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domingo, 24 de março de 2013

Conceitos de 'liberal' e 'conservador' têm limites

folha de são paulo

ANÁLISE
RODRIGO COPPE CALDEIRAESPECIAL PARA A FOLHAO papa Francisco tem aquele carisma de que a igreja lança mão nos momentos em que mais necessita.
Bergoglio, com toda a liberdade que o caracteriza, é um sinal da experiência multissecular da igreja de Roma. Abraça, beija e fala com os fiéis demonstrando uma proximidade admirável.
A sua elevação ao trono de Pedro parece ressoar positivamente num país como o Brasil, onde o número dos que se declaram católicos cai progressivamente.
A pesquisa Datafolha aponta que 74% dos entrevistados avaliaram como "ótima" a eleição do papa argentino. Contudo, a alta aprovação da eleição de Bergoglio -cargo mais representativo da igreja e que tem como uma de suas funções zelar pela doutrina- vem acompanhada de posições que, em sua maioria, contrapõem as defendidas pela instituição católica.
Nota-se, por exemplo, alta aprovação do uso da pílula anticoncepcional e aprovação razoável da "pílula do dia seguinte".
Por outro lado, observa-se que muitos a favor do uso da camisinha não se posicionam favoravelmente à legalização do casamento gay.
Outros tantos a favor do divórcio posicionam-se contra a liberação do aborto. Legalização da união de pessoas do mesmo sexo, aborto e uso de anticoncepcionais são temas que geralmente aparecem juntos nesse intrincado debate.
Contudo, é preciso atentar para o fato de que são práticas entendidas com pesos diferentes pelos brasileiros.
Uma mulher, por exemplo, pode defender o reconhecimento do casamento civil de pessoas do mesmo sexo, mas negar o aborto em qualquer circunstância.
Isso demonstra que temas que parecem caminhar juntos -especialmente quando se observa uma agenda liberalizante que cresce na América Latina- são entendidos e avaliados de maneiras diferentes pelos brasileiros.
Conceitos como "liberal" e "conservador" demonstram os seus limites operacionais no campo fluido da moral.
Os brasileiros, atravessados pela vaga da destradicionalização crescente e testemunhas da emergência de um "mercado de sentido" variado -não apenas religioso, por sinal- que ganha impulso nas últimas décadas, expressam sua sensibilidade moral de formas diferentes.
Os posicionamentos morais exprimem-se de maneira subjetiva e individualizada, mergulhados na multiplicidade de concatenações, combinações e ajustes. Sem um fiador único.
Tal característica perpassa o campo religioso brasileiro e é sentida profundamente no catolicismo: 58% dos entrevistados pelo Datafolha se declararam católicos.
Muitos responderam diferentemente às perguntas, inclusive assumindo posições que vão de encontro às oficiais da Igreja Católica.
A homogeneidade aparente se dilui nos inúmeros graus de adesão à instituição. "Ser católico", como dizia o saudoso Antônio Flávio Pierucci, "é fácil".
E completa: "Reside nisso parte da força do catolicismo, mas grande parte também de sua fraqueza".

    sexta-feira, 22 de março de 2013

    Minha História - Gilbertto Liberto ,69

    folha de são paulo

    Canções para Sua Santidade
    Maestro do coro da Capela Sistina diz que relutou em aceitar posto mais prestigiado da música sacra
    FELIPE SELIGMANENVIADO ESPECIAL A ROMA
    RESUMO
    Diretor do coro da Capela Sistina durante 13 anos, o maestro Giuseppe Liberto teve contato próximo com os papas João Paulo 2º e Bento 16. Afastado em 2010 por ordem do controvertido cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, ele relembra episódios emocionantes e divertidos de seu trabalho, como quando Bento 16 foi intérprete em uma conversa dele com o então presidente George Bush.
    -
    Tudo começou no início dos anos 90, quando fiz duas apresentações na Sicília, onde eu era maestro de um coro local e também dava aula.
    Fiz duas apresentações para o papa João Paulo 2º uma em Siracusa e outra em Palermo. Nessa última, fiz uma apresentação especial num estádio, com centenas de cantores e foi onde ele me escolheu, acho eu.
    Nunca desejei fazer parte do coro da Capela Sistina. Não me interessava. Eu trabalhava muito na Sicília e queria ficar por lá. Adoro aquele lugar.
    Em janeiro de 1997, era meio-dia e me ligaram da Secretaria de Estado do Vaticano. "Olha, o papa acaba de te nomear para ser diretor do coro principal, em Roma". Fiquei perplexo, a notícia me incomodou muito e na eu hora disse não.
    Me falaram que o então maestro havia completado 80 anos e precisavam de alguém para ocupar a posição.
    Passado o choque e alguns meses, eu aceitei. Assumi no dia 29 de maio daquele ano e já no dia 29 de junho fiz minha primeira celebração. Foi quando começou a grande aventura da minha vida.
    Cheguei em Roma e me colocaram em um apartamento aqui, na Cidade do Vaticano. Este que moro até hoje [a entrevista é em sua residência]. Antes, quem morou aqui foi o cardeal argentino Leonardo Sandri. Peguei dele.
    Tenho grandes recordações dos 13 anos em que fiquei à frente do coro. Duas são do tempo de João Paulo 2º e me emocionam muito.
    A primeira foi em 2000. Era aniversário de 80 anos do ex-presidente [italiano Carlo Azeglio] Ciampi. A Secretaria de Estado do Vaticano me liga e diz: "venha à capela privada do papa agora. Você vai celebrar uma missa com ele".
    Não entendi nada. Mas cheguei lá e só estavam João Paulo 2º, Ciampi e sua mulher. Fiquei fascinado. Era um momento histórico. Quando o papa bebeu o vinho e esticou a mão, eu não acreditei. Bebi no mesmo cálice dele e foi uma emoção tremenda.
    A outra foi quando eu consegui tocar pela primeira vez, na íntegra, um magnificat [cântico eclesiástico em homenagem a Maria] que havia composto para a comemoração dos 25 anos de papado, em 2003.
    Mas a execução foi interrompida, porque o papa João Paulo 2º se sentiu mal. Lembro que o então cardeal Joseph Ratzinger chegou até mim e elogiou muito. "Logo você conseguirá completar a execução", disse.
    No dia da morte do papa [em 2005], me chamaram cedo, dizendo que ele tinha indo embora. Fui direto ver o papa e um dos primeiros a beijar seus pés.
    Depois desci até as grutas, onde preparavam o corpo. Quando olhei para o lado, lá estava Ratzinger, concentrado. Nos olhamos e foi só. Não imaginaria que ele viraria Bento 16.
    Também tenho uma boa recordação, muito divertida, por sinal, dos tempos de Bento 16. O ex-presidente americano [George W.] Bush] veio a Roma em 2008.
    O Santo Padre resolveu fazer em homenagem um concerto do coro da Capela Sistina nos jardins do Vaticano.
    No final, ele me apresentou. Conversamos sobre amenidades -"gostei da apresentação"; "você gosta de música?"; e coisas do tipo.
    Mas como Bush e eu não nos entendíamos, pois eu não falo inglês, usamos o papa como tradutor [risos].
    O conclave é um momento emocionante. E pensar que em 2005, eu estava ali dentro [da Capela Sistina, onde o papa é escolhido].
    É inacreditável, emocionante, inesquecível. Naquele ano, a Capela Paulinea [de onde os cardeais saiam] estava em reforma.
    Então saímos de mais longe, da sala principal, no segundo andar da Basílica de São Pedro.
    Pena que o sonho acabou em 2010. Fui substituído. [O secretário de Estado do Vaticano] Tarcisio Bertone colocou um salesiano [como ele] no meu lugar.
    Mas não quero falar sobre isso, prefiro lembrar das coisas boas.

