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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Governo lança programa de R$ 450 milhões para estimular nanotecnologia

folha de são paulo
RAFAEL GARCIA
DE SÃO PAULO
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O MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) lançou hoje um programa que prevê o investimento de R$ 450 milhões em dois anos para estimular a ligação entre universidade e empresa na área da nanotecnologia. A ideia é permitir que empresas possam desenvolver produtos com estruturas complexas da ordem de milionésimos de milímetro -- a escala dos átomos e moléculas.
O programa prevê ações simultâneas por parte de vários entidades federais, e um de seus objetivos é oferecer infraestrutura de vários laboratórios estatais a empresas. A ideia é permitir que a iniciativa privada possa realizar pesquisa aplicada sem ter de investir pesadamente em equipamentos científicos.
"Muitas empresas que acessam os laboratórios têm uma relação quase pessoal com os dirigentes, mas agora vai ser uma coisa institucional", disse o ministro Marco Antonio Raupp nesta manhã, em São Paulo durante o lançamento da IBN (Iniciativa Brasileira de Nanotecnologia).
Dos recursos já empenhados no programa, R$ 150 milhões são para o ano fiscal de 2013, e outros R$ 300 milhões para o de 2014. Dos recursos deste ano, R$ 38,7 milhões serão distribuídos para o SisNano (Sistema Nacional de Laboratórios em Nanotecnologia), que reúne 26 centros de pesquisa espalhados pelo país. A Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) receberá mais R$ 30 milhões e o restante será distribuído entre entidades diversas. Em 2014, a recém criada Embrapii (Empresa Brasileira para Pesquisa e Inovação Industrial) deve receber R$ 30 milhões.
O dinheiro do programa terá uso distinto, dependendo da entidade que o recebe. "Nos projetos de desenvolvimento que nos vamos financiar pela Embrapii, as empresas terão que entrar com um terço do dinheiro", disse Raupp. "No SisNano, [a parceria] será uma negociação direta do laboratório com a empresa."
As áreas prioritárias para aplicação do dinheiro são indústria aeronáutica/aeroespacial, agricultura/alimentação, energia, perfumaria/cosméticos e meio ambiente.
BUROCRACIA
O Ministério da Ciência levou ao lançamento do IBC empresários que apresentaram casos de sucesso de investimentos em inovação na área de nanotecnologia.
A Nanum, de Belo Horizonte, nasceu há dez anos de uma ideia de alunos da UFMG para formar uma empresa de consultoria. Os funcionários eram pagos basicamente com bolsas de pesquisa, o que envolvia um bocado de burocracia acadêmica, e o faturamento era baixo. Após conseguir investimento privado, a empresa desenvolveu um tipo inovador de tinta magnética, usada em impressoras de documentos, e hoje tem um contrato com a HP que lhe garante a maior parte de um faturamento anual de R$ 10 milhões.
A Biolab, uma empresa que se dedica a aplicações farmacológicas da nanotecnologia, desenvolveu em conjunto com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul um novo tipo de protetor solar. "Depois de passarmos por um bocado de burocracia, o produto está no mercado há três anos", contou Dante Alário Jr., presidente da empresa.
Outros empresários reclamaram da demora da Finep e dar resposta a pedidos de financiamento nos últimos anos. Em alguns casos, a agência de fomento levou mais de um ano para deferir ou indeferir o pedido.
O ministro Raupp reagiu a reclamações sobre a burocracia para estabelecer parcerias dizendo que o problema será resolvido por meio de uma nova lei que rege o status das fundações universitárias. Essas entidades são hoje as maiores responsáveis por tentar ligar pesquisas acadêmicas a aplicações desenvolvidas pela iniciativa privada. Cercadas de controvérsia, as fundações tem tido mais dificuldade para captar recursos e para aplicar o trabalho de pesquisadores pagos pelo dinheiro público em pesquisas que envolvem empresas privadas.
"Mas nós estamos mudando a lei das fundações da apoio às universidades", disse Raupp. "Uma proposta do governo está no Congresso e está redigida como medida provisória que deve ser aprovada logo, em questão de semanas. Depois disso, teremos condições de estimular, facilitar e flexibilizar a contratação de serviços dos laboratórios universitários por parte de empresas. Isso será feito sempre através da fundação."

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Novos carnívoros exigem tratamento digno dos animais e abate humanizado - Giuliana Miranda Alexandre Dall'ara

folha de são paulo
GIULIANA MIRANDA
ALEXANDRE DALL'ARA
DE SÃO PAULO
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Poucos problemas ambientais e de consciência são tão apetitosos quanto um bom bife. O consumo de carne está associado à alta do desmatamento na Amazônia, usa uma enorme quantidade de água e emite gases-estufa.
No entanto, tem ganhado força o movimento dos "carnívoros éticos": gente que não pensa em ser vegetariana, mas faz questão de uma postura mais sustentável e de respeito ao animal.
Segundo Leonardo Leite de Barros, presidente da ABPO (Associação Brasileira da Pecuária Orgânica), a quantidade de animais criados segundo os preceitos orgânicos (sem confinamento, com uso restrito de remédios, alimentação no pasto e abate humanizado) tem crescido.
"Hoje as fazendas da associação estão abatendo de 800 a mil animais por mês. Quando começamos, em 2007, eram cerca de 200", diz ele.
Theo Marques/Folhapress
Cláudio Ushiwata, dono de um café em Curitiba, é um consumidor de carne orgânica
Cláudio Ushiwata, dono de um café em Curitiba, é um consumidor de carne orgânica
O empresário curitibano Cláudio Ushiwata é um desses consumidores mais atentos e só leva para casa carnes cuja procedência e produção ele considere adequadas.
"Na minha casa temos o hábito de consumir carne orgânica. Não tenho dificuldade de encontrar, mas ela é restrita a poucos estabelecimentos e a poucos cortes."
O engajamento do consumidor tem potencial de transformar a indústria, diz Luís Fernando Guedes Pinto, gerente de certificação agrícola do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola).
"O consumidor não deve aceitar animais vivendo em condições ruins ou rebanhos vindos de áreas de desmatamento na Amazônia."
Nos últimos anos, as agências reguladoras também estão mais exigentes. A Europa passa, neste ano, a ter regras mais duras quanto às condições de criação, transporte e abate de animais. Quem quiser vender para o bloco --incluindo frigoríficos brasileiros-- precisa se adequar.
"Ser vegetariano não é a única opção para quem quer um tratamento ético dos animais", diz José Rodolfo Panim Ciocca, gerente do programa de abate humanitário da WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal).
William Mur/Ed. de arte/Folhapress
O abate humanitário faz o animal perder a consciência antes que o estímulo da dor chegue ao cérebro.
Nos bovinos, isso é feito com uma pistola especial. Em suínos e em aves, a insensibilização deve ser feita com uma descarga elétrica.
O presidente da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos), Péricles Salazar, afirma que há realidades distintas quanto a isso no Brasil. "Os frigoríficos sujeitos à inspeção federal têm controles rígidos. O problema está na esfera dos Estados e municípios. É lá que se encontram barbaridades como o abate de bois a marretadas."
A crueldade tem consequências na qualidade do produto. Muita tensão antes do abate deixa a carne pálida e mole, com liberação excessiva de água. Já nos bichos com estresse crônico, a carne costuma ser mais dura, escura e ressecada.
Quando eles são conduzidos com violência, usando bastões elétricos ou apanhando, são formados hematomas que devem ser descartados.
Em breve, o Ministério da Agricultura deve lançar novas normas mais rígidas para a criação e o abate. A consulta pública sobre o tema acaba de terminar e o texto sofre agora ajustes finais.
Colaborou Rafael Garcia

