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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Cientistas vislumbram manipulação da memória

folha de são paulo
nytimes
NICK BILTON
DO "NEW YORK TIMES"
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Os cientistas ainda não encontraram um jeito de reparar um coração partido, mas estão chegando mais perto de manipular a memória e de descarregar instruções de um computador diretamente para um cérebro.
Pesquisadores do Centro de Genética de Circuito Neural do Instituto de Tecnologia Riken-Massachusetts nos levaram para mais perto da ideia de manipulação cerebral quando anunciaram ser capazes de criar uma memória falsa num camundongo.
Na edição de 26 de julho da "Science", os cientistas anunciaram ter feito camundongos se lembrarem de ter recebido um choque elétrico em um lugar, quando, na realidade, isso teria acontecido em local completamente diferente.
"Não foi exatamente escrever uma memória a partir do nada, mas conectar dois tipos diferentes de recordações. Pegamos uma recordação neutra e a atualizamos artificialmente para convertê-la em recordação negativa", explicou Steve Ramirez, um dos neurocientistas do MIT.
Pode soar insignificante, mas, segundo Ramirez, não é um salto muito grande imaginar que essa pesquisa possa levar à manipulação computadorizada da mente para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático.
Tecnólogos estão trabalhando sobre interfaces cérebro-computador que nos permitirão interagir com nossos smartphones e computadores, usando simplesmente nossas mentes. Já existem aparelhos que leem nossos pensamentos e nos permitem fazer coisas como nos desviar de objetos virtuais em um jogo de computador ou ligar e desligar chaves com o pensamento. Mas os cientistas que trabalham com a manipulação da memória parecem estar ampliando as fronteiras do que pensamos ser possível.
No filme "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", o personagem representado por Jim Carrey usa um serviço que apaga memórias para limpar de seu cérebro a lembrança de sua ex-namorada (interpretada por Kate Winslet).
De acordo com Ramirez, o filme só erra em uma coisa: uma lembrança inteira é apagada. "Acho que nós podemos fazer melhor: podemos conservar a imagem de Kate Winslet, livrando-nos apenas da parte dessa recordação que provoca tristeza".
Em 2011, cientistas que trabalham com a Universidade de Boston e os Laboratórios A.T.R. de Neurociência Computacional, em Kyoto (no Japão), publicaram um artigo sobre um processo chamado neurofeedback decodificado, ou "DecNef", que envia sinais para o cérebro por meio de um aparelho de imagem por ressonância magnética funcional, capaz de modificar o padrão de atividade cerebral de uma pessoa. Os cientistas acreditam que, com o tempo, poderão ensinar uma nova linguagem ou o domínio de um esporte "carregando" informações no cérebro.
Em fevereiro, o neurocientista Miguel A. Nicolelis, da Universidade Duke, na Carolina do Norte, conectou os cérebros de dois ratos pela internet, permitindo que eles se comunicassem com suas mentes de tal modo que, quando um rato pressionava uma alavanca, o outro fazia a mesma coisa. Um dos ratos estava na Carolina do Norte e o outro em um laboratório em Natal, no Brasil.
No verão deste ano, cientistas da Escola Médica Harvard criaram uma interface cérebro-a-cérebro com a qual um humano pode mover a cauda de um rato pelo simples pensamento.
"Acho que essa é a fronteira real da comunicação humana no futuro. Já podemos fazer com que macacos, e até mesmo humanos, movimentem artefatos com o simples pensamento", comentou Nicolelis. "A partir do momento em que for possível 'escrever' no cérebro, posso imaginar o mesmo tipo de lógica funcionando para a comunicação de pensamentos e mensagens entre humanos."

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Gays russos não encontram refúgio, causando furor no Ocidente

folha de são paulo
DAVID M. HERSZENHORN
DO "NEW YORK TIMES", EM MOSCOU
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Se este artigo estivesse sendo publicado por um jornal russo, teria classificação de censura 18 --como um filme pornográfico-- e deveria conter o seguinte alerta: "Este artigo contém informações inadequadas para menores de 18 anos, de acordo com a legislação russa".
Alertas como esse, anexos a quaisquer artigos que discutam a homossexualidade ou os direitos dos gays, são resultado de uma lei que nominalmente "protege" as crianças ao proibir "propaganda de relacionamentos sexuais não tradicionais", mas que é entendida de modo mais amplo como esforço para reprimir a homossexualidade e o incipiente movimento russo de defesa dos direitos dos gays.
A lei, assinada em junho pelo presidente Vladimir Putin, deflagrou condenação internacional e apanhou o Kremlin de surpresa ao causar uma controvérsia política tóxica, que as autoridades desejavam desesperadamente evitar nos meses que antecedem a Olimpíada de Inverno de Sochi, em 2014.
A última olimpíada disputada em solo russo, em 1980, foi prejudicada por um boicote relacionado à invasão do Afeganistão pela União Soviética.
O furor inclui um boicote à vodca russa em bares gays de todo o Ocidente e alguns apelos por um boicote total aos jogos de Sochi. Além de colocar os organizadores na defensiva, a lei atraiu atenção internacional generalizada para as circunstâncias cruéis sob as quais a maioria dos homossexuais vive na Rússia atual.
A despeito da riqueza deslumbrante e da cultura vibrante de cidades como Moscou e São Petersburgo, a Rússia continua a ser um país no qual discriminação e até violência contra os gays são em geral toleradas.
"O que está acontecendo agora na Rússia contradiz o lugar do país no mundo", diz Anton Krasovsky, âncora de televisão que foi demitido de seu posto na KontrTV, uma estação estatal de TV, em janeiro, depois de anunciar que era gay durante um telejornal ao vivo, afirmando estar cansado de mentir sobre sua vida e se declarando ofendido com o projeto de lei.
Poucos homossexuais russos reconhecem abertamente sua orientação sexual, e aqueles que o fazem são frequentemente alvo de intimidação. Quando alguns gays realizaram um protesto contra a lei de propaganda se beijando diante da Duma, a câmara baixa do Legislativo, policiais assistiram sem interferir a ataques contra eles conduzidos por partidários do projeto, religiosos e hostis à homossexualidade.
Cerca de 88% dos russos apoiam a proibição à propaganda de homossexualidade, de acordo com pesquisa conduzida em junho pelo Centro de Opinião Pública Pan-Russo.
Uma pesquisa conduzida em abril pelo Centro Levada constatou que 35% dos russos consideram que a homossexualidade seja uma doença e que 43% a encaram como um mau hábito, resultado de criação indevida pelos pais ou sintoma de abuso.
No mês passado, o patriarca Cirilo, líder da Igreja Ortodoxa, classificou o casamento homossexual como "um perigosíssimo pecado do apocalipse".
As declarações contraditórias de importantes funcionários russos sobre as formas de aplicação da nova lei durante os jogos contrariaram as garantias do Comitê Olímpico Internacional (COI) de que os atletas e espectadores gays nada teriam a se preocupar quanto a isso, e resultaram em severas críticas aos organizadores, que solicitaram esclarecimentos do Kremlin.
Já surgiram comparações com a Alemanha nazista como anfitriã da olimpíada de 1936, dentro e fora da Rússia, uma das quais feita por Jay Leno durante entrevista com o presidente Barack Obama no "Tonight Show", na semana passada.
"Uma coisa que me chocou quanto à Rússia", diz Leno ao presidente, "é que de repente a homossexualidade é ilegal. Poxa, está parecendo a Alemanha. Vamos prender os judeus. Vamos prender os gays. Vamos prender os negros. As coisas começam assim, afinal".
As autoridades russas afirmam que as críticas são injustas e imprecisas. Em 1993, a Rússia revogou uma lei da era soviética que definia a homossexualidade como crime.
"Não estamos falando de impor sanções contra a homossexualidade", disse Putin, defendendo a nova lei em uma entrevista coletiva em junho. "O objetivo é proteger s crianças".
Ele acrescentou que "a lei não restringe de maneira alguma os direitos das minorias sexuais. Elas são membros plenos de nossa sociedade e não sofrem qualquer discriminação".
Os defensores dos direitos dos homossexuais discordam, afirmando que a lei é imprecisa e pode ser usada para prender qualquer pessoa que pareça apoiar os direitos dos gays.
Os críticos dizem que a repressão russa aos direitos dos gays é parte de um padrão que também inclui o aperto da pressão sobre grupos da sociedade civil e medidas de limitação da influência estrangeira --tudo isso em aparente descompasso com os esforços russos para sediar eventos internacionais, como os recém-completados Jogos Universitários Mundiais, em Kazan, e o mundial de atletismo em curso em Moscou.
Além de Sochi, a Rússia sediará a Copa do Mundo de 2018 e é candidata a organizar a Exposição Mundial de 2020. Perguntado se a questão dos direitos dos homossexuais poderia prejudicar essa candidatura, o primeiro-ministro assistente Arkady Dvorkovich respondeu que a Rússia estava competindo com Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), onde a homossexualidade é ilegal.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