      Nobel encontra papa e diz que ele não tem 'nada a ver' com ditadura
      BERNARDO MELLO FRANCOENVIADO ESPECIAL A ROMAVencedor do prêmio Nobel da Paz de 1980 por sua atuação contra a ditadura militar na Argentina (1976-83), o escritor Adolfo Pérez Esquivel disse ontem que o papa Francisco defende a investigação dos crimes cometidos pelo regime em seu país.
      Eles se encontraram no Vaticano dois dias depois da missa inaugural do pontífice, acusado pelo jornal argentino "Página/12" de ter colaborado com a repressão em seu país.
      Esquivel repetiu que as afirmações são falsas e afirmou que o agora papa não foi cúmplice dos militares e tem compromisso com a bandeira dos direitos humanos.
      "O papa Francisco reiterou-me com muita clareza que é importante se chegar à verdade, à justiça e à reparação pelos crimes cometidos na Argentina", disse.
      "O papa não teve nada a ver com a ditadura. Não foi cúmplice, não colaborou com ela. Preferiu uma diplomacia silenciosa, de pedir pelos desaparecidos, pelos presos."
      O escritor disse que dirigentes da igreja colaboraram com a repressão ao denunciar religiosos de esquerda, mas excluiu o novo papa, que era chefe dos jesuítas no país.
      "Houve, sim, alguns bispos cúmplices com a ditadura. Mas não Bergoglio", disse.
      Em nota divulgada na Alemanha, Franz Jalics, um dos missionários jesuítas sequestrados por militares na década de 1970, disse ter certeza de que Francisco não colaborou com sua prisão.
      "O missionário Orlando Yorio e eu não fomos denunciados pelo padre Bergoglio, hoje papa Francisco. É falso afirmar que nossas prisões foram provocadas por ele."
      Jalics disse que passou anos acreditando que teria sido delatado, mas descartou a hipótese. Ele e Yorio, que já morreu, foram torturados e ficaram cinco meses detidos.
      LAVA-PÉS
      Em mais uma quebra de protocolo, o papa vai celebrar a missa da Quinta-Feira Santa numa casa de detenção de menores em Roma, em vez da Basílica de São João de Latrão.
      Ele lavará os pés de 12 jovens, repetindo o gesto de Cristo com os apóstolos. É o que já fazia nesta data na Argentina, como cardeal, quando trocava a igreja por hospitais, prisões e hospícios.
      Os papas João Paulo 2º e Bento 16 visitaram a mesma instituição em outras ocasiões.

        terça-feira, 19 de março de 2013

        Cristina pede a Francisco ajuda para obter Malvinas

        folha de são paulo

        O NOVO PAPA
        Após derrota em referendo, presidente apela a argentino para pressionar Londres
        Encontro no Vaticano também foi usado para tentar 'aparar arestas' com Francisco, que foi crítico de seu governo
        BERNARDO MELLO FRANCOENVIADO ESPECIAL A ROMAUma semana depois de ser derrotada no plebiscito das Malvinas, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, apelou ontem ao papa Francisco para tentar pressionar o Reino Unido a negociar o controle das ilhas.
        Ela foi a primeira chefe de Estado a ser recebida pelo compatriota Jorge Mario Bergoglio e disse ver uma "oportunidade histórica" para reabrir a disputa após sua eleição para comandar a Igreja.
        O Vaticano não deu sinais de que o novo pontífice tenha concordado com a proposta.
        "Abordamos um tema que é muito sensível para nós argentinos, a questão das Malvinas", afirmou Cristina, sugerindo sintonia com o papa.
        Bergoglio foi um duro crítico dos governos Kirchner como arcebispo de Buenos Aires. Ele defendia a soberania argentina sobre as Malvinas, mas não há garantias de que encampe essa bandeira à frente do Vaticano.
        Depois da eleição de Bergoglio como papa, o premiê britânico David Cameron afirmou que respeita a opinião, mas mantém a decisão de não negociar as ilhas.
        Ontem, Cristina disse torcer para que Francisco repita os passos de João Paulo 2º, que mediou disputa de fronteiras entre Argentina e Chile em 1978, quando os países eram governados por ditaduras.
        Ela voltou a criticar o governo britânico, mas não comentou o plebiscito em que 99% dos moradores das Malvinas disseram apoiar a manutenção dos laços políticos com o Reino Unido.
        'PÁTRIA GRANDE'
        Cristina tentou usar o encontro para aparar as arestas e transmitir uma imagem de harmonia com o novo papa.
        Relatou que ele teria chamado a América Latina de "Pátria Grande", uma expressão usada por Simon Bolívar e repetida por governantes de esquerda do continente.
        "Para uma argentina, uma latino-americana, ouvir da boca do papa este termo me impressionou muito", afirmou, depois de presenteá-lo com uma cuia de mate, bebida tradicional no país.
        A presidente evitou comentar a acusação de que o papa teria colaborado com a ditadura militar em seu país, o que é negado pela Santa Sé.
        Ela chefia uma delegação de 140 pessoas em Roma, segundo o "Clarín". Na semana passada, o papa pediu que os argentinos não viajassem para assistir sua posse hoje.

