigas dela. Elas falam que vão me bater, que vão me pegar na rua.
                A diretora faz alguma coisa?
                Às vezes ela chama todo mundo para conversar, mas nunca resolve.
                Como você reage?
                Dependendo da ameaça, meu pai faz BO [boletim de ocorrência]. E eu tento não dar bola. Fico quieta.
                Em setembro, você foi à delegacia depois que uma professora reclamou de uma postagem sua...
                Ela nem me olha. Se eu tiver alguma dúvida, até posso perguntar, mas é bem difícil.
                Algum professor lhe dá apoio?
                Não. Nenhum.
                E os colegas?
                Os da minha sala são os que mais dão apoio. Mas os outros da escola, não.