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domingo, 18 de agosto de 2013

O Brasil na nova ordem - Henrique Meirelles

folha de são paulo
Temos de separar eventos de longo e de curto prazo para entender a conjuntura e estabelecer prioridades.
Os eventos de longo prazo que vivemos hoje apontam para o fim de uma era ou modelo em que alguns dos grandes países emergentes, especialmente a China, mantiveram altas taxas de poupança e investimento, produzindo manufaturados a preços baixos para serem exportados a países desenvolvidos, sobretudo aos EUA.
Isso gerou crescentes déficits nas contas externas dos países importadores, que, no final das contas, foram financiados majoritariamente pela poupança chinesa e de outros países poupadores.
Foi um casamento aparentemente perfeito entre os consumidores dos países desenvolvidos e os poupadores dos países emergentes que lhes vendiam produtos e os financiavam com o lucro dessas vendas. Mas o modelo era insustentável e acabou de forma abrupta, com a exaustão da capacidade da sociedade americana de seguir aumentando seu nível de endividamento.
A impossibilidade de exportar como antes forçou a China a buscar alternativas. O governo chinês conduziu processo vigoroso de investimentos, que substituiu as exportações como motor do crescimento, mas que perdeu força ao atingir os limites do endividamento público. A China então entrou em nova fase, com o consumo interno assumindo papel central na economia. Mas maior consumo resulta em menores taxas de investimento e crescimento.
A economia dos EUA também passa por ajuste, tornando-se menos dependente da poupança de outros países, melhorando sua situação fiscal e aumentando sua produtividade e capacidade industrial.
Já na esfera europeia, vemos rearranjos semelhantes. Os poupadores do norte da Europa e os consumidores do sul do continente estão revendo seus modelos e as relações entre si, com consequências importantes para a economia regional e global.
Portanto, está se criando um novo equilíbrio na economia mundial, que ficará mais claro quando os EUA encerrarem sua política agressiva de estímulos monetários.
Esse movimento, que é antecipado pelos mercados, enxugará o excesso de liquidez e significará o fim da abundância de recursos para financiar déficits nas contas externas de outros países.
Nesse novo contexto, os agentes econômicos prestarão muito mais atenção aos fundamentos da economia. No caso do Brasil, o câmbio, pressionado de um lado, ajuda os movimentos já em curso para elevar a produtividade. Por outro lado, cria pressões inflacionárias a serem combatidas.
São passos necessários para navegarmos bem na nova ordem econômica mundial que se forma no horizonte.

domingo, 11 de agosto de 2013

Henrique Meirelles

folha de são paulo
A vida como ela foi
O entendimento dos erros e acertos do passado são fundamentais para a formulação de políticas corretas para o presente e para o futuro.
A tendência natural é olhar o passado com olhos do presente, uniformizar diferentes situações, fases, acertos e falhas e submetê-las a uma análise muito condicionada pelo presente.
Lições importantes foram dadas pela estabilização da economia na década passada e pelo crescimento elevado do segundo semestre de 2003 até 2008, que forneceu as bases para a saída rápida e forte da crise de 2008/2009.
O crescimento de 1981 até 2003 foi, em média, pouco acima de 2% ao ano, e entramos 2003 com crises cambial, fiscal e monetária.
É fundamental compreender o forte ajuste fiscal e monetário iniciado em 2003: o governo aumentou a meta do superavit primário para 4,25% do PIB (e ainda entregou resultado maior no primeiro ano), enquanto a taxa Selic foi elevada a 26,5%, sendo ajustada depois para manter a inflação na meta.
Esse ajuste numa economia já em desaceleração gerou forte contração do consumo doméstico, que, por sua vez, gerou excedentes exportáveis, os quais foram o caminho da recuperação.
Paralelamente, ocorreu vigoroso choque de confiança, fruto do ajuste duro e da surpresa com o mesmo, já que um dos fatores importantes da crise foi a expectativa de um governo com políticas opostas.
Com o ajuste, os agentes econômicos passaram do estado de choque e paralisia para a confiança e a ação. Os títulos brasileiros no exterior, que tinham atingido até 20% do valor de face, reagiram rapidamente. Os investimentos retornaram e o país voltou a crescer em julho de 2003, iniciando 61 meses seguidos de expansão. Foi, portanto, uma contração intensa, mas de curta duração e retomada rápida.
Outro aspecto fundamental foi o fato de a recuperação ter sido liderada pelas exportações, principalmente de manufaturados, em função dos excedentes exportáveis gerados pelo consumo do-méstico menor e da capacidade competitiva da indús- tria manufatureira.
A maior parte dos ganhos com a valorização das commodities brasileiras não esteve presente nos primeiros anos da recuperação. A parte mais relevante dele só veio a partir de 2009, principalmente contra o que é senso comum, como resultado das medidas tomadas pela China para combater os efeitos da crise.
Conclusão: o ajuste e o crescimento da economia naquele período foram fundamentados por forte rigor fiscal e monetário, grande choque de confiança e ainda pela disponibilidade de mão de obra, dada a alta taxa de desemprego da época.

    domingo, 4 de agosto de 2013

    Henrique Meirelles

    folha de são paulo
    De olho na bolha
    O Fed (banco central dos EUA) tem dado indicações que confundem alguns operadores de mercado. Em alguns momentos, indica que diminuirá os estímulos monetários adotados contra a crise. Em outros, sinaliza que isso pode ser feito mais adiante.
    A razão disso, além da própria evolução do cenário, é a preocupação da autoridade monetária americana em estimular a economia e, ao mesmo tempo, evitar a forma-ção de bolhas.
    É importante entender o que se chama de bolha. Ela existe quando os preços de alguns ativos sobem exageradamente, geralmente num processo de alta liquidez e juros baixos.
    O estouro de bolhas pode causar prejuízos graves, como a crise de 2008, detonada pelo estouro da bolha imobiliária dos EUA. O fenômeno americano é o mais bem documentado e fácil de analisar.
    Durante anos, o controle da inflação americana foi facilitado pela capacidade chinesa de exportar produtos a preços cada vez mais baixos. Isso, junto a outros fatores como a evolução do instrumental de política monetária, permitiu ao Fed adotar política de juros baixos e incentivo ao consumo e ao crédito, com inflação na meta.
    Esse contexto causou alta exagerada no preço das ações no final dos anos 1990, principalmente de empresas de internet. Como tudo que sobe demais nos mercados um dia cai, a bolha da internet estourou em 2000. E foi seguida pelos ataques terroristas de 2001.
    Esses dois acontecimentos ameaçaram levar os EUA à recessão devido à perda pa- trimonial dos que tiveram prejuízos na Bolsa. E motivaram o Fed a afrouxar a política monetária.
    A operação teve sucesso, mas o excesso de liquidez fez outros ativos subirem exageradamente, principalmente no mercado imobiliário. O preço dos imóveis foi inflacionado. Pior: grande parte das compras era financiada por crédito imobiliário.
    Assim, quando a bolha dos imóveis estourou, houve paralisação dos mercados de créditos e prejuízo aos investidores em geral. Aí, sim, tivemos uma crise global, produto das consequências do estouro da bolha imobiliária.
    O que o Fed busca agora é incentivar a economia, sem deixar os juros dos títulos mais longos excessivamente baixos a ponto de criar outras bolhas, nem deixar que eles subam demais antes que a economia esteja recuperada.
    Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, dizia que é muito fácil detectar quando a inflação passou da meta, mas definir quando os preços de imóveis ou ações subiram exageradamente é muito mais difícil.
    A preocupação com as bolhas, das quais a mais perigosa é a imobiliária, precisa estar sempre no radar de todos os países o tempo todo.