          "Modernizar" igreja não deve ajudar a conter a fuga de fiéis

          folha de são paulo

          ANÁLISE / VATICANO
          É improvável que o novo papa decida fazer mudanças profundas em questões de moralidade pessoal e gênero
          REINALDO JOSÉ LOPESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAÀs vezes é difícil evitar a impressão de que reportagens sobre as crises da Igreja Católica são produzidas por robôs, dotados de algum tipo de gerador automático de textos (e incluo nessa categoria várias das reportagens que eu mesmo escrevi, claro).
          Basta combinar palavras-chave como "celibato", "aborto" e "pedofilia" com a expressão "fuga de fiéis" e "voilà", tem-se a fórmula para explicar o declínio supostamente inexorável do catolicismo.
          Seria leviano dizer que essas coisas nada têm a ver com o encolhimento da igreja (e, no caso da pedofilia, uma completa insensibilidade com as vítimas desse horror).
          Ao mesmo tempo, contudo, não parece claro que um clero católico casado, que inclua mulheres e se disponha a realizar matrimônios de divorciados ou gays (digamos), seja suficiente para trazer multidões de ovelhas desgarradas de volta ao rebanho.
          A questão é que todas essas mudanças "modernizantes" foram adotadas pelas chamadas igrejas protestantes históricas, separadas de Roma há uns 500 anos -os anglicanos, calvinistas e luteranos, por exemplo.
          Não adiantou grande coisa, ao menos se definirmos "adiantar" como "segurar os fiéis".
          Para as igrejas cristãs, a situação é particularmente alarmante no norte da Europa: num arco que vai do Reino Unido à Finlândia, entre dois terços e três quartos da população afirma não acreditar em Deus (desses, um terço diz crer numa vaga "força cósmica maior") -embora, nominalmente, a maioria da população ainda batize os filhos como anglicanos ou luteranos.
          No Brasil, nunca é demais lembrar que, junto com os evangélicos, a fatia demográfica que mais cresce é a dos sem religião.
          É improvável que o novo papa decida fazer mudanças profundas em questões de moralidade pessoal e de gênero.
          Caso escolha fazê-lo, no entanto, a última coisa a considerar é a sangria de fiéis católicos. Talvez seja melhor examinar se alterações desse tipo são, de fato, uma questão de justiça, de seguir o espírito do Evangelho que a igreja afirma defender -e esquecer o concurso de popularidade.

            segunda-feira, 18 de março de 2013

            Igreja é tecido que se rasga e sempre se recompõe

            folha de são paulo

            O NOVO PAPA
            ANÁLISE VATICANO
            Igreja é tecido que se rasga e sempre se recompõe
            A renúncia de Bento 16 representa o fim de uma instituição monárquica, como constituída desde a era medieval
            Bento 16 fez o que todo chefe de Estado ou de empresa lúcido deveria fazer. O ato dele vai bem além da renúncia
            MARIE-FRANÇOISE BASLEZESPECIAL PARA A FOLHAIgreja, o que é isso? Ou seria possível perguntar: "o que é a igreja?" Uma doutrina, fundada sobre o Evangelho? No entanto, existem muitas igrejas. Uma estrutura edificada através dos séculos?
            A da igreja santa, católica e apostólica de nosso credo? Uma noção mística, o corpo de Cristo que a encabeça e na qual todos por sua vez creem, do papa ao mais simples fiel?
            A renúncia de Bento 16 propôs, em primeiro lugar, a questão da unidade orgânica da igreja e incita a refletir sobre o lugar que cada um de seus membros deve ocupar.
            A decisão é um gesto profético, porque não tem precedentes, mesmo que demos a ela uma interpretação primordialmente laica, um tanto convencional: ela faz ecoar a contradição patente entre o alongamento da expectativa de vida e o peso cada vez maior da carga pontifical.
            Com isso, o lento envelhecimento do papa, que fazia parte da história do papado, já não é mais viável. Bento 16, assim, fez o que todo chefe de Estado ou de empresa lúcido deveria fazer.
            Mas o ato que ele empreendeu vai bem além disso. É o fim de uma igreja monárquica, tal como constituída desde a era medieval.
            É fato que o primeiro pontífice romano tomou por base as palavras de Cristo: "Tu és Pedro, e sobre essa pedra construirei minha igreja".Mas o sucessor era não mais que o bispo de Roma.
            A primazia romana foi constituída como um corpo que cresce, por meio da criação de redes de comunidades cristãs dispersas, mais e mais distantes, mas sempre em contato com a de Roma.
            Ela foi construída no pluralismo e com a consciência de diferenças superadas, tal como exprime a associação simbólica de Pedro e Paulo, duas figuras quase opostas, como cofundadoras.
            Bento 16 poderia, portanto, ter se tornado um "bispo emérito" (de Roma) entre seus pares, e, ao que parece, era esse título que almejava.
            O título que, por fim, reteve, o de papa emérito, traz à mente que a igreja se percebe, acima de tudo, como um corpo místico: um papa não se aposenta.
            Investido de um carisma especial quando eleito, por intercessão do Espírito Santo, ele o preserva mesmo que abandone as funções.
            Tudo isso criará jurisprudência, mas revela uma outra natureza da igreja: a carismática.
            Mudará o relacionamento entre os fiéis e a instituição e, certamente, aproximará a Igreja Católica de outras igrejas protestantes e ortodoxas.
            A Igreja Católica jamais foi uma monarquia como outras, nem uma estrutura monolítica de resistência a todo movimento, apesar do peso do aparelho eclesiástico, mais conhecido como Cúria Romana, que parece ter sido uma outra causa de renúncia para Bento 16. A igreja se desenvolveu como um tecido orgânico que se distende, ocasionalmente, se rasga, mas sempre se recompõe.
            Essa recomposição acontece, desde são Paulo, por meio da articulação em rede de comunidades minoritárias, dispersas e diferentes.
            Essa é uma constante na história da igreja, e a explosão das redes sociais em nossa era confere uma nova chance a isso -uma dimensão inédita e ainda mal controlada, mas que representa o verdadeiro potencial da igreja do século 21.
            Fazer emergir afinidades, exigências e solidariedades novas, estimular as minorias criativas, para que superem as diferenças culturais e históricas intercontinentais, as discriminações entre homens e mulheres, religiosos e laicos -é esse o futuro da igreja, mas para isso é preciso que ela reinvente seu modo de funcionar.