'Curtidas' em links na internet são contagiosas, mostra estudo

folha de são paulo
Internauta tende a aprovar textos que já tenham agradado outros
DO "NEW YORK TIMES"Um texto publicado na internet e que recebe a aprovação dos leitores tem mais chance de receber uma "curtida" de outras pessoas, segundo uma nova pesquisa.
O estudo foi publicado na "Science" por pesquisadores do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
A ideia deles era responder a uma antiga pergunta: uma coisa é popular porque é boa ou é boa porque é popular?
Os cientistas então desenharam um experimento no qual poderiam manipular uma seção de comentários.
Eles usaram um site --que não quis divulgar seu nome-- em que os usuários publicam links para textos. Os leitores podem comentar sobre esses artigos e também "curtir" ou "reprovar" cada comentário.
No experimento, que durou cinco meses, cada comentário recebia dos pesquisadores um "curtir" ou "reprovar" de maneira arbitrária. Nos comentários do grupo-controle, nada era feito. Para refletir a tendência dos usuários do site, a maioria das respostas arbitrárias foi positiva.
Como resultado, a primeira pessoa que lia o comentário tinha 32% mais chance de aprová-lo se o texto já tivesse recebido um elogio artificial dos pesquisadores.
Ao longo do tempo, os comentários que tinham uma aprovação "falsa" tiveram notas 25% mais altas do que aqueles do grupo-controle --cada comentário recebeu uma nota calculada pela subtração de comentários negativos dos positivos.
Uma reação negativa, porém, não estimulou os outros a desgostarem do artigo.
Duncan Watts, cientista da Microsoft Research, afirma que o estudo confirma a ideia de que algo que começa já com mais popularidade vai chegar à frente de seus competidores, enquanto que algo que não "pega" rapidamente tende a sumir. "O maior obstáculo para o sucesso é ser notado", diz Watts.

    terça-feira, 6 de agosto de 2013

    Tempo avança mais rápido com a idade [Oliver Sacks]

    folha de são paulo

    Tempo avança mais rápido com a idade



    DO "NEW YORK TIMES"
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    The New York TimesA maioria das pessoas mais velhas sente que o tempo avança rapidamente, o que não é o caso dos jovens. Uma maneira de reverter essa sensação é aprender algo novo.
    Quando completou 80 anos, no mês passado, o neurologista e escritor Oliver Sacks escreveu no "New York Times": "Oitenta anos! Mal consigo acreditar. Muitas vezes, sinto que a vida está apenas começando, mas então me dou conta de que ela quase acabou." Ele foi o caçula entre seus irmãos e também em sua sala na escola secundária, escreveu, "e conservei esta sensação de ser o mais jovem, apesar de eu hoje ser quase a pessoa mais velha que conheço".
    Fica claro que há muitas pessoas que Sacks não conhece: apenas nos EUA, há mais de 10 milhões de pessoas com mais de 80 anos.
    As estatísticas nos dizem que os humanos estão vivendo mais tempo graças a avanços na medicina, na saúde e na qualidade de vida em países como Japão, Estados Unidos e em quase toda a Europa. Nas oito décadas passadas, desde que Sacks nasceu, a expectativa média de vida dos homens britânicos ou americanos passou de cerca de 60 anos para quase 80.
    Mas essas estatísticas andam sendo evidenciadas de outras maneiras, quando ícones da juventude eterna como Bob Dylan, Paul McCartney e Mick Jagger já chegaram ou passaram dos 70.
    Numa coluna publicada na ocasião do aniversário de Mick Jagger, no mês passado, Gail Collins, do "NYT", notou com é estranho ver chegar à terceira idade os heróis culturais dos anos 1960 que criticavam os valores das gerações mais velhas. "É claro que, em 1965, ter 70 anos era ser velho, diferentemente de hoje, quando os 70 anos são os novos 50", escreveu. "Ou, no caso de Jagger, os 17 anos de idade reciclados."
    Se você tem certa idade, pode sentir que os 50 anos passados desde que primeiro ouviu Jagger cantar "19th Nervous Breakdown" transcorreram num átimo. Isso é apenas ilusão, diz Richard A. Friedman, professor de psiquiatria clínica na Faculdade de Medicina Weill Cornell, em Nova York. "De modo geral, a maioria de nós tem percepção semelhante dos intervalos de tempo curtos, independentemente de nossa idade."
    Mesmo assim, Friedman reconhece que a maioria das pessoas mais velhas sente o tempo passar mais rapidamente que os mais jovens. Isso é porque os idosos tendem a compreender o passado olhando "pelo telescópio do tempo perdido". Os jovens estão mais ocupados aprendendo sobre o mundo e o lugar que ocupam nele. Segundo Friedman, esses atos de aprendizagem e de concentração desaceleram a passagem do tempo.
    Para os idosos que queiram acabar com a ilusão de que o tempo passa "voando", Friedman sugere "tornar-se estudantes outra vez. Aprender algo que exija esforço por algum tempo, fazer algo nunca antes feito."
    Mas, se você não consegue furtar-se a pensar no passado, não se desespere. "Já foi demonstrado que a nostalgia combate a solidão, o tédio e a ansiedade", escreveu John Tierney, do "NYT". "Torna as pessoas mais abertas a estranhos e mais tolerantes a quem não faz parte de seu mundo."
    Tierney cita estudos das universidades de Southampton, no Reino Unido, e de Tilburg, na Holanda, que fundamentam essas afirmações. "A nostalgia tem, sim, seu lado doloroso", escreveu, "mas seu efeito final é conferir mais sentido à vida e fazer a morte ser menos assustadora."
    A reflexão de Oliver Sacks sobre sua vida até agora parece induzir esse efeito. "Não penso na velhice como um tempo cada vez mais sofrido que temos que suportar e de alguma maneira procurar encarar", escreveu, "mas como um tempo de lazer e liberdade, liberto das urgências falsas dos tempos anteriores, livre para explorar o que eu quiser e para reunir os pensamentos e sentimentos de uma vida inteira."