      domingo, 28 de julho de 2013

      Simples, mas difícil - Henrique Meirelles

      folha de são paulo
      Presidente de empresa global europeia, com presença industrial importante no Brasil, relatou que parou de investir em produção para exportação devido aos custos elevados no país. Na visão dele, mesmo no mercado interno cresce a dificuldade de repasse integral de custos, pois o aumento de preços já afeta a demanda.
      Ele destacou como inibidores do investimento os al- tos custos logísticos, trabalhistas e tributários, as incerte- zas com a pouca previsibili- dade das políticas macroe- conômicas e a situação fiscal e inflacionária.
      Sua opinião resume o que pensa grande número de investidores e dirigentes de empresas sobre o Brasil hoje, principalmente no setor industrial.
      O problema de logística e infraestrutura só pode ser enfrentado com uma série de licitações bem-sucedidas, que atraia capital e competência técnica. Para isso, serão necessárias taxas de retorno compatíveis com o risco, quando comparadas com o retor- no oferecido em outros lugares do mundo.
      É essencial entender ainda que a decisão de investimento é de cada empresa, e dificilmente haverá coincidência de avaliações entre grande número delas. As experiências de sucesso passam pelo incentivo à maior concorrência possível para obter o menor custo. Nesse contexto, a fixação de taxa de retorno pelo governo é vista como um grande limitador.
      Os custos trabalhistas e a reforma fiscal terão de ser enfrentados, mas são ques-tões legislativas de resolução mais longa por envolver conflitos de interesse e grande vontade política.
      Já a questão da inflação começa a ser enfrentada pelo Banco Central e seria facilitada por uma contenção de gastos do governo capaz de equilibrar a economia.
      Diante dessa conjuntura, a alternativa na visão de muitos é uma mera depreciação do real que compense a baixa produtividade e os custos excessivos. Mesmo que a deterioração do cenário torne factível essa via, o aumento do custo dos produtos importados demandaria das autoridades monetárias e fiscais medidas mais duras para evitar seu repasse ao restante dos preços.
      E a desvalorização da moeda só é eficaz se aceitarmos mudança de preços relativos na sociedade, com setores que produzem bens comercializados no exterior se apropriando de parcela maior da renda nacional em detrimento de setores imensos como o de serviços, cujos preços não são cotados internacionalmente e não se beneficiam do real desvalorizado.
      Em resumo, as soluções são relativamente simples, porém de difícil implementação, dados os custos políticos de um ajuste econômico mais sério, rigoroso e eficaz.

        domingo, 21 de julho de 2013

        Henrique Meirelles

        folha de são paulo
        Novo problema, novo remédio
        Na economia, como na medicina, diagnóstico correto é o primeiro passo para tratamento correto. O segundo é que o remédio aplicado deve ser adequado ao problema.
        Já mencionei aqui a reação da política econômica à crise de 2008 e relatórios do FMI e de outros órgãos considerando a ação brasileira como modelo de enfrentamento de crise de crédito. O mais importante é entender precisamente qual era o problema, o que (e como) foi feito e aprender com isso.
        A quebra do banco Lehman Brothers, nos EUA, levou a um colapso das linhas de crédito internacionais, que eram cerca de 20% do total do crédito no Brasil. Isso gerou crise de liquidez em dólares e reais e dúvidas sobre a solvência de empresas e bancos. A resposta do Banco Central foi liberar liquidez em dólares, em reais e nos mercados futuros de forma rápida e decisiva.
        A melhor definição que vi para uma crise de crédito é compará-la a um ataque cardíaco. Se a resposta for rápida, precisa e com equipamento adequado, o ataque pode deixar poucas sequelas ou nenhuma. Caso demore, mais problemas causará ao coração, às artérias e ao cérebro, gerando danos irreparáveis ao corpo.
        O mesmo acontece na economia. Quanto mais dura for a crise, maiores os danos para toda a economia e, portanto, maior a dificuldade de resolver o problema.
        No caso do Brasil, em 2008, a economia se recuperou rapidamente, e as empresas retomaram as vendas depois do tombo da produção industrial de 20% em dois meses e da queda anualizada do PIB de 13% no último trimestre. No início de 2010, a economia já estava normalizada, e o BC ajustou os níveis de liquidez.
        A resposta com oferta de crédito naquele momento foi adequada, já que a prioridade era restaurá-lo, uma vez que sua contração era exatamente o problema. A resposta fiscal visando a retomada do consumo, em queda livre devido às restrições de crédito, também colaborou para restaurar o dinamismo.
        Hoje, examinando o Brasil, é possível diagnosticar que o problema é de custos elevados e baixo investimento. Essa carência importante é acentuada pelas incertezas da economia brasileira e pelo momento global, no qual os EUA consolidam sua recuperação e atraem capitais investidos em outros países.
        Portanto, o caminho do Brasil agora é transmitir confiança e credibilidade aos investidores por meio de regras estáveis, trajetória fiscal clara e política monetária firme. Assim, poderemos criar as condições para o aumento dos investimentos, principalmente para elevar a produtividade e reduzir os custos. Dessa maneira estaremos enfrentando de forma efetiva o problema do momento.