              Papa fala sobre misericórdia em bênção
              Em seu primeiro Ângelus, Francisco quebra protocolos e diz a uma multidão que sentimento pode mudar o mundo
              Pontífice fez piadas e, depois de celebração, cumprimentou fiéis, conversou com crianças e ganhou beijos no rosto
              BERNARDO MELLO FRANCOFELIPE SELIGMANENVIADOS ESPECIAIS A ROMA
              Em seu primeiro Ângelus (bênção dominical), o papa Francisco disse ontem que os católicos não devem se cansar de pedir perdão e que o sentimento de misericórdia pode mudar o mundo.
              Ele falou de sua janela para cerca de 150 mil pessoas, de acordo com a Santa Sé. A praça de São Pedro ficou lotada, e milhares tiveram de assistir à bênção em telões em uma avenida do Vaticano.
              "Misericórdia... esta palavra muda tudo. É o melhor que nós podemos sentir. Muda o mundo. Um pouco de misericórdia faz o mundo menos frio e mais justo", disse.
              O papa comparou Deus a um pai misericordioso, que sempre tem paciência com seus filhos. "O Senhor não se cansa de perdoar. Somos nós que muitas vezes nos cansamos de pedir perdão."
              Mais cedo, em missa no Vaticano, ele criticou a hipocrisia ao citar passagem bíblica em que Jesus salva uma adúltera do apedrejamento.
              "Nós também somos um povo que, por um lado, quer sentir Jesus, mas, às vezes, gosta de bater nos outros, condenar os outros. E a mensagem de Jesus é essa: a misericórdia", afirmou.
              Depois da missa, o papa voltou a quebrar o protocolo ao se postar diante da igreja para cumprimentar os fiéis, como um padre de paróquia. Ele se abaixou para conversar com crianças e ganhou alguns beijos no rosto.
              No Ângelus, o argentino Jorge Mario Bergoglio voltou a se diferenciar do antecessor Bento 16 pelo tom informal e teve sua fala interrompida algumas vezes por aplausos.
              Ele começou o discurso com "bom dia", saudou a multidão como "irmãos e irmãs" e fez piada ao citar um livro de teologia do cardeal liberal alemão Walter Kasper.
              "Este livro me fez tão bem... mas não pensem que estou fazendo publicidade para os meus cardeais!", disse.
              Francisco também fez um agrado aos italianos ao lembrar que escolheu o nome inédito na história da igreja inspirado em são Francisco de Assis, padroeiro da Itália.
              "Isso reforça a minha ligação espiritual com esta terra, onde estão as origens da minha família", afirmou.
              Por volta de 12h15 locais (8h15 em Brasília), o papa arrancou as últimas risadas ao se despedir do povo: "Bom domingo e... bom almoço!"
              A missa de "posse" do papa ocorrerá amanhã, com a presença de chefes de Estado, entre eles Dilma Rousseff, que chegou ontem. Ela visitou a basílicas de santa Maria Maggiore (século 5º) e são Paulo Fora dos Muros (século 4º). Depois, jantou em um restaurante.

              Ex-subordinado diz que Francisco mudará igreja
              Padre coordena paróquia a qual Jorge Bergoglio visitava regularmente
              "Ele é progressista sobretudo em questões relacionadas à imagem da igreja, aos gestos, à atitude", diz De Vedia
              SILVANA ARANTESENVIADA ESPECIAL A BUENOS AIRESJorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, é "conservador e progressista", segundo afirma o religioso argentino Lorenzo De Vedia, conhecido como padre Toto.
              No sacerdócio desde 1991, De Vedia, 46, conviveu com o cardeal Bergoglio na condição de seu subordinado.
              O padre coordena a paróquia da Villa 21, favela no sul de Buenos Aires que abriga aproximadamente 45 mil habitantes e onde Bergoglio fazia visitas regulares para acompanhamento dos fiéis e das obras sociais ali desenvolvidas.
              "Ele é progressista sobretudo em questões relacionadas à imagem da igreja, aos gestos, à atitude", declarou De Vedia à Folha e a um diário italiano em seu escritório, contíguo à Capela da Virgem dos Milagres de Caacupé, uma das oito com que conta a favela.
              Se é progressista quanto à imagem, Bergoglio é "clássico, mais até do que conservador", afirma o padre argentino, em temas cujo debate mobiliza a opinião pública em boa parte do planeta, como aborto, união homossexual e igualdade de gênero.
              Embora defina Bergoglio como "clássico" em muitos temas, De Vedia diz também considerá-lo como "alguém muito aberto, que, por exemplo, repreendeu padres que negavam o batismo a filhos de divorciados".
              Na opinião de De Vedia, o papa Francisco imprimirá mudanças e avanços no Vaticano, mas ele julga "ingênuo esperar algo mágico" de seu papado, já que a igreja obedece "aos tempos históricos, em que as mudanças são muito mais lentas do que se pode querer".
              Além de estar atrelada ao ritmo do tempo histórico, a Igreja Católica também não se desassocia das conjunturas políticas, assinala.
              "CONFUSÃO"
              O religioso conta ter tido o apoio de Bergoglio para uma iniciativa na fronteira entre a política e religião.
              "Certa vez, eu tive a ideia de instalar uma barraca missionária na praça Constitución (uma das principais da cidade de Buenos Aires)", diz o padre.
              Acampamentos com barracas são recurso comum aos grupos de protesto na cidade, sendo alguns deles permanentes.
              De Vedia diz que obteve o sinal verde de Bergoglio com a frase: "Vá em frente. É preciso criar confusão".
              A interpretação que o padre oferece para a expressão "criar confusão" dita por Bergoglio é a de que "a igreja não tem que controlar as pessoas, tem de acompanhá-las".
              Para De Vedia, a eleição do argentino como papa "corrobora a convicção e dá força internamente" aos que, como ele, têm em seu estilo pastoral "inclinação para viver em ambientes populares".
              Quanto à "opção pelos pobres" enfatizada pelo papa, De Vedia acha que não deveria "ficar reduzida a alguns setores, mas sim se estender por toda a igreja".