terça-feira, 30 de julho de 2013

Biólogos rivais disputam explicação da monogamia - Rafael Garcia

folha de são paulo
Análise com macacos atribui fidelidade sexual à prevenção do infanticídio
Para estudo evolutivo com mais mamíferos, porém, comportamento surge quando acesso a várias fêmeas é difícil
RAFAEL GARCIADE SÃO PAULOA última tentativa da biologia moderna de elucidar o paradoxo da monogamia --por que ser fiel a uma única parceira se a evolução favorece a promiscuidade?-- jogou mais dúvidas do que respostas sobre a questão. Os dois últimos estudos sobre o tema são contraditórios.
O primeiro deles é uma análise com 2.500 mamíferos. O trabalho indica que a monogamia surgiu em espécies nas quais as fêmeas vivem muito distantes umas das outras, e o comportamento promíscuo fica custoso para o macho. Já o segundo trabalho, que analisou 230 macacos, mostra que a fidelidade a uma única parceira surgiu para prevenir o infanticídio.
Ambos os estudos usaram métodos semelhantes para chegar às suas conclusões. Primeiro, fizeram uma reconstrução da árvore da vida dos mamíferos de todas as espécies analisadas, para saber quais eram mais próximas evolutivamente. Depois, usaram literatura científica existente para atribuir a cada uma delas diferentes comportamentos sociais --monogamia ou poligamia, solidão ou gregarismo etc.
Os cientistas estavam tentando descobrir por que apenas 9% das espécies de mamíferos são monogâmicas, enquanto mais de 90% dos pássaros exibem esse comportamento. Uma análise estatística deveria levar os dois estudos a uma conclusão similar, mas ocorreu o inverso.
"Quando fêmeas solitárias se distribuem num espaço amplo, machos em busca de oportunidades de acasalamento sofrem risco de ferimentos ou predação", afirmou Dieter Lukas, da Universidade de Cambridge, coautor do estudo mais abrangente com mamíferos, publicado na revista "Science". "Não vimos evidência de associação próxima entre monogamia e risco de infanticídio."
Christopher Opie, porém, do University College de Londres, enxerga o inverso ocorrendo entre macacos. "A origem da monogamia em primatas é mais bem explicada pelo longo período de lactação causado pela dependência para alimentação, tornando filhotes particularmente vulneráveis a machos infanticidas", escreveu o cientista em estudo na revista "PNAS".
Ao conversar com jornalistas ontem, cientistas pareciam surpresos ao saber da disparidade entre as conclusões dos estudos.
"Na nossa análise, obtivemos um sinal muito claro de que foi o infanticídio que levou à monogamia e não aquilo que Lukas está sugerindo", disse Opie à Folha. "Ao analisar tantas espécies de mamíferos, ele pode ter perdido esse efeito entre os primatas."
Os cientistas de Cambridge, porém, afirmam ter sido mais rigorosos do que Opie em suas análises estatísticas. "Uma razão para a disparidade pode ser o uso de maneiras diferentes para classificar as espécies", diz Tim Clutton-Brock, coautor de Lukas.
No estudo, classificar humanos como monógamos gerou discussão. "O que temos em humanos são casais que se associam, mas se encaixam dentro de grupos maiores. Não observamos isso em nenhum outro mamífero."
Outra explicação para a contradição entre os estudos é o tamanho da amostra, diz o cientista. "Em pequenos conjuntos de dados, é possível achar associações aleatórias que não aparecem nos grandes conjuntos."
Nenhum dos grupos de cientistas disse ter enxergado erros evidentes no estudo dos rivais, porém. A disputa acadêmica tende a continuar.

    sexta-feira, 26 de julho de 2013

    Cientista implanta memória falsa em camundongo

    folha de são paulo
    RAFAEL GARCIA
    DE SÃO PAULO

    Um grupo de cientistas anunciou ontem ter conseguido implantar memórias falsas no cérebro de camundongos --procedimento que até agora estava restrito a filmes de ficção científica como "O Vingador do Futuro".
    O experimento foi realizado no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e coordenado por Susumu Tonegawa, biólogo que ganhou o Nobel de medicina de 1987. A ideia ainda está muito longe de ser aplicada em humanos, mas é um avanço importante no entendimento de como o cérebro funciona.
    Para fazer os roedores recordarem um evento que não tinham vivenciado, Tonegawa usou um elaborado esquema, que envolveu animais transgênicos e uso de "optogenética", técnica que ativa células expondo-as à luz.
    Segundo estudo do pesquisador na edição de hoje da revista "Science", o experimento revela as estruturas do cérebro envolvidas em eventos nos quais memórias equivocadas surgem naturalmente no cérebro. Neurocientistas já sabiam que o mero ato de lembrar um acontecimento modifica a memória que temos dele, mas o mecanismo por trás disso ainda não era bem conhecido. O estudo de Tonegawa pode então abrir portas para entender isso.
    A primeiro passo do experimento foi criar na cobaia uma memória comum. Pondo o camundongo numa caixa com odor de vinagre, cientistas identificaram quais células do hipocampo --estrutura cerebral ligada à formação de memória-- atuavam no registro desse ambiente. As células foram então "marcadas" por optogenética para serem ativadas depois.
    Na segunda etapa, o camundongo era levado a um outro local, com cheiro de amêndoa. Nessa segunda caixa, porém, os cientistas também o atormentavam eletrificando o chão. E, ao mesmo tempo, usavam um cabo de fibra óptica para ativar os neurônios que haviam sido associados à primeira caixa.
    Por fim, ao ser levado de volta à primeira caixa --ambiente que normalmente estaria associado a um local seguro, com cor e cheiro distintos da caixa onde recebeu o choque-- o animal ficava paralisado de medo.
    Ele acreditava que a descarga elétrica estava por vir, pois a memória do local tinha sido artificialmente associada à do chão eletrocutado, demonstrando que a reação do roedor não se deve a um condicionamento.
    Um experimento tão invasivo e estressante não poderia feito em humanos, mas os cientistas partem do princípio de que seria possível.
    Ilustração Carolina Daffara/Editoria de Arte/Folhapress
    RECORDAÇÃO TOTAL
    Em "O Vingador do Futuro", personagens ganhavam implantes de falsas lembranças de férias, recordando lugares paradisíacos onde nunca haviam estado. Não está claro, porém, se um procedimento artificial poderia criar memórias tão complexas.
    Mesmo sem aplicação prática, o trabalho de Tonegawa, porém, tem implicações filosóficas. O sucesso do experimento é uma evidência em favor da teoria dos "engramas", segundo a qual memórias são armazenadas em estruturas discretas do sistema nervoso.
    Há estados específicos do cérebro que correspondem a distintos episódios de nossas vidas e só agora a neurociência está mostrando quais são.

    quarta-feira, 24 de julho de 2013

    Ministro da Ciência diz que faltam verbas para grandes projetos - Sabine Righetti