        domingo, 14 de julho de 2013

        Henrique Meirelles

        folha de são paulo
        O caminho do crescimento
        Relatório recente do FMI reduziu as estimativas de crescimento para a economia mundial. Já o banco central dos EUA (Fed) agita os mercados ao sinalizar a redução dos estímulos diante da recuperação gradual da economia dos EUA. Nesse contexto de incertezas globais, com perda de dinamismo das economias emergentes, é importante entender o processo de recuperação norte-americana e europeia.
        Nos EUA, houve muita preocupação com o corte automático e generalizado de despesas públicas, mas a economia norte-americana cresce, apesar da contração fiscal.
        Estaria crescendo mais no curto prazo sem esse corte, mas ele traz mais segurança em relação à solidez fiscal e ao crescimento do país no futuro, reforçando positivamente as expectativas de empresas e consumidores. Outro aspecto importante a notar é o motivo desse dinamismo econômico, centrado na produtividade. Depois da crise, as empresas norte-americanas entraram em processo radical de corte de despesas, mudanças de processos e busca por maiores produtividade e lucro.
        Isso gerou a chamada "jobless recovery" (recuperação sem aumento de emprego), fenômeno negativo em si, mas que permitiu ganhos de produtividade que, por sua vez, tornaram-se as molas propulsoras do crescimento e da recuperação sustentável do emprego. O caminho, portanto, é a busca de produtividade com disciplina fiscal, não só ganhos de atividade de curto prazo.
        Olhando para a Europa, vemos que a Alemanha segue trajetória de crescimento moderado (mas sólido) e desemprego baixo, resultado também de ganhos de produtividade e de reformas estruturais pós-reunificação do país.
        Já Espanha e Portugal ganham competitividade com política de ajuste duríssima, cuja parte mais divulgada e conhecida no Brasil é o ajuste fiscal. A parte menos conhecida, e a mais importante, é o conjunto de ajustes estruturais visando diminuir custos e produzir mais e melhor.
        Os países ibéricos ganharam competitividade e, atualmente, começam a exportar de forma inédita na última década. É importante ressaltar, porém, que ainda há caminho a percorrer: o trabalhador alemão médio produz mais de 40 euros por hora, o espanhol, pouco mais de 30, e o Português, 17.
        Portugal e Espanha estão, portanto, no caminho da recuperação --da forma mais dura, via redução dos custos nominais, já que sua moeda, o euro, não pode ser desvalorizada na forma clássica.
        Apesar de todas as dificuldades ainda existentes, a experiência internacional hoje indica claramente que o caminho do crescimento chama-se investimento e aumento de produtividade, com diminuição de custos públicos e privados.

          domingo, 7 de julho de 2013

          Henrique Meirelles

          folha de são paulo
          Não somos sapos, afinal
          Escrevi, em coluna recente, que o trânsito de São Paulo lembra a experiência clássica do sapo na água fervente. Quando cai dentro dela, salta rapidamente. Mas, se está dentro da água enquanto a temperatura sobe gradualmente, o sapo morre sem reagir.
          Minha questão era se a população assistiria passivamente à gradual paralisação das grandes cidades, com o trânsito cada dia mais obstruído e lentidão também no investimento em transporte urbano em diversos níveis de governo, seja em metrôs, trens, monotrilhos ou vias de trânsito rápido. As prefeituras não dispõem de recursos, os Estados alegam limitação financeira, e o governo federal tem outras prioridades.
          As recentes manifestações, porém, mostram claramen- te que não somos sapos, afinal. Há uma forte reação à deterioração do serviço público, muito centrada nos transportes, mas também em saúde e educação.
          A questão dos transportes é vital. Se não conseguirmos nos movimentar nas grandes cidades, o país não só não crescerá nas taxas ambicionadas como estará mais sujeito a crescer menos.
          Não é possível exercer atividade produtiva --construir, produzir, tratar, educar, vi- ver, criar os filhos-- se não existe transporte eficiente nos grandes centros.
          Diversos países do mundo têm discussões similares, inclusive os que têm infraestrutura de alto padrão. No Reino Unido, por exemplo, debate-se, de forma profunda, a via- bilidade da construção do trem de alta velocidade entre Londres, Birmingham, Manchester e Leeds.
          O debate se concentra na avaliação de custos e benefícios do investimento no trem-bala comparado a metrô e trens suburbanos.
          No Brasil, essa questão é ainda mais aguda.
          A justificativa de que não há dinheiro suficiente para investir em transporte urbano tem que ser resolvida de forma prática e corajosa. Na administração pública ou privada, tudo é questão de prioridades. A arrecadação tributária bruta no Brasil é elevadíssima. Há recursos, a questão é como gastá-los de forma eficiente e estabelecer prioridades.
          O transporte urbano é prioridade nacional e deveria ser assim tratado pelos três Poderes dos três níveis de governo, como é feito em questões como os megaeventos globais.
          Não adianta muito falar em questões importantíssimas --educação, saúde e produtividade-- se não conseguirmos nos transportar nas cidades.
          Portanto, é de fundamental importância que as manifestações populares sejam vistas como uma oportunidade para priorizar e resolver um elenco de problemas graves no serviço público brasileiro, para que possamos objetivar as demandas e resolvê-las.

            domingo, 30 de junho de 2013

            Henrique Meirelles

            folha de são paulo
            Poder para os eleitores
            As manifestações populares trouxeram urgência à longamente debatida reforma política. Vários assuntos estão em foco, como financiamento de campanha, fortalecimento dos partidos, transparência etc.
            Um ponto fundamental em qualquer sistema político é o de garantir que os eleitos, de fato, representem os interesses dos seus eleitores.
            A experiência de muitos países mostra que, quanto mais próxima do eleitor e passível de cobrança, melhor é a re- presentação parlamentar em todos os níveis. E ela é fun- damental para a aprovação de leis de interesse da comunidade e a boa fiscalização do Executivo.
            A prática política de países com democracias consolidadas aponta que um sistema bem-sucedido para assegurar a proximidade com o eleitor e a sua capacidade de fiscalizar seu representante é o distrital puro, em que cada parlamentar é eleito por um determinado distrito com um número limitado de eleitores.
            Isso traz enormes benefícios como: 1) o candidato é mais conhecido e mais próximo da comunidade que o elege; 2) a campanha é mais barata, já que o número de eleitores cortejados é bem menor; 3) os eleitores têm capacidade muito maior de acompanhar a atuação do seu representante; 4) será mais fácil aos eleitos prestar contas aos eleitores, já que estarão concentrados geograficamente, e não espalhados pelo Estado de forma muitas vezes errática.
            O sistema distrital também pode transformar todas as eleições em escolhas majoritárias, desde que, em cada distrito, seja eleito apenas o mais votado nos níveis federal, estadual ou municipal.
            Isso tende a reduzir o número de partidos de forma natural, já que sobreviverão só aqueles com presença majoritária em cada distrito.
            E, na medida em que os candidatos disputam eleições entre número menor de eleitores, suas propostas e compromissos pós-eleitorais serão muito mais claros e transparentes.
            Nos países com sistema distrital consolidado, um parlamentar que contrarie a linha de conduta preferida de seus eleitores ou a plataforma de seu partido tem muito mais chance de ser punido nas eleições seguintes.
            Esse sistema, portanto, aumenta de forma substancial a eficiência e os bons resulta- dos do sistema político, uma vez que a proximidade do eleito com o eleitor garante maior eficácia e transparência em todo o processo.
            Isso tudo não é parte da nossa tradição política e cultural, e, portanto, a reforma deve seguir outras direções na tentativa de melhorar o sistema.
            É necessário, no entanto, analisar alternativas bem-sucedidas para que possamos aprender não só com os nossos erros, mas com os erros e acertos dos outros.