                Desafetos, papa e Cristina se reúnem hoje
                SYLVIA COLOMBODE BUENOS AIRESA presidente argentina, Cristina Kirchner, será a primeira chefe de Estado a ter uma reunião com o papa Francisco, hoje, ao meio-dia (8h no Brasil), em Roma.
                O encontro é cercado de grande expectativa por parte do mundo político argentino porque o líder religioso mantém uma história de enfrentamentos e desencontros com o kirchnerismo.
                O então cardeal Jorge Bergoglio foi um dos principais críticos das políticas econômicas de seu antecessor e marido, Néstor (1950-2010), a quem acusava por ser conivente com a desigualdade social no país.
                Já com Cristina suas principais disputas ocorreram em razão da aprovação de algumas leis, como a do matrimônio gay, e pela grande influência que Bergoglio tinha sobre a oposição.
                O então arcebispo de Buenos Aires fez críticas abertas a Cristina. O mais recente atrito entre os dois ocorreu por causa de uma tragédia de trem no ano passado, em que morreram 51 pessoas, e o governo foi acusado de omissão. Bergoglio declarou que era função do Estado esclarecer responsabilidades.
                Em Buenos Aires, ontem, fiéis e turistas lotaram a Catedral Metropolitana, na Praça de Maio, onde o núncio apostólico, monsenhor Emil Paul Tscherrig, celebrou uma missa de ação de graças em homenagem ao novo papa.
                A principal praça da capital será palco de uma grande festa amanhã. Um telão está sendo montado para a transmissão, ao vivo, da cerimônia de entronização do ex-cardeal da cidade. O dia será também feriado escolar. A partir de hoje, às 22h30, acontece uma vigília no local, que foi reservado para católicos.

                  O NOVO PAPA
                  Com papa latino, igreja se aproxima de fiéis nos EUA
                  Atualmente, 1 em cada 3 católicos no país tem origem hispânica; religião é seguida por 24% dos americanos
                  Catolicismo nos Estados Unidos está prestes a se tornar religião de língua espanhola, diz padre americano
                  LUCIANA COELHODE WASHINGTONOs EUA podem ter visto seu papável favorito (Sean O'Malley, de Boston) ser superado no conclave, mas a ascensão de um argentino fala alto a um grupo cada dia maior entre os 75 milhões de católicos do país: os latinos.
                  E não só por causa de sua língua materna, o espanhol. Francisco é, na descrição de teólogos americanos, um papa para tempos de crise, que entende a pobreza e cria empatia com os mais carentes.
                  "Essa escolha fará uma tremenda diferença. Estamos prestes a virarmos, nos EUA, uma igreja cuja principal língua é o espanhol", resumiu à Folha o padre Raymond Kemp, professor de teologia e pesquisador do Centro Woodstock na Universidade de Georgetown.
                  "A coisa mais bacana deste papa, porém, é sua total identificação com os pobres", diz Kemp, para quem as declarações de Francisco sobre pobreza vão reverberar na Cúria e no rebanho em um momento de crise global. "Acho que as pessoas vão recebê-lo bem aonde quer que ele for nas Américas."
                  Hoje, 1 em cada 3 católicos dos EUA tem origem latina (entre a população geral, os latinos são apenas 15%).
                  Mais do que isso, são os latinos que renovam as fileiras da Igreja Católica nos EUA, alimentadas nos dois séculos anteriores pela imigração irlandesa e italiana. Levantamento do Centro Pew (o Censo não afere religião) aponta que eles já são 47% dos católicos de até 40 anos no país.
                  "Isso ainda é um retrato pontual, mas se as coisas seguirem como estão hoje, logo se consolidará como tendência", disse à Folha Jessica Martinez, pesquisadora do braço do Pew para religião.
                  Nesse sentido, Kemp afirma que "a mensagem que os cardeais mandam, com a eleição de Francisco, é para que prestem atenção à linguagem, à cultura, às pessoas".
                  Embora os católicos não sejam maioria nos EUA (são 24%), o país congrega 7% dos fieis da religião no planeta, o quarto maior contingente. Além disso, a Igreja dos EUA destaca-se como uma das maiores financiadoras do Vaticano.
                  Não à toa a mídia local e o próprio presidente Barack Obama apressaram-se em classificar o argentino Francisco como o primeiro "papa das Américas", e não o primeiro latino.
                  Mas o momento é de provação para a igreja no país desde que começaram a vir à tona, no início da década passada, casos de abuso sexual de crianças por sacerdotes.
                  O número de católicos que se declaram fortemente ligados à religião caiu para apenas 27%, o menor em quatro décadas, ressalta o Pew.
                  Por isso, a escolha de Francisco, fora da lista negra de papáveis acusados de encobrirem abusos, segundo associações de vítimas, foi considerada boa notícia nos EUA.
                  Os episódios são o principal problema hoje da Igreja Católica para 34% dos fiéis do país.