    folha de são paulo
    Participação do Brasil nos maiores centros de física e astronomia mundiais corre risco por causa de orçamento
    Verbas extras para concretizar parcerias internacionais podem não sair; projetos não são unanimidade
    SABINE RIGHETTIENVIADA ESPECIAL AO RECIFE
    A novela sobre a participação brasileira nos maiores centros de pesquisa em astronomia e física do mundo --o ESO (Observatório Europeu do Sul) e o Cern (Centro Europeu para Pesquisa Nuclear)-- ainda está longe de um final feliz.
    Segundo o ministro Marco Antonio Raupp (Ciência), o governo quer tocar as iniciativas, mas faltam recursos.
    "Não posso tirar dinheiro dos outros projetos para colocar no ESO e no Cern", disse àFolha durante a reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em Recife.
    A entrada do Brasil no ESO está em tramitação no Congresso há mais de um ano.
    "Quando se aprova um acordo de cooperação internacional, é preciso dar uma sustentação orçamentária. Senão é colocar uma batata quente no nosso colo", diz.
    Para usar as instalações do ESO --incluindo o maior e mais avançado telescópio terrestre do mundo, em construção em solo chileno,-- o Brasil teria de desembolsar, segundo o ministro, cerca de R$ 1 bilhão ao longo de dez anos.
    Hoje, o orçamento anual da pasta é de R$ 3,8 bilhões, sendo que R$ 1,4 bilhão é para bolsas de pesquisa.
    Se o projeto de entrada do Brasil no ESO for aprovado no Congresso, um recurso extraorçamentário deve ser repassado ao ministério.
    Conforme a Folha apurou, no entanto, a tendência do governo é enxugar o que for extraorçamentário.
    Anteontem, a presidente Dilma Rousseff anunciou um corte de R$ 10 bilhões e há a previsão de outros.
    "As atividades no ESO contribuem para o desenvolvimento científico em todas as áreas", diz Adriana Válio, presidente da SAB (Sociedade Astronômica Brasileira).
    Ela pretende ir ao Congresso com um grupo de cientistas para falar com deputados sobre a importância do projeto para a ciência nacional.
    O acordo, no entanto, não é unanimidade entre a comunidade científica brasileira.
    "O Brasil vai subsidiar a ciência europeia com o dinheiro do contribuinte. O ministério que assina esse tipo de acordo é irresponsável", diz João Steiner, professor do IAG (departamento de astronomia) da USP.
    IMBRÓGLIO
    O atraso na liberação das verbas para o ESO, três anos após a assinatura do contrato de adesão, tem prejudicado também a participação do país no maior acelerador de partículas do mundo.
    O conselho superior do Cern, na Suíça, ainda não ratificou o pedido de associação do Brasil. O laboratório só costuma aprovar países nos quais o poder executivo tenha dado sinal claro de que há interesse (e dinheiro).
    Desde o início das negociações, a ideia é que fosse aprovada verba extra, sem onerar o orçamento do MCTI. Sergio Novaes, da Unesp, um dos físicos articuladores da parceria Brasil-Cern, lamenta que haja risco de retrocesso.
    "Hoje que se fala tanto em internacionalização e no Ciência Sem Fronteiras, o Brasil se tornar membro do Cern seria algo na direção que a presidente quer dar para a ciência e a tecnologia", diz.
    A associação permitiria ao país participar de licitações para construir peças de aceleradores de partículas, ampliar o intercâmbio de cientistas que já vem sendo feito e concorrer a alguns cargos de gestão no laboratório.
    Acelerador de partículas aguarda recursos
    DA ENVIADA AO RECIFEDE SÃO PAULONo Brasil, outro projeto aguarda a liberação do dinheiro: o novo anel de luz síncrotron, localizado em Campinas, interior de SP.
    O terreno onde será construído o chamado projeto Sirius, orçado em R$ 650 milhões, já está em terraplanagem. A expectativa é começar a obra em setembro. Mas o dinheiro ainda não é certo.
    "O dinheiro está planejado no orçamento plurianual. Mas é um planejamento. Se houver cortes federais, se as condições do país mudarem, a gente tem de mudar o orçamento", diz Raupp.
    Se não houver cortes, a obra ficará pronta em 2016. O anel permitirá que os cientistas, por exemplo, enxerguem o conteúdo de um ovo fossilizado de dinossauro.
    Segundo Antonio José Roque da Silva, diretor do LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), até o momento o projeto recebeu R$ 55 milhões do ministério. "Neste ano, o Sirius deve receber quase R$ 87 milhões."
    De acordo com o diretor, cerca de 25 empresas já demonstraram interesse na fabricação dos componentes do anel em parceria.
    O aperto no orçamento não se aplica aos recursos destinados a pesquisas feitas nas empresas. O dinheiro operado para pesquisa privada no ministério já chega a R$ 5,5 bilhões em créditos para inovação (via Finep, órgão federal que financia projetos de inovação).
      País terá instituto de estudos do mar com navio de R$ 80 milhões
      Embarcação adquirida da China deve chegar ao Brasil em 2014
      DA ENVIADA AO RECIFEO governo oficializou a criação do Inpo (Instituto Nacional de Pesquisas Oceanográficas) para coletar informações sobre o mar e a costa brasileira.
      O anúncio foi feito na reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), no Recife. A iniciativa foi adiantada pela Folha no ano passado.
      A proposta é viabilizar, por meio do instituto, pesquisas sobre o mar que já são feitas em universidades, institutos e empresas do país, além de estimular novos estudos.
      "A ideia é organizar e financiar projetos na área do mar", disse o ministro Marco Antonio Raupp (Ciência). O projeto é uma parceria do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com a Marinha, a Petrobras e a Vale.
      Uma das novidades é a aquisição de um navio chinês que será adaptado para as pesquisas --uma espécie de navio-laboratório.
      De acordo com Raupp, o navio está sendo comprado pela Marinha por R$ 80 milhões e deve chegar ao Brasil em outubro de 2014. A ideia é que o instituto tenha também um espaço físico.