    terça-feira, 30 de julho de 2013

    Médicos querem mudar definição de câncer

    folha de são paulo
    Especialistas dos EUA propõem eliminar a palavra "câncer" de certos diagnósticos
    DO "NEW YORK TIMES"
    Um grupo de especialistas conselheiros do Instituto Nacional de Câncer dos EUA recomendou mudanças na forma de detectar e tratar os tumores, incluindo alterações na definição da doença e até a eliminação da palavra "câncer" de alguns diagnósticos.
    As sugestões foram publicadas ontem no "Journal of the American Medical Association".
    Condições pré-malignas, como o carcinoma ductal in situ na mama -- lesão localizada que muitos médicos não consideram como câncer--, deveriam ser rebatizadas sem a palavra carcinoma, dizem os especialistas.
    Assim, os pacientes ficariam com menos medo e procurariam menos tratamentos desnecessários e arriscados como a remoção das mamas.
    O grupo também sugeriu que muitas lesões detectadas em exames de mama, próstata, tireoide e pulmão não deveriam ser chamadas de câncer, mas de IDLE (a sigla, que quer dizer indolente em inglês, significa lesões indolentes de origem epitelial).
    Algumas dessas mudanças devem levar anos para acontecer e parte dos especialistas discorda delas, mas o relatório pode mudar o tom do discurso sobre o câncer.
    O motivo por trás do pedido de mudança é a preocupação com as centenas de milhares de pessoas se submetendo a procedimentos desnecessários e arriscados para tratar leões pré-malignas ou tumores de crescimento tão lento que podem nunca causar dano.
    O advento de exames muito sensíveis nos últimos anos aumentou a chance de achar os chamados "incidentalomas" --lesões encontradas por acaso e que não chegariam a causar sintomas.
    O problema é que, uma vez que a lesão é descoberta, os médicos se sentem obrigados a fazer biópsia, tratar e removê-la. "Ainda temos dificuldade de convencer as pessoas que achados em testes como mamografia e PSA nem sempre são doenças malignas que vão matá-las", afirma Harold Varmus, diretor do Instituto Nacional de Câncer.
    O problema em mudar a nomenclatura, segundo Larry Norton, do Centro de Câncer Memorial Sloan-Kettering, é ainda não dá para dizer com certeza aos pacientes quais tumores são indolentes e quais vão matá-los.
    Norton afirma, no entanto, que é preciso melhorar a comunicação com o paciente. "A terminologia é só um termo descritivo e precisa ser explicada. Mas não dá para mudar centenas de anos de literatura médica só mudando a nomenclatura."
    O grupo de trabalho do Instituto Nacional de Câncer também pediu mais pesquisas que ajudem a distinguir tumores de crescimento lento daqueles mais agressivos.
    "Isso é bem diferente do pensamento de 20 anos atrás, quando achar um câncer significava um risco enorme de morrer", diz Varmus.

    terça-feira, 23 de julho de 2013

    100 milhões já acessam Facebook 'popular'

    folha de são paulo
    Rede social cria projeto para expandir base de usuários de celulares mais baratos
    DO "NEW YORK TIMES"O Facebook trabalha discretamente há mais de dois anos em um projeto vital para a expansão de sua base de 1,1 bilhão de usuários: colocar a rede social nos bilhões dos baratos "feature phones", que praticamente desapareceram na América e na Europa, mas são ainda a regra em países como Índia e Brasil.
    A rede social anunciou os primeiros resultados da iniciativa, chamada Facebook Para Qualquer Telefone.
    Mais de 100 milhões de pessoas, ou 1 em cada 8 de seus usuários móveis no mundo, agora acessam a rede social a partir de mais de 3.000 modelos diferentes de celulares simples, alguns custando tão pouco quanto US$ 20 (cerca de R$ 45).
    Muitos desses usuários pagam pouco ou nada para baixar o feed de notícias e o Facebook com o uso de dados subsidiado por operadoras de telefonia e fabricantes.
    O Facebook começou recentemente a vender anúncios para esses clientes e, por isso, não ganha dinheiro com eles ainda. Mas os países em que o software está se saindo melhor --Índia, Indonésia, México, Brasil e Vietnã-- estão entre os mercados de maior crescimento para o uso de internet e redes sociais, segundo a empresa de pesquisa eMarketer.
    A empresa espera que esses usuários se tornem mais atrativos financeiramente à medida que sua rende aumente e eles ganhem maior acesso à internet.
    O projeto para os "feature phones" foi conduzido por um grupo pequeno de pessoas que entrou no Facebook em 2011, quando a empresa adquiriu a start-up Snaptu.
    A equipe teve de redesenhar o software do Facebook para reduzir drasticamente a quantidade de dados transmitida para esses celulares, que têm uma conexão de rede mais devagar. Também precisou encontrar uma forma de exibir funções típicas da rede social, como chat e fotos, em telefones com telas de baixa resolução e menor capacidade de computação.

      segunda-feira, 22 de julho de 2013

      Helen Thomas, 92, marcou dez presidentes com perguntas duras

      folha de são paulo
      MEMÓRIA
      DO "NEW YORK TIMES"Helen Thomas, que morreu anteontem aos 92 anos em Washington, era uma repórter de curiosidade aguda, garra irrefreável e persistência que fizeram dela não só uma jornalista famosa, mas uma vanguardista quando os correspondentes da Casa Branca eram, na maioria, homens.
      Cobriu todos os presidentes dos EUA de John Kennedy a Barack Obama, primeiro para a United Press International e, depois, para a cadeia de jornais Hearst.
      Entre os colegas, era uma chefe informal, mas inconteste, cujo status era ratificado pelo bordão com que encerrava entrevistas coletivas: "Obrigada, sr. presidente".
      "Helen foi pioneira, abriu caminhos e rompeu barreiras para as mulheres", disse Obama em nota. "Nunca deixou de manter os presidentes --inclusive eu-- na linha."
      Suas perguntas diretas a tornaram conhecida em todo o país, e presidentes aprenderam a respeitar e até a gostar da franqueza e da energia que a mantiveram ativa muito além da idade em que a maioria se aposenta.
      Em sua primeira entrevista coletiva, Obama a chamou: "Helen, estou animado. Esta é minha posse real".
      Mas, 16 meses depois, Thomas anunciou sua aposentadoria, em meio a um alarido após ela dizer, em um evento, que "os judeus deviam cair fora da Palestina".
      Ao fazer o anúncio, a repórter, cujos pais vieram do Líbano, lamentou e disse que esperava a chegada da paz com "respeito e tolerância mútuos" no Oriente Médio.
      A carreira de Thomas começou em 1943, um ano após graduar-se em letras na atual Wayne State University de Detroit, como redatora de rádio da United Press (depois UPI).
      Quando a maioria das jornalistas estava limitada ao colunismo social e aos cadernos femininos, no meio dos anos 50 ela já cobria as intrincadas agências do governo.
      Seguiu a campanha de Kennedy em 1960 e, quando ele foi eleito presidente, virou a primeira mulher a cobrir a Casa Branca em tempo integral para uma agência.
      Conhecida por trabalhar muito, conquistou entrevistas exclusivas e fontes. Foi a única mulher, na imprensa escrita, a acompanhar Richard Nixon à China em 1972.
      Em 1971, casou-se com o colega Douglas Cornell, 14 anos mais velho, que morreria em 1982. Publicou cinco livros, além de um infantil.
      Em 2000, deixou a UPI e pouco depois se tornou colunista da Hearst, onde era uma crítica do governo de George W. Bush e permaneceu até a aposentadoria. Em entrevista ao "Times", em 2006, concluiu, sobre seu estilo: "Não existem perguntas ríspidas."