                    Entrevista da 2ª Roberto Romano

                    folha de são paulo

                    Francisco terá de enfrentar Cúria se quiser arejar igreja
                    Professor da Unicamp diz que Papa pode administrar Santa Sé junto com bispos; jesuítas, ordem do pontífice, são 'exército'
                    LAURA CAPRIGLIONEDE SÃO PAULOProfessor de ética e filosofia na Unicamp e doutor em filosofia pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, Roberto Romano considera que Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, tem credenciais de sobra para enfrentar os dilemas da igreja num mundo multicultural, globalizado, acossado pelos avanços da ciência, cada vez mais dessacralizado.
                    Segundo Romano, a Companhia de Jesus, ordem fundada por Inácio de Loyola no século 16, de onde provém o atual papa, é a que mais dialoga com os desafios da modernidade. "Eles estudam, estudam, estudam, debatem com pesquisadores laicos do mundo todo para saber como reafirmar da melhor forma os princípios da igreja".
                    O filósofo foi, durante 12 anos, frade dominicano. O Brasil vivia sob a ditadura militar, fase em que o Convento dos Dominicanos de São Paulo converteu-se em base de apoio da luta armada e de seu líder principal líder, Carlos Marighella (1911-69).
                    O jovem Romano (o nome homenageia a igreja de Roma) chegou a amargar um período atrás das grades, no famoso presídio Tiradentes.
                    É com esse histórico que Romano avalia as denúncias de que Francisco teria delatado dois padres jesuítas para a ditadura argentina.
                    Segundo Romano, o pontífice está pagando pelos erros de toda a igreja naquele país, que colaborou ativamente com a repressão.
                    -
                    Folha - Qual a importância de, pela primeira vez, o papa ser um jesuíta?
                    Roberto Romano - A Companhia de Jesus foi criada no século 16 como parte da Contrarreforma. As pessoas ligam a Contrarreforma apenas ao combate à Reforma Protestante. Mas, na verdade, tratou-se de uma estratégia definida em relação à Reforma e ao Renascimento.
                    Os desafios que eram apresentados à igreja na época vinham de um mundo que já era em boa parte laico e que estava produzindo uma série de saberes que ultrapassavam o quadro da metafísica tomista [de são Tomás de Aquino (1225-74)], adotado oficialmente pela igreja.
                    Os jesuítas foram produzidos como verdadeiros guerreiros em luta pela conquista da modernidade para a Igreja Católica e para combater o protestantismo.
                    Eles prepararam-se com todas as armas da cultura que era sua adversária.
                    E como essa cultura jesuíta pode ajudar nos dias de hoje o governo da igreja?
                    Não se pode pertencer a essa ordem sem um trabalho intelectual. É uma ordem que cultiva a ciência e a técnica.
                    O caso do papa Francisco ilustra bem esse fato: primeiro, ele se formou em química, então, sentindo essa adequação com a ordem jesuítica, foi ser um deles.
                    Muitos são médicos, físicos, matemáticos, teólogos, filósofos. Dedicam-se a um diálogo com o mundo científico, tecnológico e político.
                    Você tem há séculos jesuítas nos Estados Unidos, na Alemanha, em Israel, no Brasil etc. Eles detêm um saber antropológico e científico muito aprofundado e ramificado internacionalmente.
                    São uma ordem com capacidade intelectual e disciplina imensas. "Perinde ac cadaver" ou obedecer como um cadáver. Fazem tudo para a maior glória da igreja.
                    Quem é a "turma" do papa no Brasil?
                    Hoje, no Brasil, os jesuítas têm centros de excelência, como a Unisinos, no Rio Grande do Sul. Os temas mais relevantes do debate ético e religioso mundial aparecem lá: homossexualidade, aborto, vida, eutanásia.
                    Quem é a estrela jesuíta no Brasil?
                    É muito difícil encontrar um jesuíta estrela. Eles são avessos a esse brilhareco tão comum no meio acadêmico.
                    De vez em quando, aparece um. Curiosamente, não pelo que ele fazia ou dizia, mas porque a igreja colocou-se contra o que ele fazia.
                    Foi o caso de Teilhard de Chardin [1881-1995], jesuíta francês. A igreja proibiu-lhe que continuasse suas pesquisas sobre a evolução. Aí, contra a vontade dele, ele tornou-se famoso.
                    A escolha de um jesuíta pode significar um arejamento da igreja?
                    Vai depender da capacidade de resistência da Cúria Romana a esse tipo de posição.
                    Houve um movimento de centralização terrível no período de Pio 12 (1939-58), que reprimiu o quanto pôde as divergências internas e legou um poder imenso à Cúria quando morreu.
                    João 23 foi um grande papa justamente por ter enfrentado a Cúria e convocado o Concílio Vaticano 2º. Isso permitiu que o papa Paulo 6º governasse em colegialidade.
                    Com João Paulo 2º, a Cúria voltou ao centro, com repressão, perseguição etc. Foi um dos papados mais repressivos da história da igreja. Eleito Ratzinger, o papa Bento 16, ele não conseguiu dominar a Cúria. Esse desafio o papa jesuíta terá de enfrentar.
                    Como?
                    A igreja tem movimentos de sístole e diástole. Há os conciliaristas, que defendem o Concílio e o colégio dos bispos como autônomos em relação ao papa, e há os que defendem o poder absolutista do papa.
                    Conforme a crise, a igreja apela para a colegialidade ou para a hipercentralização do poder. O que Francisco pode fazer é, pouco a pouco, aumentar a colegialidade.
                    Há alguma chance de o novo papa flexibilizar a imposição do celibato?
                    Eu acho muito difícil, mas será uma das questões a ser debatida nessa possível colegialidade.
                    O papa terá de estabelecer um diálogo com os bispos nacionais e colocar na pauta todos esses problemas, inclusive a questão do celibato.
                    Mas não sei se Francisco, pela idade, terá forças suficientes para tanto.
                    Como o senhor avalia a denúncia sobre a suposta colaboração do novo papa com a ditadura argentina?
                    Se existe um problema gravíssimo é o fato de a igreja argentina ter colaborado ativamente com a repressão. Foi muito mais do que uma simples omissão.
                    A Argentina presenciou uma unidade da igreja com o regime ditatorial que é espelho do que já havia acontecido na Europa -na Espanha franquista, na Itália fascista, na Alemanha nazista.
                    Não é por acaso que, depois da ditadura, a igreja perdeu um número imenso de fiéis na Argentina.
                    Aliás, quem mais colaborou com a repressão ditatorial na Argentina não foram os jesuítas. Foram os dominicanos, a mesma ordem que, no Brasil, abrigou Carlos Marighella, o inimigo número um do regime militar.
                    Como é possível?
                    Essas ordens têm várias tendências internas. No caso dos jesuítas, essas tendências são mais disciplinadas.
                    No caso dos dominicanos, as tendências transbordam em público porque a ordem tem origens históricas e ideológicas muito diferentes.
                    Quando os dominicanos quiseram trazer a ordem para o Brasil, dom Pedro 2º disse que jamais deixaria que inquisidores entrassem.
                    Mas aí contaram-lhe que eram os dominicanos franceses, de tendência socialista, e ele permitiu. Eram dominicanos diferentes dos que foram para a Argentina, herdeiros do ramo espanhol, ligados à tradição inquisitorial e, mais tarde, ao franquismo.
                    Para mim, o papa Francisco pode estar pagando pelos pecados da igreja argentina como um todo.
                    Até porque acho muito esquisito que um superior jesuíta colaborasse ou mesmo abandonasse à morte ou para a tortura dois "soldados" da sua própria ordem. Não se esqueça de que a Companhia tem a organização de um Exército.
                    É preciso investigar melhor. É contra o espírito de disciplina da ordem.
                    Como o novo papa tende a se relacionar com a Renovação Carismática?
                    Ele pode aproveitar muito. Essa sabedoria antropológica que o jesuíta tem traduz-se justamente pela capacidade que eles têm de usar todos os movimentos que possam levar a uma expansão da fé.
                    É evidente que parece um pouco esquisito pensar em um padre intelectualizadíssimo como o jesuíta em um movimento como a Renovação Carismática. Mas é assim que eles atuam.
                    Na China do século 17, eles adotaram a língua, os costumes, os paramentos chineses, o culto aos ancestrais e fizeram de Confúcio a filosofia de base.
                    Contra os jesuítas, estavam os dominicanos que queriam impor o latim e que a filosofia de Confúcio fosse declarada demoníaca. Ganharam os dominicanos, e a igreja perdeu a China.