        sexta-feira, 28 de junho de 2013

        Entrevista António Damásio

        folha de são paulo
        Nossa vida política e social é parte da evolução biológica
        EM VISITA A SÃO PAULO DURANTE PROTESTOS, NEUROCIENTISTA FALA SOBRE COMO A COLETIVIDADE MOLDOU O CÉREBRO HUMANO
        RAFAEL GARCIADE SÃO PAULO
        O neurocientista português António Damásio, que desembarcou no Brasil em meio à onda de protestos, vê algum paralelo entre os acontecimentos de junho de 2013 e a abordagem com que ele próprio estuda a mente.
        Damásio, que estuda o papel da emoção na racionalidade, concorda que o envolvimento emocional das pessoas com as reivindicações ajudou os protestos tomarem grandes proporções ao mesmo tempo em que perdem um pouco da objetividade.
        O cientista, professor da Universidade do Sul da Califórnia, rejeita, porém, uma visão pessimista na qual o impulso emocional das pessoas solapa sua objetividade.
        Karime Xavier/Folhapress
        O neurocientista português António Damásio, em hotel onde se hospedou em São Paulo
        O neurocientista português António Damásio, em hotel onde se hospedou em São Paulo
        "É preciso pensar nas razões, porque as razões existem", disse. "Se há certas coisas que são altamente desproporcionadas, e se um grupo suficientemente grande de pessoas sente que há uma injustiça, a resposta emocional tende a ser maior."
        Para o cientista, que está preparando um livro sobre a ligação entre a neurociência e fenômenos sociais, o aumento do desejo das pessoas por maior participação política é um caminho natural.
        "Tudo aquilo que se passa na nossa vida social e política não é uma coisa inventada por nós, por políticos ou por jornalistas, é uma coisa que faz parte da nossa evolução" afirmou anteontem em São Paulo, em palestra no ciclo de conferências "Fronteiras do Pensamento".
        Leia abaixo entrevista que o neurocientista autor de "E o cérebro criou homem" concedeu à Folha.
        *
        FOLHA - O sr. têm muitos trabalhos mostrando como as emoções contribuem para uma racionalidade que supomos ser neutra. As manifestações que estamos vendo agora no Brasil são uma versão coletiva daquilo que o sr. observou em seu trabalho com indivíduos? A mesma coisa está acontecendo agora no plano coletivo, em escala maior?
        ANTÓNIO DAMÁSIO - Está. Mas é preciso pensar nas razões. As razões existem. Grande parte das reivindicações que aparecem nesses movimentos aparecem em qualquer parte do mundo, ou apareceriam em qualquer parte do mundo se houvesse tais manifestações. Há algo a ver com as proporções de carência. Se há certas coisas que são altamente desproporcionadas, e se um grupo suficientemente grande de pessoas sente que há uma injustiça --ou sente que há uma falta de cuidado em relação a certo problema, porque esse problema nunca foi tomado a sério--, a resposta emocional tende a ser maior.
        Uma outra causa importante tem a ver com a comunicação que hoje em dia nós temos, por exemplo, através das mídias sociais. Ela é completamente diferente do que teria existido em outros momentos históricos. Não é por acaso que aquilo que aconteceu na Primavera Árabe, o que tem acontecido na Turquia e acontece no sul da Europa, aconteceu aqui agora com um aspecto tão distribuído e tão rápido.
        Não sou especialista na matéria, e pode ser que eu esteja errado, mas eu diria que a rapidez e a manutenção dessas respostas não têm tanto a ver com a racionalidade ou a emoção. Tem a ver com o fato de que há uma possibilidade de várias pessoas a virem se movimentar mais rapidamente e mais dentro de uma certa unidade de tempo e espaço, através da comunicação digital, que é uma coisa que não existia antes e que não tinha esse poder. Hoje em dia é evidente que tem poder, e os mesmos tipos de manifestação ocorrem muito rapidamente em diversos pontos do mundo.
        Alguns psicólogos veem aspectos ruins nessa enxurrada de informação eletrônica em que vivemos hoje. O sr. acha que essa cacofonia de informação já está causando uma sobrecarga nos nossos cérebros, sem que possamos lidar com ela?
        Depende da maneira como se responde a essa quantidade de informação disponível. Há pessoas que respondem tendendo a pegar tudo, e é evidente que vão ter problema em digerir toda essa informação, e há pessoas que vão ser mais comedidas na forma com que vão adquirir essa informação. Isso está em grande parte sob nosso controle, mas é evidente que há certa penetração dessa informação, que é muito aliciante por causa da tecnologia --porque há um novo gadget, porque há uma atração extraordinariamente grande por coisas que são novas, brilhantes e trazem qualquer coisa que é diferente daquilo que havia antes.
        Portanto, há de fato riscos óbvios vindos dessa rapidez de disseminação da informação. Mas, se há alguma consequência para o nosso cérebro, para nossa mente ou alguma consequência do ponto de vista social, é algo que resta a ver. Há certos destes fenômenos que acontecem durante um certo tempo, e depois há uma aclimatação.
        As pessoas tiveram exatamente as mesmas preocupações quando apareceu pela primeira vez o rádio, quando apareceu pela primeira vez a televisão. Não há dúvida que o rádio, a televisão e o telefone tiveram imensas consequências do ponto de vista de organização social, mas não foram coisas trágicas. Ou talvez a televisão tenha sido trágica, mesmo que não tenha sido de todo não boa, mas acho que é preciso ver essas coisas com uma certa circunspecção. Não vale a pena dizer imediatamente que tudo está muito mal e banir a comunicação digital só porque há de fato uma enorme quantidade de comunicação e há pessoas que estão a perder tempo demais nesta comunicação.
        Uma pergunta que todos me fazem hoje é se isso poderia fazer mal para os muito jovens. É claro que isso não vai fazer mal nenhum para mim nem para si. Mas, para alguém que está em tempo formativo --crianças, por exemplo--, é possível que tenha mais riscos do que para nós. E vai ter, ao mesmo tempo, coisas benéficas e potenciais problemas. As coisas benéficas são óbvias. Vai haver uma aceleração de respostas cognitivas que pode trazer benefícios em matéria de rapidez de raciocínio, por exemplo. Vai haver uma maior disseminação de informação, que, caso seja possível trabalhar bem com essa informação, significará mais conhecimento. E, com mais conhecimento há a possibilidade de se tomar decisões mais acertadas.
        Mas, ao mesmo tempo, isso pode dividir de tal maneira o espaço intelectual de modo que, paradoxalmente, não haja tempo para fazer as boas e acertadas decisões. Portanto, tudo isso é matéria de investigação. Não é possível dizer, a priori, que isto vai ser muito bom ou que vai ser muito mal. É possível que seja um pouco de uma coisa e um pouco da outra, e é possível que no fim não tenha efeito de qualquer espécie.
        Como o sr. enxerga a recente polêmica em torno da elaboração da quinta edição do DSM, o manual de diagnósticos da psiquiatria. O manual ainda não conseguiu traduzir as descobertas mais recentes da neurociência em aplicações clínicas, e os críticos falam que isso é sinal de uma crise na psiquiatria. O sr. concorda?
        Eu não sou um psiquiatra, primariamente, mas falar em crise é uma coisa exagerada. O que se pode discutir é se ter um manual de diagnósticos possíveis é a coisa mais prática e inteligente. Prático parece ser, mas eu não tenho grande gosto por esses manuais, e parece-me que há muitas coisas da realidade que escapam a esses manuais porque é extremamente difícil codificar doenças e síndromes. Há certas coisas em que é fácil, com um grupo muito típico de manifestações, mas em grande parte dos casos as manifestações variam um tanto. A capacidade humana de variação é tal que tentar fazer um pigeonholing [uma rotulagem] é extremamente difícil, e geralmente não resulta bem. Nós somos todos extremamente parecidos nas nossas linhas mestras, mas ao mesmo tempo extremamente individuais, e é por isso que é muito arriscado fazer esses diagnósticos como se fossem possíveis dentro de uma grande precisão, quando muitas vezes não o são.
        Mas acho que minha opinião conta muito pouco. Não tem nada a ver com o valor profissional [do manual]. É possível que isso tenha um imenso valor para os profissionais de psiquiatria que têm que se entender com entidades de saúde, por exemplo, e resolver problemas como reembolsos para tratamentos de doenças. Esses são todos problemas com os quais eu, como cientista, não tenho grande relação, mas acredito que sejam problemas reais.
        Os trabalhos que o sr. tem feito nos últimos anos estão dando uma direção um pouco diferente para a neurociência, tirando um pouco o foco do córtex, a parte externa do cérebro, e mostrando o papel de estruturas tidas como mais primitivas, como o tronco cerebral, nas funções cognitivas humanas avançadas. Essas descobertas resultaram em alguma aplicação clínica, ou poderão resultar?
        Acho que pode haver repercussões fortes no lado clínico, mas, francamente, aquilo que me interessa principalmente é ter, antes de mais, uma repercussão na compreensão daquilo que é um ser humano. Se nós cremos ter uma visão de o que é um ser humano do ponto de vista biológico, há que verificar que aquilo que sabemos de biologia e de neurobiologia ajuda a explicar o que é um ser humano tal como os seres humanos hoje em dia vivem. Mas não é a explicação completa.
        Há explicações que têm a ver com a inserção social do ser humano. Os seres humanos são resultado de uma biologia antiga, que têm se desenvolvido ao longo de milênios, e de uma sociedade em que vivem. É ela em grande parte o resultado da própria biologia, porque a sociedade foi construída pela biologia. Mas, uma vez que a sociedade têm uma determinada estrutura, essa estrutura vai poder interagir com a biologia, de modo que aquilo que somos não pode ser explicado de forma alguma, nem pela sociedade exclusivamente, com seus aspectos culturais e de civilização, nem pela biologia exclusivamente. Tenho desgosto por explicações de seres humanos que sejam exclusivamente biológicas ou exclusivamente culturais. Tanto uma quanto outra perdem a visão daquilo que é uma verdade possível. A verdade possível, quanto a mim, inclui aspectos biológicos e inclui aspectos socioculturais. Esta é a primeira coisa.
        E, em relação à sua pergunta sobre o córtex cerebral, a história da neurobiologia tem sido mesmo uma história que dá valor especial ao córtex cerebral e muito pouco valor ao resto da estrutura nervosa. Isso é bastante compreensível por várias razões. Primeiro, é óbvio que o córtex cerebral é especialmente desenvolvido no ser humano. Portanto, faz sentido dar atenção ao córtex cerebral. Não tenho problema nenhum com isso. E algo que é menos óbvio, mas é verdade, é que o córtex cerebral é mais fácil de estudar do que tudo o mais no sistema nervoso, porque é maior. As coisas que são maiores e que estão mais à vista são as coisas que se estudam primeiro.
        É um paradoxo que a compreensão das bases neurais de um comportamento completo tenha que começar pela linguagem. É espantoso. Como é que se começou a compreender aquilo que é o cérebro humano por um dos aspectos mais complicados da mente, que é exatamente o aspecto codificado da linguagem que nós estamos agora a utilizar. Mas foi aí que se começou. Por quê? Porque houve lesões neurais em regiões enormes do córtex em que houve uma área de destruição, e essa área de destruição pode ser correlacionada com a perda da fala ou com a perda do uso linguístico da gramática de uma forma própria, como no estudo da afasia. Mas o começo partiu daí por acaso, por uma combinação de acaso, boa sorte e o fato de que o defeito era de tal maneira evidente e visível que não poderia escapar à observação de uma pessoa atenta.
        Foi aí que começamos, mas não faz sentido nenhum, porque há coisas muito mais profundas do que a linguagem que só agora que se estão a compreender. Por exemplo, é infinitamente complexo tentar compreender agora como funcionam as emoções, como elas se repercutem na organização social, como os sentimentos das emoções estão estruturados. Embora isso seja muito mais antigo do ponto de vista evolucional, só agora estamos a perceber. Por quê? Porque grande parte desses fenômenos dependem de estruturas de pequeno porte, como por exemplo, estruturas do tronco cerebral, do bulbo raquidiano, do mesencéfalo. Essas estruturas são extremamente difíceis de se analisar. Algumas delas são macroscópicas, mas, no fundo a estrutura principal é microscópica. Elas são muito difíceis de compreender em matéria de rede, de interação. É muito difícil apanhá-las do ponto de vista de neuroimagem, enquanto com a neuroimagem nós podemos ver coisas no córtex lindamente hoje em dia com ressonância magnética, com tomografia por emissão de pósitrons [PET scan].
        Estamos conseguindo apanhar coisas no tronco cerebral agora, mas, tecnicamente, é uma proeza. Portanto, vai haver um processo muito mais lento para se compreender aquilo que está a passar nessas estruturas, o que não quer dizer que essas estruturas não estejam fazendo coisas absolutamente vitais para aquilo que é o ser humano, tais como emoções. Eu acho que só se pode compreender o que é um ser humano quando se tem em vista a biologia e a cultura em que esse ser humano está inserido. Não se pode compreender o que é o comportamento humano neurobiologicamente sem se perceber as ligações entre as estruturas mais antigas do cérebro, que não são corticais, e as estruturas do córtex cerebral que estão interligadas com elas.
        É evidente que esta conversa e as ideias que estão a ser traduzidas por ela não pode ser tida por símios altamente complexos. Chimpanzés não poderiam ter esta conversa, nem com linguagem de sinais nem com nenhuma outra maneira de expressão. Por quê? Porque apesar de terem um córtex cerebral muito grande e em muitos aspectos bem parecido com o nosso, eles não têm as redes neurais organizadas da forma que nós as temos em suas ligações com o tronco cerebral. Então, não é só porque o córtex cerebral é grande, pois o deles também é grande. E não é só por causa do tronco cerebral, pois eles também têm tronco cerebral. A forma como as redes funcionam e a forma como elas estão integradas é que vão permitir a estruturação daquilo que é uma mente humana e que vão permitir, através da evolução, estruturar uma sociedade e uma cultura, que por sua vez intervêm no cérebro humano, que por sua vez faz acontecer alguma coisa que não aconteceu em outras sociedades de outros animais.
        Alguns anos atrás, suas ideias em neurobiologia vinham sendo descritas como não convencionais, mas o sr. já tem conseguido alguma evidência experimental para defendê-las. Atribuir um papel maior das estruturas subcorticais em funções cognitivas avançadas é uma dessas ideias. Há estudos de outros grupos confirmando isso também? O sr. acha que essa sua hipótese pode deixar de ser consideradas subversiva dentro da neurociência?
        Bom, ela pode ter sido subversiva, mas já não é. Há várias coisas que podem acontecer com as ideias científicas, com os resultados e suas hipóteses. Ou elas têm dados que as apoiam, e nesse caso elas vingam e deixam de ser subversivas, passam a ser status-quo, ou então não há evidência nenhuma, e elas morrem pelo caminho ou ficam adormecidas até regressarem uma geração mais tarde.
        Há algumas coisas em que eu tenho trabalhado, como a hipótese dos marcadores somáticos, para as quais há amplos dados de que têm mérito. Pode haver detratores, mas elas têm mérito, têm funcionamento e têm poder explicativo. Há um estudo do meu laboratório que saiu neste ano na revista "Nature Reviews Neuroscience" em que falo sobre a base dos sentimentos do ponto de vista neuronal, em relação ao tronco cerebral e em relação até ao nível abaixo dessas estruturas. Julgo que tem uma boa projeção, e há muitas pessoas que estão interessadas neste trabalho e estão a prosseguir com investigações. Algumas das quais evidentemente ainda não saíram, porque ainda não estão completas. Julgo que tem um certo eco entre várias pessoas, mas é cedo demais para dizer. Se tivermos uma nova entrevista daqui a três anos, a essa altura sua pergunta vai ter uma resposta mais clara.
        Há muitos neurocientistas entusiasmados agora em tecnologias como a ressonância magnética por difusão, e já se fala em mapear por completo o "conectoma" --a expressão criada para descrever a totalidade de sinapses, as conexões entre os neurônios. O sr. acha que essas novas tecnologias vão conseguir enxergar essas características humanas únicas nas estruturas cerebrais subcorticais que o sr. menciona?
        Acho que há enormes possibilidades de que isso aconteça. Mas há um certo aspecto de divulgação desses termos porque eles captam o espírito da época. Mapeamento é uma palavra que está na moda. A ideia de que se possa mapear algo deixa as pessoas muito contentes, porque se há um mapa a gente sabe onde é que está e para onde é que vai --mas muitas vezes não sabe. "Conectoma" também é uma coisa muito sugestiva. Com conexões, a gente percebe que aquilo que somos mentalmente e comportamentalmente tem a ver com a forma como há conexões neuronais. Mas [o uso desses termos] é quase como um aspecto publicitário, mais do que a realidade. É importante ver isso com certo cuidado.
        É evidente que trabalhos de neuroimagem, em geral, são importantes. Técnicas de difusão ajudam muito, mas é preciso uma grande elaboração para chegar ao ponto em que possam dar resultados definitivos. Em nosso centro de neuroimagem estamos a trabalhar com essas técnicas e as usamos constantemente. Há coisas magníficas, mas há também enormes lacunas que estão por resolver.
        Quais são as principais questões que o sr. está investigando em laboratório hoje?
        A questão que mais me preocupa é a seguinte.
        Hoje em dia, conseguimos compreender muito bem como é que as emoções funcionam. Há uma grande clarificação desse problema, que há vinte anos era uma incógnita enorme. Há emoções diversas: as simples, as complexas, as emoções sociais, as básicas. É relativamente claro como tudo isso funciona, e sabe-se quais são as partes do cérebro envolvidas.
        Aquilo que mais me interessa no momento não é a emoção propriamente dita, que é um programa de ações, mas sim aquilo que acontece quando a emoção se desenrola, que é a experiência mental que você ou eu temos de que estamos a ter uma emoção. Ou a experiência que nós temos de que temos um estado, por exemplo, de dor. Ou fome. Ou sede. Como é que se passa esse sentimento é aquilo que mais me interessa.
        O trabalho que estamos a desenvolver nestes últimos anos tem a ver com o fato de que as estruturas do cérebro relacionadas ao sentimento são ligeiramente diferentes e, às vezes muito diferentes das estruturas que têm a ver com a emoção.
        O grande interesse que tenho no tronco cerebral tem a ver com o fato de que há estruturas no tronco cerebral que estão a participar do mapeamento que resulta no sentir, no ter a experiência mental, mas que possivelmente não participa em fazer a emoção. Participa no sentir a emoção e no sentir o estado do corpo.
        Outra coisa muito importante para nós é que nosso instituto está muito ligado às humanidades. Tenho muito interesse na sociedade e nos aspectos que de fato são unicamente humanos. Não só temos uma coisa chamada linguagem na nossa consciência, que é distintamente humana, mas também temos essa coisa extraordinária que é termos inventado artes. As outras criaturas vivas, embora tenham muita complexidade, não têm se preocupado muito com isso. Os macacos e os cães não têm feito grande coisa pela pintura e pela música.
        Temos um grande projeto sobre aquilo que há de especial no cérebro humano que permite a música e aquilo que há no cérebro humano que é modificado pela música. Estamos a fazer um estudo longitudinal daquilo que acontece a crianças a partir dos cinco anos de idade quando são sujeitas a uma aprendizagem intensiva de música. Para saber os resultados, tem que me entrevistar daqui a cinco anos, mas estamos convencidos de que teremos resultados muito interessantes. Temos uma série de hipóteses sobre aquilo que vai acontecer naqueles cérebros. Acredito que sejam coisas muito boas. Esse é um trabalho que estamos a fazer com a Filarmônica de Los Angeles, que é uma das grandes orquestras do mundo e está ali ao pé de nós.
        O sr. já está preparando o próximo livro? Tem algum tema?
        Como você pode imaginar, dado que eu tenho um imenso interesse pelas coisas sociais, o livro vai ser praticamente todo sobre sociedade. Sobre aquilo que acontece no cérebro que permite criar cultura e civilização, permite criar as artes, permite criar justiça, moralidade. O que é diferente nas artes? O que há nelas que contribui para o nosso bem estar? Esse é o tema do próximo livro.
        Eu não faço livros por atacado, faço poucos e espaçados. Embora as pessoas digam que os livros explicam coisas e portanto servem para divulgar a ciência, eu não escrevo livros para divulgar a ciência. Escrevo livros para esclarecer a mim próprio o que é um problema. Escrevo livros quando estou muito interessado num determinado problema e quero perceber um pouco mais desse problema.