        segunda-feira, 8 de julho de 2013

        Blues boy, 14

        folha de são paulo
        FOLHATEEN
        Blues boy, 14
        Descoberto pelo lendário Buddy Guy, o guitarrista teen americano Quinn Sullivan lança segundo disco e é saudado como nova estrela do gênero
        JAMES C. MCKINLEY JR.DO "NEW YORK TIMES"
        Se você perguntar a Buddy Guy quem personifica o futuro do blues, ele vai apontar para um garoto de 14 anos que mora em Massachusetts e se chama Quinn Sullivan. "Não esqueça esse nome", disse Guy numa entrevista recente. "Ele lembra Eric Clapton, B.B. King, eu, Hendrix, todos os bons, cara!"
        Sullivan encara a rotina da escola, mas, agora, quando a maioria dos adolescentes está prestes a sair para as férias de verão, ele parte em turnê para divulgar seu segundo álbum, "Getting There".
        O garoto começou a tocar guitarra aos três anos, e sua incrível habilidade chamou a atenção do país quando ele tinha seis e foi ao programa de TV de Ellen DeGeneres.
        Mas a verdadeira carreira de Sullivan não decolou até 2009, quando Guy, grande bluesman de Chicago, convidou o jovem para acompanhá-lo numa turnê depois que os dois se conheceram no camarim do veterano.
        Guy também produziu o primeiro disco de Sullivan, "Cyclone", que em 2011 alcançou o sétimo lugar na parada de álbuns de blues da "Billboard".
        Em abril, ele impressionou uma plateia lotada de fãs de blues no Madison Square Garden, em Nova York, ao cantar e tocar com Guy no Crossroads Guitar Festival.
        "Fiquei até o final para assistir", conta Sullivan. "Estavam lá Derek Trucks, Gary Clark Jr., Jimmy Vaughan... E Clapton! Os meus heróis!"
        Sullivan tem cara de menino, mas, no palco, faz sua guitarra soar forte. Abaixo, os principais trechos da entrevista que deu em Nova York.
        Qual foi a primeira música que você aprendeu a tocar?
        "Blackbird", dos Beatles. Eu amava essa canção, sou fanático por Beatles desde muito novo.
        E quando começou a escutar artistas de blues?
        Meu pai tinha o DVD do primeiro Crossroads Guitar Festival, que o Eric Clapton organizou em 2004. Eu via Buddy Guy subindo no palco e mandando ver "Sweet Home Chicago".
        Fiquei ligado no jeito dele tocar, os trejeitos, era algo que nunca tinha visto na minha vida. Quando eu escuto blues, sinto toda uma história por trás da música. Ouvia Buddy Guy e sentia que estava entrando na vida dele.
        Como você o encontrou?
        Foi em um teatro na minha cidade, New Bedford, chamado Zeiterion, em 2007. Meu pai conhecia os caras da casa e pude ir ao camarim ver Buddy. Levava uma guitarra comigo, e pedi que a autografasse. Então ele disse: "Você pode tocar alguma coisa?". Toquei um pouco e Buddy ficou lá, ouvindo e sorrindo.
        Depois, ele falou que eu deveria ficar pronto porque iria me chamar para tocar com ele. E chamou mesmo. Buddy tem sido meu mentor desde aquele dia.
        Você lê partituras?
        Nada. Eu provavelmente vou me interessar em aprender, quero ter uma teoria por trás do que eu faço. Mas hoje eu só toco de ouvido.
        Seus amigos curtem o seu sucesso?
        Mais ou menos. Para eles, eu sou o cara que foi ao programa de TV da Ellen ou aquele que apareceu na Oprah.
        Como é tocar em clubes de blues quando você ainda não tem idade para beber?
        Fico na minha e tento não ligar para os bêbados.

        sexta-feira, 5 de julho de 2013

        "Hannah Arendt"

        folha de são paulo
        Filme discute a 'banalidade' no nazismo
        'Hannah Arendt' lembra caso da filósofa que apontou carrasco alemão não como monstro, mas como mero burocrata
        Arendt foi repudiada por crer na inocência de Eichmann e apontar conselhos judaicos como cúmplices do holocausto
        FRED KAPLANDO "NEW YORK TIMES"Cinquenta anos atrás, o livro "Eichmann em Jerusalém - Um Relato sobre a Banalidade do Mal", de uma professora de filosofia chamada Hannah Arendt, desencadeou uma tempestade. Entre a intelectualidade do Upper West Side, em Nova York, o livro provocou, nas palavras do crítico Irving Howe, "uma guerra civil", suscitando discussões e azedando amizades de muitos anos.
        Além disso, vendeu mais de 100 mil exemplares e transformou o modo como as pessoas enxergam o Holocausto.
        "A controvérsia" --como era descrita a disputa crescente-- hoje já está em grande medida esquecida. Mas um novo filme sobre o episódio, "Hannah Arendt", que estreia na quarta-feira no Film Forum, retoma essas discussões.
        Quando um amigo sugeriu que fizesse o filme, dez anos atrás, a diretora Margarethe von Trotta, veterana do Novo Cinema alemão, reagiu com ceticismo. "Pensei: Como eu poderia fazer um filme sobre uma filósofa, uma pessoa que fica sentada, pensando?'", recordou em entrevista telefônica dada em sua casa, em Paris.
        Em vez de cobrir toda a vida de Arendt, decidiu concentrar-se no caso Eichmann. "Para um cineasta, é melhor ter um confronto, não apenas abstração", disse Von Trotta.
        Em maio de 1960, Adolf Eichmann --um dos últimos líderes nazistas do alto escalão ainda vivo, que tinha fugido para a Argentina após a guerra-- foi sequestrado por agentes do Mossad, levado de avião a Jerusalém e julgado por crimes contra a humanidade.
        Refugiada judia alemã e autora de um livro famoso, "Origens do Totalitarismo", Hannah Arendt cobriu o julgamento para a revista "New Yorker" (seu livro foi publicado como artigo em cinco partes).
        Ela apresentou dois argumentos provocantes. O primeiro foi que Eichmann não teria sido o maligno organizador dos campos de extermínio, mas sim um burocrata medíocre, "não um monstro", mas "um palhaço". Veio disso o subtítulo "a banalidade do mal".
        O segundo foi que os chamados "conselhos judaicos" na Alemanha e Polônia foram cúmplices no assassinato em massa. Eles ajudaram os nazistas a arrebanhar as vítimas, confiscar bens e os enviar para os campos onde morreriam.
        Arendt foi repudiada. Alguns dos ataques contra ela foram exagerados. Mas algumas de suas visões também, entre elas o retrato que traçou de Eichmann. Para Arendt, Eichmann teria cometido seus atos sem ter consciência e sem mesmo ser antissemita virulento.
        No entanto, em 1957, na Argentina, Eichmann concedeu uma longa entrevista ao ex-oficial da SS Willem Sassen, na qual gaba-se de ter ajudado a redigir a carta que ordenou a Solução Final. "Não fui apenas alguém que recebeu ordens. Se assim fosse, eu teria sido um imbecil. Eu era um idealista."
        Amos Elon, jornalista israelense que defendia Arendt, disse, na introdução à edição em capa mole do livro, que ela "tinha a tendência a tirar conclusões absolutas com base em evidências casuais".
        A evidência casual da banalidade de Eichmann foi o depoimento carregado de clichês. Ele declarou que tinha apenas feito seu trabalho e Arendt acreditou nele.
        Margarethe von Trotta dirigiu filmes sobre mulheres fortes, mas diz que não se considera missionária. "Não faço filmes para transmitir mensagem. Faço filmes sobre pessoas de quem gosto ou que me interessam. Mas, se existe uma mensagem neste filme, é que você deve pensar por si mesmo, não seguir uma ideologia ou moda. Hannah chamava a isso pensar sem corrimões'."

          quinta-feira, 4 de julho de 2013

          Duas pessoas ficam livres do HIV após transplante

          folha de são paulo
          Operação foi feita para tratar câncer sanguíneo
          DO "NEW YORK TIMES"DE SÃO PAULODois pacientes com HIV foram identificados como livres da infecção após passarem por transplante de medula para tratar um câncer sanguíneo, segundo anúncio feito em uma conferência internacional sobre Aids.
          O tratamento que permitiu aos pacientes abandonar a medicação contra o HIV foi realizado em Boston, nos Estados Unidos.
          O resultado lembra o caso conhecido como "o paciente de Berlim". Timothy Brown recebeu o transplante de medula de um doador com uma rara mutação que oferece resistência ao HIV e não teve sinais da infecção mesmo cinco anos após o tratamento.
          Segundo os pesquisadores, o tratamento só foi possível devido ao câncer sanguíneo dos pacientes, que tiveram acesso a hospitais com os recursos necessários para realizar esse transplante.
          Segundo a presidente da Sociedade Internacional da Aids e pesquisadora responsável pela descoberta do vírus HIV, Françoise Barré-Sinoussi, as descobertas de Boston são "muito interessantes e encorajadoras".
          A técnica utilizada envolve um enfraquecimento do sistema imunológico antes do transplante de medula óssea. O procedimento pode ser fatal em até 20% dos casos.
          Após o transplante, as novas células atacam as células antigas do paciente em um processo que pode durar meses. Os pacientes de Boston usaram imunossupressores e esteroides e continuaram com a medicação contra o HIV para que o vírus não se reproduzisse.
          Como as células antigas, onde o vírus se aloja, foram eliminadas, os especialistas acreditam que os pacientes podem ter se livrado completamente da infecção.
          CURA?
          Médicos do Brigham and Women's Hospital, onde os tratamentos foram realizados, evitam falar em cura porque o acompanhamento ainda é muito curto.
          Um dos pacientes abandonou os remédios contra HIV há sete semanas e o outro há 15 semanas. Nenhum traço do vírus foi encontrado em seus sistemas imunológicos desde então.
          Segundo os médicos, seria antiético fazer o tratamento em pacientes que não estivessem em estado crítico, especialmente porque a maioria das pessoas com HIV pode ter uma vida praticamente normal fazendo uso de remédios.
          "Na maioria dos casos, esse transplante não se justifica. Não se pode sair fazendo um procedimento cheio de riscos quando há outras alternativas mais seguras", diz o médico infectologista Caio Rosenthal, do Instituto Emilio Ribas.
          Segundo ele, o Brasil não teria condições de fazer um procedimento como esse hoje. "Não temos a tecnologia toda. E não é só transplantar a medula, é algo muito complexo", diz.