            domingo, 23 de junho de 2013

            Henrique Meirelles

            folha de são paulo
            Caminho da transformação
            Há uma sensação de mal-estar difuso e generalizado no país. Muitos associam as manifestações a esse sentimen-to. Existem explicações diversas para isso, que passam pela piora da economia, a rejeição de práticas políticas, os gastos com a Copa.
            Eu gostaria de focar hoje a questão da qualidade de vida da população.
            Vemos a irritação das pessoas com o trânsito, o mau funcionamento dos telefones, a superlotação dos aeroportos, a precariedade dos hospitais e dos serviços. Notícias de mau uso dos recursos públicos são frequentes.
            Mas o problema vai além dos serviços públicos. Um amigo que está reformando sua casa me relatou, com grande indignação, que nenhum de seus fornecedores entregou serviços e produtos no prazo nem deu qualquer satisfação.
            Não há dúvidas de que vivemos uma crise de produtividade no país, e isso está longe de ser mero conceito econômico teórico. É algo que atinge a todos diariamente.
            Quando discutimos a necessidade de aumentar a produtividade com licitações de portos, rodovias, aeroportos e ferrovias, por exemplo, debatemos algo que terá impacto na vida de cada um e nos preços dos produtos. A demanda muito maior por produtos e serviços, fruto do desenvolvimento econômico da última década, deve ser acompanhada por investimentos.
            Já o desemprego muito baixo reduz a preocupação com a manutenção do emprego e a exigência de qualificação. "Isso, por um lado, é muito bom, porque dá mais segurança às pessoas em relação ao emprego, e toda teoria econô- mica existe, em última análise, para elevar o bem-estar dos cidadãos.
            O problema é como, nesse ambiente, motivar as organizações privadas e os governos a investir na qualidade dos seus produtos e serviços e em treinamento. E também como motivar as pessoas a fazer um bom trabalho, a prestar bom serviço e a seguir a lei.
            Mais importante ainda, é preciso consolidar os valores de um trabalho bem execu- tado. Eles devem estar pre- sentes da escola fundamen- tal à universidade e seguir no governo, na empresa e no terceiro setor.
            Portanto, o grande desafio do país é voltarmos a recuperar o orgulho de um trabalho bem-feito em todos os níveis. A ética, nesse movimento, será fundamental.
            Em minha experiência profissional, no setor público e na área privada, vi como as pessoas podem se orgulhar de um serviço bem-feito, de uma instituição que funcione bem, do bom uso dos recursos.
            Precisamos reforçar esses valores e trabalhar para que prevaleçam cada vez mais. É um caminho eficiente para a transformação tão claramente desejada pela população.

              domingo, 16 de junho de 2013

              Henrique Meirelles

              folha de são paulo
              Tensão pré-normal
              Os mercados mundiais, sobretudo os de ações e de renda fixa, têm sofrido grande volatilidade nas últimas semanas.
              Além das incertezas da economia mundial, com a desaceleração na China e os desafios da Europa, a razão principal da volatilidade são as antecipações feitas por agentes do mercado de uma possível retirada de estímulos monetários pelo Fed (o banco central dos EUA) e as dúvidas sobre a eficácia dos estímulos do BC japonês.
              À medida que as economias se normalizam, é natural e inevitável em algum momento a retirada desses estímulos.
              Quando o Fed iniciou o chamado "afrouxamento quantitativo" (que nada mais é do que a compra de títulos nos mercados pelo BC dos EUA), isso foi saudado por alguns como o fim da ortodoxia dos bancos centrais e da "obsessão com a inflação". Segundo essa linha de pensamento, os bancos centrais haviam mudado.
              Os fatos mostram que foi uma conclusão precipitada.
              Em primeiro lugar, porque, numa forte recessão, a inflação tende a cair abaixo da meta. Há, inclusive, o risco de deflação, isto é, queda de preços, o que cria outros problemas para a política monetária.
              Nos EUA, depois de todas essas ações do Fed, o cálculo do núcleo da inflação preferido pelo BC norte-americano ficou em 1,05% em 12 meses acumulados até abril. Foi a menor inflação medida por esse índice desde que ele foi criado, em 1959.
              Em segundo lugar, numa crise de crédito, os canais de transmissão normais da política monetária deixam de funcionar. Nesses momentos, é vital uma ação rápida e forte dos bancos centrais para restabelecer o crédito.
              O Fed, o Banco Central Europeu, em certa medida, e, agora, o BC japonês atuaram justamente para recuperar os canais de crédito e a liquidez, restaurando assim os mais importantes canais de transmissão da política monetária. Normalizada a situação, os bancos centrais voltam a exercer suas funções de forma clássica.
              Foram tomadas, portanto, medidas inovadoras e, às vezes, ousadas, mas que não mudam, em essência, os mandatos dos bancos centrais.
              O Fed tem deixado claro que, quando a economia voltar à normalidade e subirem as expectativas de inflação, ele passará a vender papéis em sua carteira para contrair a liquidez, e as taxas de juros voltarão a subir.
              Os mercados já anteci- pam esses movimentos, e os juros já subiram moderadamente, o que é uma das razões da volatilidade.
              Resumindo, o que acontece agora nos EUA, com reflexo no mundo todo, é a aproximação do momento em que o BC norte-americano voltará a tirar recursos do mercado, vendendo títulos e subindo os juros para manter a inflação na meta.