                      FRASES
                      "Acho muito esquisito que um superior jesuíta [como Jorge Mario Bergoglio na época] colaborasse ou mesmo abandonasse à morte ou para a tortura dois "soldados" da sua própria ordem. É preciso investigar melhor. É contra o espírito de disciplina da ordem"
                      "Os jesuítas detêm um saber antropológico e científico muito aprofundado e ramificado. São uma ordem com capacidade intelectual e disciplina imensas. "Perinde ac cadaver" ou obedecer como um cadáver. Fazem tudo para a maior glória da igreja"


                      RAIO-X ROBERTO ROMANO
                      NASCIMENTO
                      1944, em Jaguapitã (PR)
                      FORMAÇÃO
                      Graduado em filosofia pela USP, doutor pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e pós-doutor pela Unicamp
                      OBRAS
                      "O Caldeirão de Medeia" (2011) e "Os Nomes do Ódio" (2009), entre outros

                        domingo, 17 de março de 2013

                        A histórica trindade - Kenneth P. Serbin

                        folha de são paulo

                        O papa e as chaves para um novo catolicismo
                        KENNETH P. SERBINTRADUÇÃO RODRIGO LEITERESUMO Historiador sintetiza os principais significados da eleição do novo papa e especula sobre as feições que o catolicismo deverá assumir. Francisco simboliza a conquista do poder religioso pelo continente, a abertura da igreja à questão ambiental e a adesão a princípios da Teologia da Libertação, como o combate à pobreza.
                        Evocando o dogma central da Santíssima Trindade, três ineditismos no novo pontificado de Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, fornecem as chaves para compreender os rumos que ele pode dar à Igreja Católica Romana. Comecemos pelo nome escolhido. Como Francisco, Bergoglio sugere múltiplos significados para a sua liderança.
                        A mais óbvia é a herança de são Francisco, o mais familiar símbolo da pobreza, humildade e simplicidade cristãs. Esses traços remontam às fundações da igreja, e lembram aos fiéis nesta frenética era pós-moderna sobre como eles podem praticar sua fé e dela prestar testemunho. Ao evocar a figura de são Francisco, o novo papa talvez tenha também sinalizado à igreja, e ao mundo, a necessidade de defender o ambiente. Amante dos animais, são Francisco é a inspiração para o atual movimento ecológico dentro da ordem franciscana. Deve-se amar a Deus - mas também à Sua criação.
                        São Francisco de Assis foi também um instigador da reforma na igreja medieval. Seu exemplo poderia muito bem servir como um ímpeto reformista na atual igreja, tão abalada pelo enorme escândalo dos abusos sexuais, por irregularidades financeiras e, no seu topo, por disputas burocráticas internas denunciadas publicamente pelo papa emérito Bento 16.
                        Lidar com esses desafios exigirá um papa forte e decidido -e que veja sua missão como um líder não da instituição, mas primordialmente dos fiéis, do Povo de Deus.
                        Em um nível prático, a hierarquia eclesiástica deve recuperar a confiança dos fiéis se quiser atrair os recursos financeiros necessários para manter as atividades sociais básicas da instituição, como escolas, universidades, hospitais, centros paroquiais e outras. Conquistar os católicos nos EUA, histórico esteio financeiro para a igreja em todos os níveis, será crucial diante dos multibilionários acordos judiciais resultantes do escândalo dos abusos sexuais.
                        A adoção do nome Francisco, com tudo o que ele representa, sugere que a Igreja Católica deve voltar ao básico. Bergoglio parece estar dizendo que os crentes, e o resto do mundo, devem redescobrir os fundamentos da existência humana. Isso levou o papa Francisco a aparecer em vestes simples e a iniciar seu pontificado com uma oração de silêncio. Ele convocou a massa de crentes a meditar sobre o futuro da igreja.
                        MÍDIAS Citados na sacada da basílica de São Pedro, as novas mídias sociais e os avanços tecnológicos nas comunicações podem certamente ser meios importantes para a transmissão do Evangelho hoje em dia, mas Francisco está talvez nos dizendo para não fazermos deles um fim. Esse papa parece preferir a substância ao estilo, os valores à técnica.
                        Como várias reportagens sugeriram no período que antecedeu ao conclave e imediatamente depois, Bergoglio é uma mistura de tradição e modernidade -uma das realidades centrais na instituição de 2.000 anos, e uma categoria de análise há muito tempo empregada pelos acadêmicos para entender suas complexidades.
                        O nome Francisco também evoca são Francisco Xavier, um dos principais missionários jesuítas. Graças a ele, vastas áreas do Oriente, inclusive a Índia e a China, foram apresentadas ao cristianismo. Ele simboliza a presença da igreja no mundo não europeu, onde reside atualmente a vasta maioria dos católicos e dos demais cristãos.
                        AMÉRICAS A história missionária da igreja nos leva à segunda chave interpretativa de Francisco: ele é o primeiro papa das Américas e do mundo em desenvolvimento. No início da era moderna, com a chegada dos espanhóis e portugueses ao Novo Mundo, o catolicismo embarcou em uma campanha rápida, vasta e frequentemente violenta para cristianizar o mundo.
                        A Europa, outrora o coração dessa missão, perdeu o espírito de conquista ao lidar com crises internas, incluindo duas desmoralizantes guerras mundiais, no século 20. A eleição de Bergoglio confirmou o que latino-americanos, africanos e asiáticos há muito tempo já sabem: que as mais vibrantes experiências cristãs têm brotado no mundo em desenvolvimento, entre as nações pobres que aspiram ao status moderno e independente do Primeiro Mundo.
                        Como Bergoglio e sua geração testemunharam, o caminho foi longo e doloroso na América Latina, com a rápida urbanização, a emergência das favelas e regimes ditatoriais que mataram milhares dos seus próprios cidadãos. As primeiras reportagens sobre Bergoglio lançaram uma névoa de dúvidas sobre o seu comportamento durante a guerra suja argentina da década de 1970 e a suposta falta de uma reação vigorosa para investigar a cumplicidade da igreja argentina com os ditadores.
                        Os indícios sobre seu comportamento parecem inconclusivos e, assim como os historiadores há décadas debatem o papel da igreja europeia durante o Holocausto judaico, os estudiosos do pontificado de Francisco talvez criem uma polêmica sobre sua relação com os militares argentinos. Justificado ou não, esse legado acompanha Bergoglio no seu pontificado.
                        O mesmo vale para outros aspectos, mais positivos, da sua experiência. Como fez grande parte da igreja em outros lugares, incluindo João Paulo 2º e Bento 16, Bergoglio assimilou os pilares básicos da Teologia da Libertação latino-americana.
                        Ele já se referiu às crianças de rua argentinas como "escravas", e declarou que "os direitos humanos são violados não só pelo terrorismo, pela repressão, pelos assassinatos [...], mas também pela existência de condições de pobreza extrema e de estruturas econômicas injustas que originam as grandes desigualdades".
                        Apesar do desempenho econômico extremamente irregular da Argentina desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-45), Bergoglio irá representar uma região que tem demonstrado avanços na redução da pobreza, um forte aumento das classes médias e melhorias em indicadores sociais importantes. Avanços semelhantes são vistos em outras partes do mundo em desenvolvimento.
                        O papa Francisco, assim, representa um mundo em desenvolvimento que enfrenta dificuldades -mas para o qual o status de Primeiro Mundo não é mais uma mera fantasia. No mesmo momento em que esse mundo em desenvolvimento alcança a dominação religiosa, também conquista uma crescente influência política e econômica. Assim como João Paulo 2º ajudou o mundo a sair da Guerra Fria, Francisco pode promover mais igualdade entre as nações.
                        Colonizada durante mais de três séculos e submetida aos interesses da Europa e EUA nos séculos 19 e 20 -com a Igreja Católica participando plenamente do processo de subjugação-, a América Latina está finalmente alcançando sua independência religiosa com a eleição do papa Francisco.
                        Já faz décadas que, com aquilo que pode ser chamado de "fenômeno missionário reverso", a influência religiosa da América Latina se estendeu para fora por meio da emigração, da transmissão de ideias como a Teologia da Libertação e da exportação de clérigos e outros religiosos (principalmente de outras denominações cristãs).
                        Cada vez menos jovens dos EUA e Europa querem se tornar padres católicos, e ainda menos querem virar freiras. O mundo em desenvolvimento é a principal fonte de novas vocações da igreja.
                        A terceira e última chave interpretativa para o papa Francisco é sua ligação com a Companhia de Jesus: ele é o primeiro jesuíta a se tornar papa. Depois que João Paulo 2º. interveio na ordem jesuíta e buscou diminuir sua influência -em parte por causa da adoção de ideias e práticas radicais por membros latino-americanos-, parecia altamente improvável que um jesuíta pudesse se tornar papa.
                        Agora, Francisco empregará, em todos os desafios da igreja, a tradição de uma ordem que valoriza a rígida obediência ao papa, mas que também enfatiza a educação, a ciência e a tecnologia, a exploração das fronteiras do pensamento e uma espiritualidade que salienta tanto a reflexão profunda como a ação no mundo.
                        Como jesuíta, Francisco traz uma abordagem bem moldada e refletida para a realidade e a fé. Essa origem lhe dá as ferramentas para atuar como um guardião da fé, mas também para potencialmente levá-la a novas direções.