            terça-feira, 2 de julho de 2013

            Energia limpa requer desvios - Diane Cardwell

            folha de são paulo
            new york times

            Jonathan Wolfson e Harrison Dillon começaram daquele jeito mítico do Vale do Silício. Há uma década, os dois amigos de faculdade se puseram a trabalhar na garagem de Dillon, cultivando algas em tubos de ensaio, na esperança de usarem a biotecnologia para criar energia renovável. Aí encontraram um pequeno grupo de investidores.
            Agora, eles lançaram seu primeiro óleo derivado de algas em escala comercial: pálido, inodoro e fornecido em um frasquinho dourado, ele não é voltado para tanques de combustível, mas para o rosto de mulheres preocupadas com o envelhecimento cutâneo.
            Cada frasco de 30 ml custa US$ 79, e, talvez graças a ele, a empresa da dupla, a Solazyme, consiga ir além do ponto onde tantas outras companhias de tecnologia limpa perderam o gás: a passagem para a produção em escala comercial.
            A esperança da Solazyme é se manter à tona fabricando óleos que sirvam a diversas funções -como hidratar a pele ou substituir a manteiga e os ovos em receitas de forno. O passo seguinte é fabricar enormes quantidades de produtos de energia renovável a um preço capaz de concorrer com os combustíveis fósseis.
            Há anos, gestores públicos, ambientalistas e empreendedores alardeiam a promessa de domar a energia do sol, do vento, das ondas, dos resíduos sólidos urbanos ou, agora, das algas.
            Desde 2007, o consumo de energia oriunda de fontes renováveis nos EUA cresceu quase 35%. Hoje, ele representa cerca de 9% do total, segundo a Administração de Informação Energética.
            Mas houve fracassos proeminentes. Empreendimentos de energia limpa outrora promissores, que haviam atraído milhões de dólares em apoio do governo americano -como a fábrica de painéis solares Solyndra, a usina de etanol celulósico Range Fuels e o fornecedor de baterias A123 Systems-, faliram. A próxima geração de biocombustíveis, baseada em plantas não alimentícias, ainda luta para conseguir decolar.
            O capital de risco se desacelerou, e novas empresas dessa área precisam queimar grandes volumes de capital em muitos anos de pesquisa e em equipamentos antes de comprovarem suas promessas. Em nível global, o capital de risco investido em tecnologias limpas diminuiu de US$ 9,61 bilhões em 2011 para US$ 7,4 bilhões em 2012, uma queda de quase um quarto, segundo o banco de dados i3 Platform, do Cleantech Group.
            Por isso, as empresas de energia limpa não podem se apoiar na clássica abordagem em que os investidores recebem dividendos rápidos e polpudos. Elas precisam de uma combinação de verbas governamentais, parcerias setoriais e uma disposição para buscar linhas de produtos com maior valor agregado, como parte da rota que leva a mercados maiores, mas com margens mais reduzidas.
            A história da Solazyme mostra como pode ser sinuoso o caminho que leva até tecnologias energéticas lucrativas.
            Quando começaram, Dillon e Wolfson cogitaram priorizar o uso de algas para produzir hidrogênio, mas os veículos movidos a hidrogênio nunca decolaram.
            Os sócios da Solazyme perceberam que precisavam criar um produto que pudesse usar equipamentos e infraestrutura existentes, e o óleo combustível parecia a melhor aposta.
            O problema em produzi-lo é que o volume é quem manda. Fazer um produto incrível não era o importante -se a Solazyme não conseguisse fazê-lo em quantidade suficiente, o negócio nunca teria sucesso.
            O combustível celulósico pode em breve alcançar uma escala real: o Departamento de Energia dos EUA prevê que haverá 303 milhões de litros em produção comercial até 2015. Mas o uso de algas pelas empresas irá demorar até 2022, preveem as autoridades.
            Na Solazyme, os sócios aceleraram os testes preliminares, tentando fazer algo que imitasse o óleo combustível existente. Eles também reprogramaram os micro-organismos para ver o que mais poderia resultar.
            "A intenção era uma linha reta até os combustíveis, mas começou a ficar claro o quanto isso iria demorar", disse Wolfson, comentando a evolução da empresa até desenvolver múltiplas linhas de produtos.
            A grande descoberta foi que as algas podem produzir óleos que, do ponto de vista bioquímico, se parecem muito com outros encontrados na natureza ou já em uso no mercado. Mas os sócios haviam vendido aos investidores uma empresa de energia, não uma fábrica de cosméticos, suplementos nutricionais e sabão.
            Eles também haviam dito ao seu conselho que conseguiriam produzir combustível por meio da fotossíntese, mas o cultivo de algas onde houvesse luz solar suficiente exigiria enormes lagos e ameaçaria causar uma perda de vegetação.
            Após procurar às pressas uma alternativa, Wolfson e Dillon informaram ao seu conselho que cultivariam as algas em tanques para produzir óleos especiais para mercados secundários, usando o faturamento dessas vendas para amparar o negócio de combustíveis durante o seu desenvolvimento. Seus principais patrocinadores, que já haviam investido juntos cerca de US$ 1,3 milhão, concordaram em financiar novos testes para essa ideia.
            Vários conselheiros acabaram saindo, e vários investidores de risco que haviam demonstrado interesse nas rodadas preliminares de financiamento se retiraram pelo fato de os criadores insistirem em perseguir múltiplos mercados, segundo Wolfson.
            "É bem verdade que, se você tenta fazer coisas demais e não tem um enfoque enquanto companhia, você vai fracassar -o enfoque realmente importa", disse ele. "O que eles realmente não entenderam é que a nossa plataforma é uma plataforma que está focada na produção óleos."
            A empresa tem um acordo de vários anos com o conglomerado japonês Mitsui para desenvolver óleos específicos para os mercados químico e industrial.
            Em parceria com a Solazyme, a Bunge, multinacional gigante do setor agroalimentar, está construindo uma fábrica ao lado da sua usina de etanol de cana no centro-sul do Brasil. Ela vai usar o açúcar para alimentar as algas e espera produzir até 114 milhões de litros de óleo por ano para produzir sabão e outros produtos.
            "Quanto maiores os dividendos que pudermos demonstrar de cada fábrica no começo, mais rápido conseguiremos financiar e construir fábricas", disse Wolfson. A empresa espera vender os óleos cosméticos a um preço 60% superior ao valor de custo, frente a 30% de lucro para os combustíveis e produtos químicos e 40% para os produtos nutricionais.
            Uma tentativa de diversificação caiu por terra em 24 de junho, quando a Solazyme dissolveu uma parceria com a beneficiadora de amidos Roquette Frères.
            As empresas estavam usando algas para produzir gorduras com baixo teor de saturação e óleos sem gorduras trans, além de um suplemento em pó, o Almagine, que deveria substituir ovos e gorduras saturadas. Mas as empresas disseram não ter chegado a um acordo sobre a estratégia de marketing.
            Analistas dizem que as cifras operacionais da empresa sugerem que, por enquanto, ela é mais promessa do que realidade.
            No ano passado, a Solazyme teve um prejuízo líquido de US$ 83 milhões sobre um faturamento de US$ 44 milhões. Ela também assumiu uma dívida de cerca de US$ 185 milhões no começo deste ano.
            Mesmo assim, os analistas estão otimistas com as perspectivas da empresa, embora alguns manifestem ceticismo quanto à possibilidade de a Solazyme algum dia desenvolver combustíveis.
            "Os combustíveis ainda são uma oportunidade para eles", disse Rob Stone, analista de pesquisas que monitora tecnologias limpas. Mas ele acrescentou que a nova capacidade produtiva em escala comercial poderia ser usada inteiramente para satisfazer à demanda nos mercados de maior valor agregado, então talvez não faça mais sentido para a Solazyme esgotar seu espaço produtivo fabricando combustíveis com margem de lucro menor.
            "Acho que eles podem fazer uma companhia enorme sem jamais fazer praticamente nada no negócio dos combustíveis."