                domingo, 9 de junho de 2013

                A força das raízes - Henrique Meirelles

                folha de são paulo
                A força das raízes
                O Brasil iniciou de forma duríssima um programa de estabilização no primeiro semestre de 2003, que rapidamente ganhou a confiança da sociedade e do mercado.
                O país voltou a crescer e, em julho de 2004, entrou numa sucessão de 51 meses de expansão econômica só interrompida pela crise de 2008, voltando a crescer desde então.
                Nesse período, o Brasil usufruiu o que chamo de bônus da estabilização, que abriu grande espaço para o aumento do crédito e a absorção gradual de um número enorme de desempregados numa economia em expansão.
                Esgotado esse período, com o desemprego já baixo e o crédito em fase de moderação de crescimento, entramos na época da produtividade.
                É um assunto discutido extensivamente na mídia, na academia e entre analistas. Todos concordam com o diagnóstico e com soluções conhecidas, como os investimentos em infraestrutura e em educação, as reformas tributária e trabalhista etc.
                Mas devemos olhar também outra questão importante: a nossa tradição ibérica.
                Portugal e Espanha, grandes potências marítimas, dividiram o mundo não europeu ao meio no final do século 15 com o Tratado de Tordesilhas.
                A Espanha, em alguns anos, descobriu reservas abundantes de ouro no México e de prata e de ouro no Peru. Em poucas décadas, extraiu uma quantidade de ouro três ve- zes superior ao total então existente na Europa antes da expedição de Colombo. E, como ouro e prata eram as moedas correntes na época, a Espanha tornou-se a grande potência mundial.
                Aspecto relevante ao Brasil de hoje é entendermos o que a Espanha fez (e não fez) com essa riqueza. O Estado espanhol logo criou uma enorme burocracia para controlar a produção, a distribuição e a comercialização desses metais até o ponto em que a atividade produtiva perdeu relevância e a economia espanhola passou a girar em torno da administração e do controle da riqueza extraída das Américas. Processo muito semelhante ocorreu em Portugal.
                Enquanto isso, os países do norte da Europa, sem acesso àquela riqueza bruta, tiveram de criar condições para gerar recursos por meio do empreendedorismo e do desenvolvimento comercial, que alguns séculos depois levaram essas nações à industrialização.
                A grande lição a tirar dessas experiências históricas é que o caminho para o crescimento passa pela maior eficiência do Estado nas suas funções básicas de prover serviços fundamentais e de criar regras estáveis que promovam a livre competição, desenvolvam os mercados e assegurem liberdade para a sociedade empreender, trabalhar e buscar produtividade.

                domingo, 2 de junho de 2013

                Henrique Meirelles - Lição chinesa para crescer

                folha de são paulo
                O crescimento do PIB brasileiro de 0,6% decepcionou analistas, empresários e trabalhadores. No momento em que discutimos o que fazer para crescer mais, é interessante olhar outros países.
                Exemplo importante é o da China, onde a produção industrial caiu pela primeira vez em sete meses. O país, que dependia muito de EUA e Europa, enfrentou a contração das exportações pós-crise de 2008 com investimentos maciços em infraestrutura e estímulo a crédito e consumo.
                Mas hoje as previsões de crescimento recuam, e cresce a preocupação com o alto endividamento do governo e do setor privado. A China enfrenta ainda questões estruturais, como o aumento do custo do trabalho, as limitações da moeda desvalorizada e o envelhecimento da população.
                Analisando as causas do problema, verifica-se que fortes controles governamentais sobre preço da energia, câmbio e juros, entre outros, resultaram em má alocação de capital e crescimento desequilibrado.
                Agora líderes chineses creem que maior despesa pública e intervenção governamental poderiam piorar a situação.
                O novo premiê chinês, Li Keqiang, disse no mês passado que "o governo central reduzirá o papel do Estado na economia visando liberar a energia criativa da nação".
                Há também esforços para reduzir controles e distorções de preços. "Se seguirmos dependendo excessivamente do direcionamento do governo nos mercados e de políticas econômicas para estimular o crescimento, será difícil criar crescimento sustentável, e isso pode produzir novos problemas e riscos", disse Li.
                Numa frase surpreendente para um governo ainda formalmente comunista, Li afirmou: "O mercado é o criador da riqueza social e do desenvolvimento econômico autossustentável". Disse ainda que o governo deve tornar a administração menor e mais eficiente e delegar poderes ao setor privado para estimular investimento. E sugeriu que a intervenção governamental foi parcialmente responsável pela criação de excesso de capacidade produtiva e má alocação de capitais.
                Pequim já sinaliza que, apesar da desaceleração, é improvável a adoção de mais estímulos como os de 2008. E que se preocupa com o aumento da dívida pública, principalmente nas províncias, e da inadimplência bancária.
                Medidas têm sido tomadas para transferir poder de decisão à iniciativa privada, eliminando controles e burocracia para facilitar o desenvolvimento dos negócios. Se exitosas, transformarão a China em competidor ainda mais forte e inovador, com maior equilíbrio no investimento e no consumo.
                Disse o premiê, finalmente: "Toda a sociedade aguarda ardentemente novas reformas fundamentais".

                  domingo, 26 de maio de 2013

                  Henrique Meirelles - O alerta do dólar forte

                  folha de são paulo
                  Muitos analistas anunciam o fim da era do dólar fraco em relação a uma cesta abrangente de moedas.
                  No Brasil, quando o real se deprecia, muitos falam em aumento do dólar. Sim, é um aumento do dólar ante o real, mas não necessariamente ante as demais moedas.
                  O que se discute agora é o fortalecimento do dólar diante da maioria das moedas, independentemente do real.
                  O dólar passou por um processo histórico de depreciação em função dos deficit comerciais crescentes dos EUA, gerados pelo aumento das importações de bens de consumo e energia durante décadas.
                  A crise reverteu essa tendência. A aversão ao risco gerou grande demanda pelo dólar como moeda de reserva de valor. Mas ele voltou a se depreciar com o programa de aumento agressivo de liquidez do Fed (o BC dos EUA).
                  Agora, com a aproximação do momento de normalização da política monetária americana, espera-se a continuidade do fortalecimento do dólar. Há razões para isso.
                  A economia americana se ajustou antes da Europa e do Japão, restaurando com relativa rapidez a capacidade dos bancos de emprestar. Já as empresas do país investiram muito em produtividade e reestruturações, elevando a margem de lucro mesmo com a lenta retomada econômica.
                  Paralelamente, a exploração do gás de xisto evoluiu com rapidez. Os EUA estão não só recuperando autossuficiência energética, mas estão em processo de reindustrialização liderado por setores intensivos em energia, já que o preço do gás no país ficou menor do que o praticado em outros países.
                  Finalizando esse quadro, o ajuste fiscal americano, que levaria ao temido abismo fiscal, está tendo efeito ne- gativo menor do que o esperado no curto prazo e efei- to positivo nas expectativas de longo prazo.
                  Tudo isso fortalece o dólar e traz como consequência uma mudança nos fluxos de capital, que, conjugada com a perspectiva futura de aumento de juros nos EUA, deve ser objeto de atenção das autoridades econômicas dos países que têm baixa taxa de poupança e que necessitam de recursos externos para crescer, como é o caso do Brasil.
                  Não há dúvida de que não há crise à vista, já que os US$ 380 bilhões de reservas internacionais do Banco Central do Brasil fornecem um amortecedor adequado para qualquer ajuste futuro.
                  Temos, no entanto, que pensar cuidadosamente no nosso modelo de crescimento, visando evitar problemas no futuro, quando se confi-gurar uma mudança dos fluxos de capital globais em função de uma economia americana que atraia parte dos capitais hoje destinados a outros países.