        RAIO-X - ANTÓNIO DAMÁSIO
        FORMAÇÃO
        Estudou medicina na Universidade de Lisboa e fez doutorado na mesma instituição
        ATUAÇÃO
        É professor na Universidade do Sul da Califórnia, onde coordena o Instituto de Cérebro e Criatividade
        LIVROS
        É autor de "O Erro de Descartes" e "E o Cérebro Criou o Homem", entre outros

        segunda-feira, 24 de junho de 2013

        Jornalista americano James Gleick mostra como teoria de pesquisador acelerou a revolução das telecomunicações

        folha de são paulo
        CRÍTICA - CIÊNCIA
        Livro ajuda a entender boom de informações
        RAFAEL GARCIADE SÃO PAULOQualquer um que já tenha ouvido falar da "Teoria do Caos" e do "efeito Borboleta" --ou que possua a imagem de um belo "fractal" na tela de fundo de seu computador-- deve esses elementos de repertório nerd/pop ao sucesso de James Gleick.
        Mesmo quem nunca leu seu best-seller "Caos", de 1987, provavelmente já absorveu esses conceitos por tabela num filme de ficção científica, num artigo de revista ou numa conversa de bar. Agora, 25 anos depois, o jornalista americano investiga outra ideia: a teoria da informação.
        O estudo de sistemas caóticos teve um boom na década de 1980 porque cultivava ideias matemáticas aplicáveis a quase qualquer fenômeno com muitos elementos dinâmicos. O mercado financeiro, um formigueiro ou o clima da Terra, por exemplo. Mesmo não sendo uma disciplina acadêmica, o conceito acabou se revelando uma ferramenta universal.
        O novo livro de Gleick, "A Informação", é sobre uma ideia científica que não está diretamente relacionada ao caos, mas teve história semelhante.
        Poucos leigos saberiam dizer o que é a teoria da informação, mas todos pelo menos ouviram falar de seu elemento central: o bit, que é a unidade básica de informação armazenada num computador. Diferentes combinações de bits representam letras, números, imagens etc.
        A ideia do bit, porém, é anterior à computação e precede até mesmo a criação do termo. Em "A Informação", Gleick conta a história de como matemáticos, engenheiros e outros manipuladores de informação foram amadurecendo a ideia inconscientemente ao longo de séculos até um momento de clímax, em 1948.
        O ponto de virada da história é protagonizado por Claude Shannon, então funcionário dos Laboratórios Bell, braço científico da empresa de telefonia AT&T. Em sua "Teoria Matemática da Comunicação", ele concebeu os elementos abstratos que permitiram acelerar a revolução das telecomunicações e da informática.
        A ideia de Shannon foi muito além das aplicações tecnológicas, e sua teoria é usada hoje para explicar o funcionamento do DNA e físicos também tentam entender as partículas elementares como agrupamentos de informações.
        O fio condutor do livro de Gleick é a maneira com que as ideias de Shannon afetaram o mundo, hoje. Sua teoria é aquilo que acelerou as tecnologias causadoras da "inundação" de informação na qual vivemos hoje, da Wikipédia às redes sociais.
        "A coisa assustadora de escrever um livro sobre informação era que ele teria de ser praticamente sobre tudo", disse Gleick em entrevista à Folha. "A tese do meu livro é a de que a informação é um conceito essencial a tudo aquilo que nós humanos apreciamos, dentro e fora da ciência."