            sábado, 29 de junho de 2013

            Casamento gay se torna uma via para obter 'green card'

            folha de são paulo
            Decisão da Suprema Corte dos EUA dá a homossexuais opção de pedir visto de residência por causa de cônjuge
            Sentença derrubou uma lei datada de 1996 que barrava legalidade das uniões homossexuais em nível federal
            JULIA PRESTONDO "NEW YORK TIMES", EM WASHINGTON
            A decisão da Suprema Corte americana de revogar a lei federal que barrava casamentos gays propiciou uma melhora espantosa na vida de Steven Infante, imigrante colombiano, e o marido dele, menos de uma hora depois que a decisão foi anunciada.
            Infante e Sean Brooks estavam a caminho de um tribunal de imigração em Nova York no qual o colombiano enfrentaria o que talvez viesse a ser sua última audiência antes de ser deportado.
            Em vez de ordenar a expulsão de Infante, o juiz de imigração levou em conta a decisão da Suprema Corte e abriu caminho para que ele se mantivesse nos EUA com o marido pelo tempo que desejasse, como residente legal em caráter permanente.
            Para a maioria dos cidadãos dos EUA, obter um visto de residência permanente, o "green card", para um cônjuge nascido no exterior é relativamente simples. Mas, por causa da lei antiga, dezenas de milhares de cidadãos em casamentos gays binacionais não haviam podido fazê-lo.
            Com os anos, muitos casais optaram pelo exílio, se transferindo para países que oferecessem vistos de residência a casais homossexuais.
            Com a lei fora do caminho, dizem advogados, não restam obstáculos nas leis de imigração que impeçam cidadãos americanos, ou imigrantes que já tenham visto de residência permanente, de solicitar "green cards" para seus cônjuges homossexuais.
            Lavi Soloway, advogado de imigração que já representou muitos casais gays binacionais, entre os quais Infante e Brooks, disse que "haverá efeitos imediatos e tangíveis nas vidas dos casais homossexuais que vinham há muito enfrentando dificuldades".
            Infante e Brooks estavam entre os primeiros casais a ver resultados práticos da decisão da Suprema Corte.
            Infante, 34, vive nos EUA desde 1999, e conheceu Brooks, 46, quase uma década atrás. Os dois se casaram em Nova York em 2011, um mês depois que o casamento gay foi legalizado no Estado.
            Àquela altura, o visto de Infante havia expirado, e as autoridades de imigração iniciaram um processo de deportação contra ele.
            Para Brooks, que é músico, a visita ao tribunal de imigração era sinal de que "o fim da linha estava claramente próximo", para a vida do casal nos EUA. Depois da decisão que reverteu a situação dos dois, Brooks estava atônito. "Que alívio", ele disse, "e quanta esperança".
            Soloway disse que cuida de 70 pedidos de "green cards" a imigrantes envolvidos em casamentos homossexuais, e que antecipava apresentar dezenas de novos, nos próximos dias. As autoridades de imigração garantiram a ele na quarta-feira que as solicitações avançariam rumo a aprovação, caso cumprissem os demais requisitos legais para residência.

            quarta-feira, 26 de junho de 2013

            Elio Gaspari escreve no 'NYT' sobre onda de protestos e Copa do Mundo

            folha de são paulo

            Colunista da Folha escreve no 'NYT' sobre onda de protestos e Copa do Mundo


            DE SÃO PAULO

            O colunista da Folha Elio Gaspari escreveu um artigo para o jornal "The New York Times" em que fala sobre a série de protestos pelo Brasil e os grandes eventos que o país sediará, como a Copa do Mundo.
            Gaspari conta que as manifestações começaram por causa do aumento do preço do transporte público e se espalharam depois da reação violenta da polícia às passeatas.
            Ele também argumenta que há gastos demais do governo com grandes eventos, como a Copa do Mundo e a Olimpíada, enquanto a qualidade dos serviços públicos do país é muito baixa. O colunista ainda destaca as reações que os protestos desencadearam na classe política.
            O título do texto ("Que comam futebol", em tradução livre) faz referência a uma frase atribuída a Maria Antonieta. Às vésperas da Revolução Francesa, falando sobre a fome no país, a rainha teria dito: "se não há pão, que comam brioches".
            Reprodução/nytimes.com

            quarta-feira, 19 de junho de 2013

            Crescimento de algas alimenta edifício

            folha de são paulo
            DO "NEW YORK TIMES"

            The New York TimesUm novo prédio em Hamburgo, na Alemanha, parece com uma estrutura moderna e tem uma das mais recentes tecnologias de construção sustentável -uma fazenda de algas vertical.
            Os criadores do edifício Bio Intelligent Quotient (BIQ), que custou US$ 6,58 milhões e usa exclusivamente energias renováveis, prometem que esse pioneiro sistema energético irá colher algas de rápido crescimento para gerar biocombustíveis, produzir calefação, fazer sombra no prédio, atenuar o ruído da rua e entrar para a história.
            Sobre as laterais do edifício, estão montados 129 biorreatores, painéis de vidro plano sobre persianas externas que servem como ambiente para o crescimento das algas. O sistema foi construído por um consórcio que incluiu a empresa de arquitetura Colt Group.
            Em 2009, o consórcio venceu uma competição que pedia aos participantes para usar materiais inteligentes, definidos como "sistemas e produtos que se comportam dinamicamente, ao contrário dos materiais convencionais de construção, que são estáticos".
            As algas são alimentadas com nutrientes líquidos e com dióxido de carbono para estimular o crescimento no sistema, que se tornou operacional em abril. Ar pressurizado é injetado nos painéis para estimular ainda mais o crescimento e impedir que micro-organismos se instalem e provoquem apodrecimento, disse Jan Wurm, um dos projetistas.
            Ele observa que escovas nos painéis mantêm os vidros limpos automaticamente. Os painéis funcionam também como coletores térmicos solares, transformando a luz do sol em energia utilizável.
            Segundo Wurm, "a parte da luz que não é absorvida pelas algas para a fotossíntese é convertida em calor", o qual pode ser usado imediatamente para aquecer a água ou armazenado no subsolo.
            Periodicamente, as algas serão colhidas e armazenadas em tanques no edifício. Uma empresa local de energia irá então comprar a colheita e transportar a biomassa até uma usina de calefação e energia nos arredores, onde ela passará por uma fermentação. O processo produz gás metano para a geração de eletricidade. "A energia gerada seria neutra de carbono", disse Wurm.
            Os projetistas da casa BIQ não sacrificaram a forma por causa da função. A cor das algas, combinada com o balé de bolhas da ascensão do ar pressurizado, lembra uma lâmpada de lava, segundo Wurm.
            The New York Times
            Edifício Bio Intelligent Quotient, em Hamburgo, na Alemanha
            Edifício Bio Intelligent Quotient, em Hamburgo, na Alemanha
            Ainda está sendo debatido se o prédio com biorreatores de algas é o começo de algo grande ou apenas uma experiência isolada.
            Wurm admite que a nascente tecnologia custa mais do que os sistemas solares ou combustíveis convencionais. "Em termos de custos de investimentos, não se pode compará-lo a sistemas estabelecidos e produzidos em massa que estão no mercado", afirmou.
            Jonathan Wimpenny, do Real Instituto de Arquitetos Britânicos nos EUA, questiona se muitos bancos e incorporadores imobiliários irão investir em biorreatores de algas. "Dificilmente poderei considerar isso como um divisor de águas na prática construtiva cotidiana", disse Wimpenny.
            Mas para David Bayless, da Universidade de Ohio, o prédio de Hamburgo é importante. "As pessoas ficam cautelosas com as algas porque é uma tecnologia relativamente desconhecida."
            O preço é um obstáculo em potencial. Scott Walzak, projetista do escritório global de arquitetura HOK, estima que o custo do quilowatt-hora produzido por biorreatores de algas seria equivalente a sete vezes o preço da energia solar e 14 vezes o do petróleo bruto.
            Anica Landreneau, líder de consultoria na HOK, concebeu um sistema para aproveitar os gases de escapamento dos carros na autoestrada Santa Ana, na Califórnia, como fonte de carbono para alimentar as algas. "Elas prosperam com uma dieta de porcarias", disse Landreneau.
            A Grow Energy, start-up de San Diego, na Califórnia, está apostando exatamente nisso para produtos que trilham caminhos diferentes a fim de gerar energia a partir de algas. A empresa, criada há um ano, planeja produzir dois diferentes biorreatores de algas.
            No ano que vem, a Grow Energy pretende aceitar pré-encomendas do seu sistema Verde, que cultiva as algas, as seca automaticamente e as queima num gerador de combustão no próprio telhado para produzir eletricidade. O sistema Verde custará cerca de US$ 12 mil e produzirá em torno de 35% da eletricidade usada por um lar americano médio.
            O arquiteto Tom Wiscombe está animado com o prédio de Hamburgo. "Na história da arquitetura, tentar manter organismos, fungos e bolor constantemente fora de um prédio sempre foi crucial", disse ele. "Agora, estamos tentando trazer tudo isso de volta."