                    domingo, 19 de maio de 2013

                    Henrique Meirelles

                    folha de são paulo

                    Quem ganha com a inflação?
                    No longo prazo, todos perdem com a inflação. Somos catedráticos no assunto. Vivenciamos uma das mais longas hiperinflações da história recente e fenômenos inflacionários de toda espécie. Não deveria restar dúvida sobre as perdas e o custo da inflação para as famílias, as empresas e o país.
                    Mas há ainda uma questão pouco debatida: quem ganha com a inflação? No curto prazo, aqueles capazes de elevar preços, como empresas com poder de repassá-la aos
                    consumidores sem grande queda da demanda no curto prazo, profissionais liberais bem-sucedidos e organizações públicas com receitas atreladas à inflação.
                    Os governos federal, estaduais e municipais são bons exemplos: grande parte de suas receitas é vinculada a preços, salários e lucros correntes, o que faz com que aumentos de preços elevem sua arrecadação.
                    Essas organizações, públicas ou privadas, ganham com a alta de preços porque, ao contrário das suas receitas, a maior parte das despesas não acompanha imediatamente a inflação: salários geralmente são reajustados uma vez ao ano, assim como custos com contratos de fornecedores, aluguéis etc.
                    Além disso, poder público e empresas são tomadores líquidos de recursos. Como grande parte do endividamento é a juros prefixados, a inflação maior reduz a taxa real de juros a pagar.
                    Portanto, organizações e pessoas ganham no curto prazo com a inflação. Já os perdedores, no longo prazo, começam a exigir reajustes frequentes, como mostrou recente pedido de central sindical de reajustes automáticos de salários indexados à inflação.
                    Na medida em que os preços começam a ser atrelados à inflação, temos uma corrida inflacionária desenfreada que elimina os ganhos dos que saíram na frente e desorganiza toda a economia.
                    O primeiro efeito é a queda no poder de compra dos consumidores. E, com inflação alta, as empresas deixam de ter clareza de custos num mundo pautado por competitividade e produtividade, ou seja, a capacidade de produzir mais e melhor por menos.
                    Países e empresas com variações de preços disseminadas são incapazes de investir eficientemente em produção e produtividade. O bom funcionamento do sistema de preços é fundamental para a alocação de recursos e investimentos.
                    E quando se torna imperativo reduzir a inflação com alta de juros, a atividade econômica recua, derrubando vendas e arrecadação, o que gera perdas também aos que ganharam com a inflação no primeiro momento.
                    Em resumo, a inflação oferece ganhos de curto prazo para alguns, custos para muitos e prejuízos no médio e longo prazo para todos, como nossa história mostra com clareza.

                    domingo, 12 de maio de 2013

                    Henrique Meirelles

                    folha de são paulo

                    Nova ordem econômica
                    A eleição do embaixador Roberto Azevêdo para o posto de diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) reflete o peso cada vez maior dos países emergentes na economia mundial.
                    Este não é um conceito subjetivo ou político, mas meramente o resultado da medida da produção de riqueza das diversas economias emergentes em comparação com a dos países ricos.
                    A ascensão do Deng Xiaoping ao poder na China após a morte de Mao e a inflexão rigorosa da economia chinesa em direção à economia de mercado provocaram uma mudança histórica nas relações de poder econômico mundial.
                    A China era, ao redor do século 15, a maior potência
                    econômica da Terra. Isolada do Ocidente, desinteressada do comércio internacional, mas ainda assim a maior potência econômica.
                    No momento em que a China voltou a ocupar o papel de potência econômica, desta vez globalizada e integrada aos mercados internacionais, ela abriu caminho para uma mudança fundamental na estrutura de poder econômico da qual o Brasil não apenas faz parte, mas tem papel relevante como uma das maiores economias emergentes.
                    Isso tem consequências práticas como, por exemplo, a discussão sobre a redistribuição de cotas do Fundo Monetário Internacional e agora a eleição do brasileiro pra dirigir a OMC, sintomaticamente os dois principais órgãos multilaterais da economia global. A eleição na Organização Mundial do Comércio revelou uma transformação notável da nova estrutura de poder: o alinhamento da Europa e dos EUA com a candidatura do México não foi suficiente diante do apoio da maior parte dos outros paí-
                    ses a Azevêdo.
                    Sua vitória reflete ainda a crescente capacidade profissional e técnica dos brasileiros.
                    Não foi sempre assim. Alguns anos atrás, organizações internacionais determinavam em estatuto que o diretor da sua operação no Brasil deveria vir do país-sede. Mas isso mudou dramaticamente.
                    O Brasil hoje tem profissionais em organizações públicas e privadas no mundo todo. Encontro sempre brasileiros nos Estados Unidos, na Europa, na África e na Ásia exercendo posições de relevância em empresas e organizações internacionais, o que mostra o potencial de nossa força de trabalho.
                    A eleição de Azevêdo não foi resultado apenas da evolução econômica global das últimas décadas, mas também da capacidade do profissional brasileiro de se afirmar por trabalho, por competência, por qualificação técnica e por equilíbrio emocional.
                    Sua vitória em Genebra prova que o investimento em educação e a meritocracia podem nos levar muito mais longe.