          sexta-feira, 17 de maio de 2013

          Novo manual de psiquiatria é lançado em meio a críticas

          folha de são paulo

          RAFAEL GARCIA
          EM WASHINGTON

          O livro que orienta a atividade de psiquiatras do mundo inteiro ganha amanhã uma nova versão num lançamento com certo sabor de derrota.
          A quinta edição do DSM (Manual de Estatísticas de Diagnósticos) promete tornar mais coerentes os critérios de definição de transtornos mentais, mas deve deixar de nortear pesquisas que conectam a prática clínica à ciência de ponta feita nessa área da medicina.
          A festa de lançamento do livro ocorre no encontro anual da APA (Associação Psiquiátrica Americana), que começa amanhã em San Francisco e vai até quarta-feira (22).
          A declaração que criou um clima de desconforto para o evento, porém, partiu da periferia de Washington, onde fica o NIMH (Instituto Nacional de Saúde Mental), o principal organismo de financiamento à ciência psiquiátrica nos Estados Unidos, com orçamento anual de US$ 1,4 bilhão.
          Às vésperas do encontro, o diretor da instituição, Thomas Insel, disse que pretende distanciar do DSM o esforço de pesquisa básica em saúde mental.
          A ideia é criar, no longo prazo, um novo sistema diagnóstico dentro de um projeto capitaneado pela instituição, o RDoC (Critérios no Domínio da Pesquisa, sigla em inglês). É preciso pôr o manual da APA de lado por um pouco e começar o esforço do zero, diz o diretor. Do contrário não haveria modo de tornar a psiquiatria um ramo da medicina mais objetivo, mais baseado em biologia e mais científico.
          "Não podemos ter sucesso se usarmos como 'padrão ouro' as categorias do DSM", escreveu Insel no blog do instituto duas semanas atrás. Segundo ele, é preciso tentar ligar a neurobiologia com itens de diagnóstico mais simples, como um tipo específico de alucinação, e não com categorias de doenças impostas de cima para baixo, como a esquizofrenia. "O sistema de diagnóstico tem de ser construído sobre dados de pesquisas emergentes, não sobre as categorias atuais baseadas em sintomas."
          Seu texto ainda trazia uma mensagem que despertou preocupação na força-tarefa encarregada de atualizar o manual. "Muitos pesquisadores ligados ao NIMH, já estressados com cortes de orçamento e com a dura disputa por verbas de pesquisa, não acolherão essa mudança com bons olhos", alertou. "Alguns considerarão o RDoC um exercício acadêmico divorciado da clínica prática. Mas essa mudança será bem recebida por pacientes e suas famílias..."
          A declaração provocou reação por parte da APA, que reconhece ter sido incapaz de criar um sistema diagnóstico baseado em neurobiologia, promessa que vinha sido feita desde a década de 1970.
          As alterações da quinta edição do DSM em relação à quarta não contemplam esse objetivo. Apesar de alguns transtornos terem sido excluídos e outros criados (veja quadro abaixo.), a base do manual ainda está nos sintomas, e não na neurobiologia. Segundo a associação, porém, é preciso manter firme a prática clínica tradicional enquanto não há ciência suficiente para uma transição cuidadosa.
          "Esforços como o RDoC são vitais para o progresso contínuo de nossa compreensão coletiva sobre transtornos mentais, mas eles não podem nos servir aqui e agora, e não podem suplantar o DSM-5", escreveu David Kupfer, chefe da força-tarefa do DSM, num comunicado oficial. "O resultados do RDoC podem um dia culminar nas descobertas genéticas e neurocientíficas que vão revolucionar nossa área. Mas, até lá, devemos entregar a nossos pacientes uma outra nota promissória dizendo que algo vai acontecer alguma hora?"
          Anteontem, a APA e o NIMH tentaram aplacar o clima de animosidade emitindo um comunicado conjunto.
          "Todas as disciplinas médicas avançam por meio do progresso da pesquisa em caracterizar doenças e transtornos. O DSM-5 e o RDoC representam arcabouços complementares, e não concorrentes, para esse objetivo", diz o documento.
          As entidades também ressaltaram a importância de existir uma referência sólida de critérios para uso por planos de saúde e por governos. O Brasil usa a Classificação Internacional de Doenças, da OMS (Organização Mundial de Saúde), que é virtualmente igual ao DSM. Há um comitê de "harmonização" que trata de eliminar a incompatibilidade entre os dois sistemas.
          Editoria de Arte/Folhapress
          TESTES DE CAMPO
          Durante a troca de declarações públicas entre NIMH e APA, um assunto não mencionado pelas duas entidades foram os testes de campo para a criação de novos transtornos propostos durante a fase de elaboração do DSM-5.
          Esses trabalhos falharam em dar suporte à existência de algumas categorias, como o "transtorno misto de ansiedade e depressão", a "autoagressão não suicida" e a "síndrome do risco de psicose" (uma pré-esquizofrenia infantil). Nenhum destes deve entrar no manual.
          Sem uma injeção maior de verbas por parte do NIMH no futuro, é improvável que as próximas versões do DSM consigam testar tantas propostas de novos transtornos a cada revisão.
          Além de receber críticas por parte de quem defende uma psiquiatria mais biológica, o novo DSM-5 também será lançado em meio a ataques de entidades de classe de psicólogos.
          Uma petição que pedia ao manual para adotar uma abordagem mais humana e menos farmacológica na psiquiatria ganhou a assinatura de 14 mil profissionais de saúde. Essa demanda ganhou ainda mais força quando Allen Frances, psiquiatra chefe da força-tarefa que elaborou a edição anterior do DSM, juntou-se ao grupo.
          "Em minha opinião, o processo do DSM-5 foi obscuro, fechado e escorregadio --com restrições de confidencialidade, prazos estourados a toda hora, testes de campo descuidados, o cancelamento de um importante passo no controle de qualidade e muita pressa para a publicação", escreveu o psiquiatra em seu blog nesta semana. "O erro do DSM-5 foi tentar ir além do conhecimento atual."