            Taleban aceita iniciar negociações de paz

            folha de são paulo
            Grupo fundamentalista islâmico baseado no Afeganistão diz que iniciará diálogo com EUA e o governo Karzai
            Conversas se darão no Qatar, onde a organização, que já apoiou a rede Al Qaeda, manterá um escritório
            DO "NEW YORK TIMES" EM CABUL
            O Taleban disse ontem estar preparado para dar o primeiro passo rumo a negociações de paz com o governo afegão e os EUA, após 18 meses de impasse.
            Representantes dos EUA anunciaram que vão se reunir com representantes do grupo no Qatar em breve para dar início ao processo.
            Se as negociações engrenarem, será a primeira vez que os antagonistas na guerra do Afeganistão conversarão para encerrar o conflito, iniciado após o ingresso das forças americanas no país em 2001.
            O anúncio veio no dia em que os EUA divulgaram que a responsabilidade pela segurança no país é agora totalmente do governo local.
            Em discurso pela TV anunciando a abertura do escritório político do Taleban em Doha, Mohammed Naim, porta-voz do grupo, disse que os objetivos políticos e militares "estão limitados ao Afeganistão" e que o Taleban "não deseja mal a outros países".
            Integrantes do governo Obama disseram que a declaração contém dois compromissos cruciais: o de que os insurgentes acreditam que o território afegão não seria usado para ameaçar outros países --uma referência indireta ao abrigo dado à Al Qaeda sob o regime do Taleban, antes dos ataques do 11 de Setembro; e o de que o movimento está em busca de uma solução pacífica para a guerra.
            O presidente Barack Obama definiu o anúncio do Taleban como "um importante primeiro passo para a reconciliação".
            Mas "é só um primeiro passo", disse, durante reunião com o presidente francês François Hollande na conferência do G8, na Irlanda do Norte. "Antecipamos que haverá muitos solavancos ao longo do caminho."
            As primeiras reuniões provavelmente envolverão pouco mais que uma troca inicial de posições de negociação, disse um importante funcionário americano, acautelando contra expectativas de que as conversas ofereçam resultados substantivos em curto prazo.
            Um grande obstáculo ao processo de paz vem sendo a recusa dos negociadores do Taleban a falar diretamente com o presidente afegão, Hamid Karzai.
            Embora tenha sinalizado aceitar a abertura do escritório, Karzai disse repetidamente que o Afeganistão precisa liderar as negociações, implicando que nem os EUA e nem o Paquistão serão interlocutores. Ele também deseja que as negociações aconteçam no Afeganistão.

            ANÁLISE AFEGANISTÃO
            Grupo busca legitimidade como ator político
            Imagem de mulás falando à mídia em sala climatizada, não em cavernas, explicita caminho trilhado por talebans
            IGOR GIELOWDIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIAA cautela apresentada por Barack Obama ao comentar a abertura do escritório para negociações de paz do Taleban em Doha é necessária.
            Para o grupo fundamentalista, o gosto de vitória é indiscutível. O paralelo com britânicos no século 19 e soviéticos no século 20 é irresistível, ainda que os contextos sejam muito diferentes: invasores de início triunfantes acabam abandonando o país após anos de resistência.
            A imagem de mulás com turbantes negros falando para a mídia internacional numa sala climatizada, não em cavernas, diz muito sobre o caminho trilhado pelo grupo apeado do poder pelos EUA em 2001.
            Embora nunca tenha sido parte da rede Al Qaeda, o fato de ter escondido suas lideranças na preparação dos ataques do 11 de Setembro selou o destino do Taleban.
            Só que o grupo nunca desapareceu de fato, apenas transmutou-se em associações locais com outros "senhores da guerra", virando uma espécie de "franquia".
            Com os custos abusivos da guerra, explicitados pela crise global a partir de 2008, o Ocidente começou a preparar sua retirada.
            Desde então, o Taleban também se reestruturou para voltar como ator político central que é no país. O escritório não deixa de ser uma janela para o mundo que o legitima novamente.
            Não se espera, contudo, uma volta ao fanatismo fundamentalista cego dos seus anos no poder: o Afeganistão está muito interligado a parceiros internacionais hoje.
            A chave de tudo está na eleição para suceder Hamid Karzai, um interlocutor nunca confiável para americanos ou talebans, prevista para o ano que vem --coincidindo com a retirada oficial dos EUA e seus aliados.
            Haverá tempo para o Taleban mostrar-se político o suficiente nas negociações, a ponto de cerrar fileiras com algum grupo no pleito?
            No passado, os mulás mostraram-se mais propensos a ganhar tempo e a ocupar espaço por gravidade.
            O fato de Cabul ser representada pelo Alto Conselho da Paz, um órgão consultivo enfraquecido, tem a vantagem de não gerar grandes animosidades. Mas o principal membro do conselho ligado ao Taleban foi morto no ano passado, o que não ajuda muito igualmente. As cartas do outro lado da mesa serão dos Estados Unidos.
            Também falta definir o ânimo do novo governo paquistanês, de Nawaz Sharif, no processo: o país vizinho fomentou a ascensão do Taleban e ajudou na subsistência pós-2001, visando uma posição regional forte em sua disputa com a Índia.
            Com essas e outras variáveis, é possível dizer que ontem foi um dia histórico na narrativa deste longo conflito. Mas só o tempo dirá se algo realmente promissor irá ocorrer, justificando a prudência de Obama.