                      domingo, 5 de maio de 2013

                      Rigor contra a inflação - Henrique Meirelles

                      folha de são paulo

                      Os bancos centrais devem subir os juros para combater a inflação e relaxar a política monetária quando adequado. Independentemente dos ciclos de alta e baixa, a taxa média de juros tem caído substancialmente no Brasil nos últimos anos, e é importante entender a razão.
                      Em 2003, após a inflação ter fechado 2002 acima de 12%, o BC fixou uma taxa de 26,5% visando estabilizar a economia. Iniciado o processo de estabilização, o BC passou a reduzir os juros, até 16%. Nesse patamar, houve aumento da inflação, e o BC voltou a elevar a taxa, até 19,75%. Nesse nível, a inflação começou a ceder e convergir para a meta, mas com taxa muito inferior à necessária em 2003.
                      Nos ciclos posteriores, quando necessários novos aumentos de juros, as taxas foram atingindo patamares cada vez mais baixos, sendo que os analistas que hoje defendem ações mais duras de política monetária contra a inflação propõem alta da taxa básica a níveis que seriam muito baixos alguns anos atrás.
                      A taxa real de juros (diferença entre a taxa nominal e a inflação) necessária para controlar a inflação vem caindo sistematicamente nos últimos anos. Isso é resultado da estabilização econômica e principalmente do controle da inflação na última década, cuja consequência mais importante foi o maior crescimento econômico.
                      A razão dos altos juros do país no passado era nosso histórico de inflações elevadíssimas. Mas, na medida em que a inflação cai e se mantém em torno da meta, e os formadores de preço passam a crer que seguirá assim, a maioria começa a planejar reajustes em torno da meta, reduzindo muito a pressão por indexação. Isso tudo reduz substancialmente a necessidade de taxas de juros elevadas.
                      Além disso, o país enfrentava grave instabilidade econômica: fiscal, cambial e inflacionária. Diante das diversas vulnerabilidades da economia, a população cobrava um prêmio de risco, isto é, juros mais altos para defender sua poupança.
                      A estabilidade permitiu ainda o crescimento do volume e dos prazos do crédito, o que aumentou também a potência da política monetária.
                      Portanto é fundamental entender o que a história deixa claro: a queda dos juros é resultado de uma política anti-inflacionária aplica- da com rigor e disciplina, não o contrário.
                      É importante que os formadores de preço creiam que as autoridades estão preparadas para tomar as medidas necessárias para que a inflação esteja na meta. A partir daí, a expectativa da inflação cai e os preços são reajustados em torno da meta, o que, junto a outros fatores, torna possível controlar a inflação com juros mais baixos.

                        domingo, 28 de abril de 2013

                        Henrique Meirelles

                        folha de são paulo

                        Revolução nos EUA e no Brasil
                        Os dois modelos econômicos de sucesso relacionados aos recursos naturais são o gás de xisto nos EUA e a agropecuária brasileira. É importante analisarmos as razões desse sucesso e suas similaridades.
                        O óleo de xisto, impregnado no xisto betuminoso, tinha uma exploração difícil, antieconômica e tecnologicamente complicada. O desenvolvimento de um modelo de exploração viável só foi possível por característica básica da estrutura fundiária americana: o proprietário do solo é o proprietário dos recursos minerais do subsolo.
                        Isso fez com que milhares de proprietários se dedicassem a buscar maneiras de exploração econômica daquela riqueza, envolvendo indivíduos e empresas grandes, médias e pequenas, até que finalmente um cidadão desenvolveu tecnologia viável.
                        Rapidamente, e de forma surpreendente, os EUA, que cada vez mais se tornavam dependentes do petróleo do Oriente Médio como fonte de energia, com consequências geopolíticas e econômicas importantes, conseguiram aumento significativo da produção doméstica e caminham para a autossuficiência, situação impensável alguns anos atrás.
                        Outra característica da economia americana também importante neste processo é o fato de a construção de gasodutos no país ser uma iniciativa privada, com licenciamento prático e veloz. Isso permitiu a rápida construção de uma rede nacional de gasodutos com investimentos de um número enorme de empresas e fundos.
                        Os EUA agora têm uma fonte de energia mais barata que as demais regiões do mundo, viabilizando a volta da competitividade de indústrias que se julgava terem definitivamente migrado para países em desenvolvimento, como a petroquímica. Todas as indústrias intensivas de ener- gia têm hoje nos EUA vantagem competitiva relevante em função da energia abundante e barata.
                        A agropecuária brasileira tem características semelhantes ao fenômeno do gás de xisto. Em primeiro lugar, a propriedade privada da terra. A escolha do que, quando e onde plantar também é privada, sendo projeto e deci- são de milhares de pequenos, médios e grandes empre- sários rurais. O gargalo ainda a ser equacionado é o transporte da safra.
                        Como em muitos países, a ação governamental bem-sucedida ocorreu na pesquisa tecnológica. A Embrapa é um exemplo disso. Seu desenvolvimento de sementes, variedades de plantas e tratamento do solo foram fundamentais para a revolução tecno-lógica no serrado brasileiro.
                        São dois exemplos, nos EUA e no Brasil, que oferecem muitas lições sobre o desenvolvimento econômico e o papel dos governos.

                          domingo, 21 de abril de 2013

                          Boston contra o medo - Henrique Meirelles

                          folha de são paulo

                          Estava em reunião em Boston, em 2001, quando assisti pela TV aos ataques terroristas do 11 de Setembro.
                          Como a instituição que dirigia à época nos EUA tinha operação enorme em Nova York, inclusive diante das Torres Gêmeas, fui para lá imediatamente tomar providências e apoiar os funcionários.
                          Num primeiro momento, a economia local parou. Restaurantes estavam vazios, empresas perdiam clientes e grandes instituições de Wall Street pensavam em sair dali.
                          Eram prenúncios de decadência urbana com consequências para a economia regional, americana e global. Como membro de duas grandes ONGs que lideravam o esforço comunitário de revitalização de Nova York, participei de reuniões e ações para re-verter a tendência.
                          O primeiro movimento importante foi o aparato policial e as autoridades, na mídia, assumindo a responsabilidade pela segurança e transmitindo a sensação de que havia pessoas capazes tomando providências, o que reduziu a sensação de desamparo. O segundo foi a decisão de organizações e pessoas de enfrentar o medo e as razões do medo e mostrar confiança na recuperação.
                          O pilar desse processo foi o senso de comunidade e solidariedade não só às vitimas e familiares, mas à cidade, com a consciência de que atitudes individualistas levariam à decadência de Nova York e ao prejuízo de todos.
                          Foi fundamental a demonstração inequívoca de que as causas da insegurança estavam sendo resolvidas. Desse movimento participaram profissionais da imprensa, da cultura, dos negócios, do terceiro setor, todos mobilizados contra o maior problema: o medo.
                          A grande conquista do ato terrorista, mais que a destruição, é o medo. Ele cria disfunção na sociedade e gera atitudes defensivas destrutivas.
                          Mas, assim como o medo é contagioso, também o são a coragem, o enfrentamento do medo e o impulso de combater o risco. Isso foi fundamental na recuperação total e inspiradora de Nova York.
                          O mesmo medo e reação solidária vemos agora em Boston, onde estudei, trabalhei e participo de conselhos acadêmicos de universidades. Uma das características da cidade é justamente o forte senso comunitário.
                          Nós, que trabalhamos na recuperação das áreas centrais de São Paulo, que enfrentamos os problemas e a violência das grandes cidades brasileiras, podemos olhar para Nova York, Boston e também para a Europa e o Oriente Médio para tirar lições do enfrentamento não só do medo, mas, principalmente, das razões do medo.
                          Para isso, é fundamental a ação das autoridades --a demonstração clara de que estão enfrentando os problemas-- e, principalmente, a mobilização da comunidade.