          domingo, 28 de abril de 2013

          Entrevista Oliver Sacks

          folha de são paulo

          O cérebro alucinado
          Sacks sobre seu livro, Freud e "Os Muppets"
          RAFAEL GARCIARESUMO No recém-lançado "A Mente Assombrada", o neurologista britânico Oliver Sacks põe seu talento de narrador para descrever alucinações suas e de pacientes. Nesta entrevista, ele comenta as diferentes alucinações (por drogas, distúrbios cerebrais ou psíquicos), os avanços da neurociência e a psicanálise.
          Médicos não costumam incluir suas experiências pessoais em antologias de casos clínicos: existe uma compreensível preocupação em analisar objetivamente os pacientes, e anedotas autobiográficas não convêm a trabalhos técnicos. Há aqueles, porém, cuja experiência subjetiva é inescapável --e um deles é o tema do novo livro do neurologista britânico Oliver Sacks, 79, recém-lançado em português, sob o título "A Mente Assombrada " [trad. Laura Teixeira Motta, Companhia das Letras, 288 págs., R$ 45].
          A percepção de imagens, sons, cheiros e sentimentos à margem da realidade só pode ser estudada por meio de relatos verbais, e o autor os recolheu aos montes. Só decidiu incluir suas próprias experiências mais tarde, diz Sacks, como recurso literário: a primeira pessoa daria mais força ao livro. Se ele já tinha lançado mão dela em sua estreia, "Enxaqueca", de 1970, foi de maneira tímida. Em "A Mente Assombrada" ele se torna, de certo modo, o personagem central.
          Sacks compartilha suas incontáveis experiências alucinógenas com anfetaminas, morfina, abstinência de soníferos e até com os efeitos colaterais de uma droga antimalária que tomou no Brasil. Guardadas desde a década de 1970, quando a literatura psicodélica estava na moda, as confissões desse quase octogenário têm um sabor deliciosamente anacrônico.
          Ir a seu escritório no West Village, em Nova York, também é uma viagem no tempo. É nesse pequeno apartamento atulhado de livros que o escritor e suas duas assistentes trabalham. Sacks recebeu a Folha na manhã da segunda-feira passada, após se submeter a uma sessão de psicanálise.
          Psicanálise e sua relação com a neurociência, os diferentes tipos de alucinações relatados no livro e o estado dos estudos do cérebro estão entre os temas da entrevista abaixo. Na segunda parte, disponível em folha.com/ilustrissima, Sacks fala de seu processo de escrita, das viagens que fez ao Brasil, da música de Bach e outros temas.
          Folha - No livro, o sr. narra suas próprias experiências --alucinações pré-sono, sob efeito de drogas psicoativas e até um episódio de "delirium tremens". Por que levou tanto tempo para compartilhá-las com os leitores?
          Oliver Sacks - Sempre estive em busca de mim mesmo como paciente. Em muitos de meus livros, eu era uma das pessoas citadas: sou o caso número 75 em "Enxaqueca". E acredito que sou constituído da mesma coisa que qualquer outra pessoa. O que é especial em relação às alucinações é que não dá para descrevê-las de fora. São uma experiência pessoal.
          Quando senti que era hora de escrever um livro sobre alucinações, comecei a pensar em algumas das coisas que aconteceram comigo há mais de 40 anos, num período específico, e me perguntei: "Por que não descrevê-las?". Mas elas foram uma das últimas coisas a entrar no livro.
          Quando eu estava no hospital, com a bacia quebrada, conversando com um amigo, ele me disse: "Você volta e meia menciona essas coisas dos anos 60. Pode dar mais detalhes?". Eu meio que escrevi um esboço das histórias e entreguei a ele. No dia seguinte, quando ele voltou, eu o recebi dizendo: "Você sabe que não dá para publicar isso aí". Ele respondeu: "Dá, sim". E publiquei. [Risos.]
          Não acho que seja grande coisa. [O escritor russo Leon] Tolstói disse que tudo o que ele escreveu era parte de uma grande confissão. Talvez essas histórias sejam parte da minha confissão, mas também as considero parte de uma descrição clínica, como é o livro inteiro.
          No livro o sr. conta como era comum que pessoas que ouviam vozes ou tinham outras alucinações auditivas de origem neurológica e não psiquiátrica fossem falsamente diagnosticadas como esquizofrênicas. Foi preciso um estudo em que estudantes se disfarçavam de pacientes para revelar o problema. Isso ainda ocorre?
          É certo que o estudo nos deixou chocados. Não posso dar uma resposta clara à sua pergunta, mas vozes em geral --especialmente quando são acusatórias, dão ordens ou têm algo de desagradável-- volta e meia são diagnosticadas como esquizofrenia. Mas muita gente só ouve vozes ocasionalmente --escutam alguém dizer seu nome, coisas assim. Talvez sejam 10% da população. O livro menciona pessoas que ouviam diversas vozes, mas não são psicóticas.
          O sr. conta no livro que suas alucinações amazônicas ocorreram por causa de um medicamento antimalária que o sr. estava tomando por precaução. Nessas imagens o sr. também enxergou coisas do Brasil?
          Foram alucinações que tive quando estava com febre e diarreia. Não tinham nada a ver com o Brasil. Eram apenas as imagens de um estranho mundo específico situado no século 19, mas um no qual não tenho muito interesse [o livro menciona cenários de Jane Austen]. Preferia que fossem sonhos com florestas tropicais.
          E fiquei surpreso quando aqueles sonhos alucinatórios tão vívidos continuaram, mesmo após eu ter voltado para Nova York. Desde que o livro saiu, já recebi várias cartas de pessoas que estavam tomando o mesmo medicamento e tiveram experiências similares.
          O livro cita experimentos que relacionam tipos de alucinação a áreas específicas do cérebro. No passado essas descobertas dependiam de neurocirurgias ou de estudos de lesões cerebrais, mas hoje saem das máquinas de ressonância magnética funcional. Alguns cientistas acusam essa tecnologia de alimentar um novo tipo de frenologia, a disciplina que fracassou ao tentar explicar a mente pelo formato do crânio. A abordagem "geográfica" do cérebro está indo longe demais?
          Concordo em parte. Tanto o fMRI [ressonância magnética funcional] quanto o pet-scan [tomografia por emissão de pósitron] mostram apenas picos de aumento de fluxo sanguíneo nessas áreas cerebrais. Supomos que acompanhem os picos de atividade, mas não mostram as conexões. E tudo no cérebro é conectado reciprocamente.
          O que precisamos descobrir são esquemas de fluxo, não mapas de pontos. Idealmente, precisamos buscar conhecer todo o tráfego no cérebro. Esses estudos já começaram a ser feitos, mas ainda são incipientes. Sou sensível ao temor de que o fMRI leve a uma nova frenologia, e ainda me atenho largamente a descrições clínicas clássicas.
          No livro, descrevo uma paciente com uma lesão no lobo occipital [área visual do córtex cerebral] que teve alucinações em metade de seu campo de visão, sobrepostas à realidade. Numa delas, ela enxergava Caco, o sapo do programa infantil "Os Muppets". E ela se perguntou: "Por que o Caco? Ele não significa nada para mim". Não creio que exista uma área cerebral dedicada ao sapo Caco, é claro. Se ela existe, não vamos encontrá-la.
          Às vezes é interessante tentar rastrear a origem de certas alucinações naquilo que as pessoas estiveram observando ou vivendo. Isso é importante e crucial em alucinações traumáticas. Esse é provavelmente o ponto mais próximo da psicose ao qual eu chego no livro. Esses traumas geram, de certa forma, uma psicose limitada, ligada a um evento específico. E podem ser bem perigosos. Muita gente que sobrevive a situações de quase morte sofrem muitos danos psicológicos e neurológicos.
          Já que o sr. citou a aparição do sapo Caco, gostaria de saber como é sua relação com a psicanálise. O sr. reconhece que muitos tipos de alucinações não têm valor pessoal nem emocional. Psicanalistas não podem cair na armadilha de tentar interpretar alucinações que na verdade não têm sentido?
          Não posso falar em nome de todos os psicanalistas, mas posso falar do meu analista, que acabo de encontrar hoje cedo. Estou com ele há 48 anos. Como às vezes puxo o assunto, ele diz que agora presta atenção nisso. Ele diz que, antes de pegar no sono, volta e meia vê dúzias ou centenas de rostos que não reconhece e que não têm nenhum significado. Ele, em particular, não insiste em buscar significado para tudo. Mas às vezes o significado existe.
          Dou um exemplo em "Alucinações Musicais". Um sonho que eu tive continuou como alucinação e me perturbou muito. Eram canções que eu ouvia em alemão, e eu não falo alemão.
          Telefonei para um amigo, contei a ele, e ele me pediu para assobiar uma delas. Assim que o fiz, ele perguntou: "Você abandonou um paciente jovem ou matou uma ideia literária incipiente?". Respondi: "Fiz as duas coisas ontem".
          Como ele adivinhou? Ele reconheceu a melodia de uma das "Kindertoenlieder", de Mahler [canções sobre morte de crianças]. A alucinação desapareceu assim que foi analisada.
          Não foi o caso das alucinações do pai de Charles Bonnet, que eu menciono no livro. [Na síndrome de Bonnet, pessoas que perdem a visão aos poucos têm alucinações visuais cada vez mais complexas.] Ele as descreveu num caderno que ficou perdido por mais 150 anos e só foi encontrado em 1902, pouco depois de Freud publicar "A Interpretação dos Sonhos".
          Psiquiatras capturaram o material achando que seria um caminho dourado para o inconsciente, mas não conseguiram tirar nada dele. Mas existem, sim, formas de alucinação que por certo têm a ver com as disposições das pessoas. Talvez seja o caso das alucinações religiosas.
          Meu analista certamente não impõe interpretações ou símbolos sobre mim. Ele é muito aberto. Acredito que, para ele, as relações são mais importantes do que interpretações em particular.
          Como o sr. vê a teoria freudiana? Psiquiatras e neurologistas nos EUA sempre resistiram a adotá-la.
          Acho que as noções de um inconsciente dinâmico, de repressão, de dissociação e de regressão continuam sendo válidas. Alguns neurocientistas, como Eric Kandel, se preocupam em conseguir achar as bases neurológicas desse tipo de coisa. Mas ninguém mais fala hoje, por exemplo, em pulsão de morte [tendência à autodestruição], que é vista como aberração.
          Acho importante que as pessoas, quando tiverem tempo, possam conversar e pensar sobre sintomas em suas vidas na presença de um especialista desapaixonado que possa conhecê-las bem.
          A nova tendência de buscar terapias rápidas talvez seja economicamente necessária, mas creio que uma forma de psicanálise continuará persistindo. São Paulo, aliás, parece ser um lugar com uma quantidade de psicanalistas fora do normal.
          O presidente Barack Obama anunciou um pacote de estímulo de US$ 100 milhões para a neurociência, e a promessa é que isso dê início a um mapeamento do cérebro humano, tal como o Projeto Genoma mapeou o DNA. Aquele sucesso pode ser repetido?
          Sim, mas o valor do mapeamento vai emergir sobretudo quando ele for ligado a outros estudos. A extrema complexidade do cérebro tem nos derrotado. São 100 bilhões de neurônios, cada um conectado a outros neurônios por milhares ou dezenas de milhares de sinapses. Não temos muita informação no nível que importa. O fMRI e o pet-scan observam áreas grandes demais. Com um só eletrodo é possível analisar uma única célula, mas talvez precisemos observar milhares, conectadas de diferentes maneiras. A tarefa é enorme.
          Mas fico feliz que esteja sendo investido dinheiro nisso. Acredito que seja uma pesquisa potencialmente muito válida. Vivemos num tempo em que pesquisas de todos os tipos vêm sofrendo cortes por razões financeiras. Estou particularmente preocupado, por exemplo, com o Instituto de Neurociências de La Jolla, na Califórnia, presidido por Gerald Edelman, que ganhou um Prêmio Nobel por seus trabalhos em imunologia.
          Ele é um gênio absoluto, autor de trabalhos importantíssimos, mas o instituto está fechado por problemas financeiros. É uma perda enorme. Talvez o dinheiro do Obama sirva para evitar isso.