              segunda-feira, 17 de junho de 2013

              Sua vida digital não é só sua

              folha de são paulo
              Programa americano que vigia a internet reacendeu debates sobre privacidade na rede. Afinal, devemos nos preocupar?
              BRUNO FÁVEROCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAEm um episódio com cara de filme de espionagem, Edward Snowden, funcionário da Agência Nacional de Segurança dos EUA, vazou documentos secretos que revelaram um extenso sistema de vigilância da internet, chamado Prism, mantido desde 2007 pelo governo americano.
              A descoberta de que o Estado pode ter acesso a e-mails, conversas e dados pessoais de usuários reacendeu a discussão sobre privacidade na rede. Afinal, devemos nos preocupar em ser vigiados?
              Patrícia Peck, advogada especialista em direito digital, explica que uma empresa só cede informações de usuários sob ordem judicial específica ou com um pedido de autoridade, mas faz um alerta.
              "Na maioria dos serviços gratuitos, os termos de uso dizem que as informações postadas também passam a ser de propriedade de quem presta o serviço". Na prática, isso significa que as empresas são tão donas do que é postado, dos e-mails ou do que é escrito no chat do Facebook quanto os usuários.
              O Prism mostra o quão complexa a questão pode se tornar. O projeto foi criado com base em uma lei dos EUA. Como boa parte das empresas da internet são de lá, o governo americano tem acesso a dados de usuários do mundo todo.
              "A internet tem uma sensação de desterritorialização', mas os serviços são prestados por empresas situadas nos EUA e, grande parte das vezes, seus termos de compromisso submetem usuários do resto do mundo às leis americanas", explica Carlos Affonso de Souza, professor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV.
              Para Peck, o problema é que o Brasil ainda não tem uma legislação específica para regulamentar a internet. "Se houvesse uma lei protegendo usuários, as empresas de tecnologia que quisessem oferecer seus serviços aqui teriam que se adequar", afirma.
              Souza diz que iniciativas de vigilância como o Prism devem, sim, ser motivo de preocupação, mas que a discussão sobre privacidade na internet deve ir além, abordando também o papel das companhias e o uso cotidiano das redes sociais.
              "Muita gente diz o que eu faço na internet não tem importância, é trivial', mas dados em grande volume podem dar informações sensíveis", diz, citando como exemplo o caso da empresa americana Target, que criou um algoritmo supostamente capaz de descobrir quais clientes suas estavam grávidas a partir de seus hábitos de consumo.
              "Não é uma fala alarmista do tipo vamos sair todos das redes sociais', mas as pessoas devem fazer um filtro do que vai para a internet", afirma.
              Atualmente, há pelo menos dois projetos de lei sobre o assunto no Brasil. O Marco Civil, espécie de "Constituição da Internet", aguarda aprovação na Câmara. Enquanto isso, o Ministério da Justiça elabora um texto para a lei de proteção de dados pessoais.
                Temor sobre privacidade abala setor de tecnologia
                Insegurança sobre como grandes empresas ajudaram o governo pesa
                "Você tem privacidade zero. Pare de se incomodar com isso", disse executivo da Sun Microsystems em 1999
                DAVID STREITFELDDO NEW YORK TIMESO mundo da tecnologia no Vale do Silício, região dos EUA notória por concentrar empresas do setor e que não está acostumada a duvidar do futuro da internet, vive dias de desgosto.
                Manter Washington afastada sempre foi um esforço. Regulamentação governamental sufocaria a inovação, os empreendedores repetiam.
                Assim, a primeira coisa intrigante para alguns observadores é o fato de que companhias importantes --entre as quais Microsoft, Google, Yahoo, Apple e Facebook--sejam acusadas de facilitar o acesso a seus dados.
                As empresas negam ter colaborado diretamente com o Prism (leia mais abaixo), mas não parecem ansiosas por falar sobre como colaboraram indiretamente, e sobre que limite teria sido imposto.
                "O sucesso de qualquer companhia se baseia não apenas no valor dos produtos que oferece, mas também no nível de confiança que seja capaz de estabelecer", afirma Adriano Farano, cofundador da Watchup, produtora de um aplicativo que personaliza vídeos jornalísticos. "O que está em jogo é a credibilidade de um ecossistema".
                E trata-se de um que depende de dados pessoais.
                Novas tecnologias como o Google Glass avançam por territórios que até recentemente eram inatingíveis. De grandes empresas a novas companhias, o setor de tecnologia fervilha com planos para recolher os dados mais íntimos de seus usuários e usá-los para vender coisas.
                "Estamos pressionando o governo a nos proteger, mas também colocamos mais e mais informações sobre nós mesmos em lugares que permitem que outras pessoas as vejam", diz Christopher Clifton, cientista da computação da Universidade Purdue que pesquisou sobre métodos de coleta de dados que preservam a privacidade. "O fato de que parte desse todo será estudado pode perturbar, mas não surpreende", declara.
                O presidente Barack Obama, tentando atenuar os protestos, diz que os alvos do programa são cidadãos estrangeiros, e que vale a pena ceder um pouco de privacidade em troca de segurança.
                PROBLEMA ANTIGO
                Mas o monitoramento de dados é um problema que estava por surgir há tempos.
                As grandes fabricantes de computadores sempre venderam sistemas ao governo e empresas iniciantes de toda espécie sobrevivem com informações pessoais. Por outro lado, as companhias sempre tentaram evitar regras governamentais que restringissem sua visão --e seus lucros.
                Em 1999, Scott McNealy, presidente-executivo da Sun Microsystems, resumiu a atitude do Vale do Silício quanto aos dados pessoais com uma declaração que define o "boom" da internet: "Você tem privacidade zero. Pare de se incomodar com isso."
                McNealy não retira o comentário, ou não todo ele, mas diz que hoje se preocupa mais do que no passado sobre possíveis abusos.
                Ele, porém, argumenta que os fabricantes de computadores têm alguma responsabilidade pela criação do estado de vigilância. "É como culpar os fabricantes de armas pela violência ou uma montadora pelos motoristas embriagados". O problema real, ele diz, é "o avanço no alcance do governo. Acho ótimo que eles estejam tentando identificar o próximo terrorista. Mas já imagino se isso significa que vão me bisbilhotar."
                Aaron Levie, fundador do Box.com, sistema de compartilhamento de arquivos, brincou no Twitter que o Prism apenas reuniu em um mesmo local todos os dados do Gmail, Google, Facebook e Skype. "A NSA chegou antes que cerca de 30 startups com essa ideia", escreveu.
                  ANÁLISE
                  Rede está virando uma ferramenta de vigilância
                  RONALDO LEMOSCOLUNISTA DA FOLHAO escândalo do acesso a dados de usuários por parte do governo do EUA reforça uma constatação cada vez mais evidente: a internet (e outras redes) estão se convertendo em sistemas massivos de vigilância.
                  Os EUA enfrentam agora uma situação paradoxal. A ex-secretária de Estado Hillary Clinton rodou o mundo disseminando a ideia de uma paz americana para a rede. Ela enfatizou seu papel para a democracia, citando as revoluções árabes. Enquanto o discurso acontecia, nos bastidores, os EUA punham em prática seu sistema secreto de vigilância, de fazer inveja às posturas da China. Fica a impressão que os EUA foram libertários no discurso e liberticidas na prática.
                  Para que a internet não se transforme em máquina universal de vigilância, o único antídoto é a lei. Somente ela pode impor limites ao uso desenfreado. Nem a política, fatores econômicos ou a própria tecnologia são capazes de prevenir o crescimento do "panopticon" digital.
                  Por essa razão, as constituições democráticas estão sendo postas à prova. O que significam a proteção à privacidade, as liberdades civis e o devido processo legal quando aplicados à internet? A justificativa de Obama foi que, nos EUA, todo o sistema foi aprovado antes pelo Congresso e que mudanças deveriam receber o mesmo aval.
                  Já no Brasil permanece um grande vácuo legislativo. O Marco Civil da Internet, projeto que visa a proteger os direitos dos usuários com relação ao tema, permanece parado na Câmara.
                  Enquanto isso, o vazio é preenchido pela Anatel. Em agosto de 2012, a agência outorgou-se poderes para acessar diretamente os registros das chamadas telefônicas de todos os usuários no país. Em maio de 2013, por meio de resolução, obrigou os grandes provedores de internet a guardarem todos os registros de conexão dos usuários por um ano. A justificativa é, respectivamente, fiscalizar a qualidade dos serviços e coibir crimes.
                  Mas pode a Anatel regulamentar questões tão complexas por meio de resolução? Não seria esta uma competência privativa da lei? São questões que, tais como muitos aspectos do escândalo nos EUA, permanecem sem resposta em nosso país.