                            domingo, 14 de abril de 2013

                            Thatcher e Erhard - Henrique Meirelles

                            folha de são paulo

                            A morte de Margaret Thatcher reaviva uma era de transformação no Reino Unido. Famosa pela coragem política e pelas convicções, liderou seu país numa grande reversão de sociedade regulada para economia de mercado. Seu governo ficou marcado, contudo, por conflitos e protestos decorrentes da perda de benefícios e empregos em indústrias ineficientes.
                            Menos conhecido, mas talvez mais influente, foi o arquiteto da recuperação europeia do pós-Guerra, o economista alemão Ludwig Erhard. Antinazista convicto, famoso pela inteligência, foi nomeado em 1947 chefe do programa de recuperação econômica alemã.
                            A economia do país estava estagnada. Não havia produtos, empregos nem esperança de futuro melhor após uma guerra desastrosa. A administração econômica baseava-se num planejamento detalhado da economia pelo governo, com salários, preços e investimentos controlados e sucessivos planos econômicos fracassados. A intenção dos administradores era a melhor possível. A Alemanha tinha que ser ressuscitada para que houvesse paz na Europa, mas a resposta continuava a ser mais planos e intervenção governamental.
                            A primeira medida de Erhard causou tremendo choque: abandonar todas as intervenções e tornar a economia completamente livre. O general americano Lucius Clay, chefe das tropas aliadas de ocupação, entrou na sala de Erhard dizendo que todos os seus bons consultores econômicos pensavam que ele estava maluco. Sua resposta o surpreendeu: "General, os meus conselheiros dizem a mesma coisa".
                            Erhard era um defensor solitário do livre funcionamento do mercado e da ligação da liberdade econômica com a liberdade pessoal e política. Achava que os empresários alemães, grandes e pequenos, eram os que melhor sabiam o que produzir e vender, e que o preço deveria ser definido pela oferta e procura. O general deixou a reunião rezando, mas, em pouco tempo, os produtos voltaram às prateleiras e a enorme máquina econômica alemã começou a renascer. Em 1949, ocorreram as primeiras eleições no pós-Guerra, e Erhard foi nomeado ministro da Fazenda no governo do chanceler Konrad Adenauer.
                            Juntos, criaram a econo- mia social de mercado ("Soziale Marktwirtschaft"), o impressionante Estado de Bem-Estar Social, que os eleitores alemães apoiaram desde então. Mas só conseguiram criá-lo porque foram financiados por uma forte economia de mercado, que trouxe à tona o melhor do país.
                            Enquanto Thatcher será lembrada pelo choque de liberalismo com cortes de benefícios, Erhard passou à história pela criação de uma máquina econômica capitalista que sustenta um sistema forte e equilibrado de programas sociais.

                              domingo, 7 de abril de 2013

                              Henrique Meirelles

                              folha de são paulo

                              O país do sol renascente
                              Em debate recente sobre a Espanha, questionou-se a viabilidade de um país sair da crise e equacionar o problema da dívida pública sem crescer, uma vez que políticas de austeridade levam à contração econômica e podem piorar o nível de endividamento dos países.
                              A resposta é não. Não é possível sair da crise sem crescer.
                              O problema na Espanha é a falta de alternativa, já que em países-membros de um bloco de moeda única não há a alternativa de tornar as exportações mais competitivas via desvalorização cambial. E em muitos países não há mais como seguir elevando a dívida para financiar uma economia de baixa produtividade. O único caminho nesse ambiente é uma recessão, que gera redução de custos.
                              Portanto, é um caminho penoso, extremamente destrutivo, mas pelo qual a Espanha restaura competitividade e condições de crescer numa economia mais produtiva.
                              E a lenta trajetória de estabilização europeia, liderada pela Alemanha e por países do norte que fizeram reformas na década passada, tem agora que levar em conta o renascimento do Japão. O gigante adormecido, terceira maior economia do mundo, está acordando.
                              O Japão cresceu por décadas estimulado por endividamento bancário excessivo. A crise da dívida dos anos 1990 quebrou o sistema financeiro japonês, mas o governo evitou tomar medidas para fazer com que os bancos assumissem os prejuízos, mudassem a gestão e restaurassem sua capitalização para voltar a emprestar e reativar a economia, como os EUA fizeram com seus bancos.
                              O Japão tem duas décadas de bancos zumbis, sem capacidade de emprestar. O crédito encolheu e houve deflação constante.
                              O banco central japonês anunciou, na quinta-feira, a adoção de medidas para acabar com a deflação e aumentar o dinheiro em circulação (sim, uma inflação negativa pode ser tão destrutiva quanto uma inflação acima da meta).
                              O renascimento japonês pode ter consequências profundas na economia mundial. O país tem vantagens competitivas importantes. Sua máquina de produção industrial, muito eficiente e produtiva, está intacta. Com o retorno do crescimento e a desvalorização da sua moeda, volta a competir no mercado mundial de forma agressiva. E a indústria japonesa compete diretamente com a indústria alemã, motor da economia europeia.
                              Aprendemos, nesse processo, que crises monetárias ou de crédito devem ser enfrentadas de forma direta, forte e rápida, e que nada substitui a produtividade no longo prazo. E, restaurada a demanda, as medidas de estímulo devem visar o aumento da competitividade. É uma boa lição para o Brasil.