            quarta-feira, 3 de abril de 2013

            EUA vão investir US$ 110 milhões em 'mapa do cérebro'

            folha de são paulo

            RAFAEL GARCIA
            EM WASHINGTON
            O governo americano anunciou ontem um pacote de US$ 110 milhões para incentivar avanços em neurociências, com a principal parcela saindo do Departamento de Defesa do país.

            A Darpa, maior agência estatal de pesquisa militar, deve desembolsar US$ 50 milhões em 2014, os NIH (Institutos Nacionais de Saúde), US$ 40 milhões, e a Fundação Nacional de Ciências, US$ 20 milhões.
            A iniciativa, batizada de Brain --cérebro, em inglês, e um acrônimo para "Pesquisa do Cérebro por Avanços Neurotecnológicos Inovadores"--, foi lançada ontem pelo presidente Barack Obama e seu orçamento deve ser enviado ao Congresso dos EUA na semana que vem.
            Editoria de Arte/Folhapress
            A ideia é que o programa seja uma empreitada de longo prazo, como aquela que sustentou o sequenciamento do genoma humano na década de 1990.
            Segundo a Casa Branca, o objetivo é "acelerar o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias para permitir que pesquisadores produzam imagens dinâmicas do cérebro que mostrem como células cerebrais individuais e circuitos neurais complexos interagem à velocidade do pensamento".
            SEM PRAZO
            A iniciativa, que recebeu promessas de investimento de mais US$ 158 milhões por parte da iniciativa privada, não estabeleceu nenhuma meta concreta, ainda.
            Não há, por exemplo, um prazo para que cientistas tentem mapear as sinapses (conexões entre neurônios) humanas em sua totalidade ou uma meta para a precisão a ser atingida por aparelhos de ressonância magnética.
            Francis Collins, diretor dos NIH e ex-líder do Projeto Genoma Humano, disse que um grupo de trabalho vai definir metas científicas detalhadas para os investimentos.
            A equipe é liderada por Cornelia Bargmann, da Universidade Rockefeller, e William Newsome, da Universidade Stanford. Eles serão responsáveis por desenvolver um cronograma e determinar o que exatamente significa a "decodificação" do cérebro proposta por Obama em seu discurso.
            "Imagine o que poderíamos fazer uma vez que quebrássemos esse código", disse o presidente numa pergunta retórica. Ele citou como possíveis benefícios dos investimentos os avanços em pesquisa sobre parkinson, alzheimer e autismo.
            O papel do investimento da Darpa foi justificado como um meio de aprimorar o tratamento do estresse pós-traumático e de criar próteses neuromotoras para vítimas de lesão cerebral e amputação --problemas comuns entre veteranos de guerra.
            Obama também apelou à competitividade. "Não podemos perder essa oportunidade, pois o resto do mundo está na corrida", disse.
            O investimento do governo americano na iniciativa, porém, é menor do que o bilhão de euros que a União Europeia promete colocar no Projeto Cérebro Humano, cuja meta é simular o cérebro num computador.
            Para chegar à escala do Projeto Genoma Humano, de US$ 3 bilhões, a iniciativa Brain precisaria ter um financiamento na escala atual por mais de uma década.
            O maior contribuinte privado é a Fundação Allen --de Paul Allen, cofundador da Microsoft--, que promete US$ 60 milhões. Os outros são o Instituto Salk (US$ 28 mi), o Instituto Médico Howard Hughes (US$ 30 mi) e a Fundação Kavli (US$ 40 mi).

            sexta-feira, 22 de março de 2013

            Universo é mais velho do que se pensava

            folha de são paulo
            ditoria de Arte/Folhapress

            Medições do satélite Planck revelam ainda que expansão do Cosmo foi mais lenta do que mostravam cálculos anteriores
            Aparelho realizou mapeamento dos céus captando a luz emitida apenas 370 mil anos após o Big Bang
            RAFAEL GARCIAEM WASHINGTONO Universo é um pouco mais velho do que se imaginava e a sua expansão após o Big Bang ocorreu de forma mais lenta do que se pensava, revelam os dados mais recentes do satélite Planck, da Agência Espacial Europeia.
            A revisão de números corrigiu a idade do cosmo de 13,7 bilhões para 13,8 bilhões de anos, e sua taxa de crescimento foi reduzida em 3%. Além disso, a energia escura, a forma predominante de tudo o que há no Cosmo, é menos abundante do que se imaginava.
            O Planck, lançado em 2009, investiga o Universo primordial mapeando flutuações de temperatura que enxerga em diferentes direções no céu. Para isso, capta a radiação cósmica de fundo: a luz emitida pelo Universo apenas 370 mil anos após o Big Bang, mas que ainda permeia o espaço, viajando na forma de micro-ondas.
            Apesar de as correções feitas pelas medições do Planck serem pequenas, elas são importantes, afirmaram ontem cientistas em entrevista coletiva em Washington (a missão é europeia, mas tem forte participação da Nasa). Os físicos dizem que o aumento da certeza sobre esses números permitirá a construção de equipamentos mais precisos para investigar os enigmas da cosmologia.
            Entre eles estão a energia escura, cuja natureza ainda é desconhecida, e a matéria escura, que exerce gravidade mas não interage com a luz.
            "Uma das coisas que o Planck faz bem é determinar parâmetros que precisam ser conhecidos pelos experimentos que tentam explicar como a energia escura e a matéria escura modificam a história de expansão do Universo", disse Martin White, da Universidade da Califórnia em Berkeley, um dos físicos que analisaram os dados.
            "Durante anos, os criadores desses experimentos esperaram o Planck para pegar carona no aumento de precisão que ele providenciou."
            Minúcias à parte, os dados que o satélite coletou se encaixam bem nas previsões das principais teorias da cosmologia. Os dados confirmam o evento que os cosmólogos batizaram de "inflação": um período de expansão acelerada logo após o Big Bang. Acredita-se que seja ele o responsável por o Universo não ser hoje uma mera nuvem homogênea de matéria, sem galáxias ou planetas.
            O novo mapa mostra que a matéria parece estar distribuída aleatoriamente, mas não totalmente a esmo, e sugere que as teorias que tentam explicar a inflação de maneira mais complicada devem ser abandonadas em favor de um modelo mais simples.
            Apesar de o panorama revelado pelo Planck ser o de um Universo majoritariamente homogêneo, algumas anomalias têm despertado o interesse dos cientistas.
            Uma delas é uma região grande do Cosmo que é mais fria do que outras, representada por uma mancha azul na parte direita do mapa. Outro problema é que uma das metades do mapa concentra mais áreas quentes do que a outra, uma assimetria não prevista pelas teorias.
            "Essas coisas já eram conhecidas, mas eram um pouco controversas", afirmou o astrofísico Krzysztof Gorski, do JPL, em referência aos dados do satélite WMAP, que mapeou a radiação cósmica de fundo antes do Planck, mas com menor precisão. Esse desvios, porém, não invalidam os modelos cosmológicos reinantes, dizem os físicos. Teorias mais precisas precisam ser elaboradas e testadas no futuro para explicar as anomalias.