                          Clovis Rossi

                          folha de são paulo

                          É cedo para santificar o papa
                          Midia deslumbra-se com o argentino Francisco, que só teve tempo para definições espirituais
                          É compreensível que a massa de fiéis reunida na praça de São Pedro, durante a cerimônia fúnebre de João Paulo 2º, decretasse aos gritos: "Santo subito".
                          Afinal, o pontificado de João Paulo 2º durara 28 anos, tempo mais que suficiente para exibir ao mundo suas qualidades (defeitos também, mas, nessas horas, ninguém pensa em defeitos).
                          É um exagero, no entanto, a mídia, inclusive a do Vaticano, transformar o noticiário em torno do novo papa em culto à personalidade de Jorge Mario Bergoglio, como reproduzisse para ele o grito de "Santo subito" de oito anos atrás.
                          Cada detalhe de sua biografia e cada vírgula de suas palavras são apresentados em "odor de santidade", a fragrância que a tradição católica diz que emana dos santos.
                          Talvez o exagero se deva ao fato de que Bergoglio era um virtual desconhecido para o mundo, o que leva o jornalismo a procurar, em cada pequeno gesto e cada pequena fala, o rosto do novo pontificado.
                          Está sendo inútil até agora, a menos que se considere que a escolha do nome Francisco seja uma declaração de intenções, a de querer, como disse ontem, "uma igreja pobre, para os pobres". Não conheço um único religioso (ou político) que tenha defendido uma igreja (ou partido ou governo) para os ricos.
                          Entendo em todo o caso a carência de definições sobre a vasta e complexa agenda da igreja, que, segundo dom Cláudio Hummes, "precisa de uma reforma em todas as suas estruturas".
                          O papa explicou que "a igreja, embora sendo certamente também uma instituição humana, histórica, com tudo o que isso comporta, não tem uma natureza política, mas essencialmente espiritual".
                          Os mortais comuns aprendemos a lidar com a política, gostando ou não dela, mas o espiritual é para poucos escolhidos.
                          O problema é que temas essenciais da agenda da igreja, como o escândalo de pedofilia ou a polêmica em torno do casamento entre pessoas do mesmo sexo, são essencialmente humanos.
                          O papa precisará mesmo do odor de santidade para levar a cabo o que dom Cláudio definiu como "obra gigantesca" de renovação da igreja. Precisará também da coragem que lhe faltou durante a ditadura militar argentina, como depõe o prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel: "Não considero que Jorge Bergoglio tenha sido cúmplice da ditadura, mas creio que lhe faltou coragem para acompanhar nossa luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis".
                          O passado, portanto, não permite sentir odor de santidade no novo papa, até porque santos se revelam exatamente nos momentos difíceis. No caso da Argentina, durante a ditadura, o que estava em jogo era condenar a barbárie, não calar-se.
                          Mas é hora de virar a página Bergoglio e abrir a página Francisco. O que começará a dar um rosto -santo ou não- ao novo papado serão as escolhas para os cargos vitais da Cúria, em especial a nomeação para a secretaria de Estado, o segundo cargo no Vaticano -escolha que será todo um programa de governo do novo papa e lhe dará (ou não) os primeiros "odores de santidade".

                          Eleição de Francisco pode corresponder ao figurino da de 1978

                          folha de são paulo

                          ANÁLISE
                          Alguém alheio às disputas internas da burocracia é a melhor receita para que elas prossigam enquanto o Papa se entrega à oração
                          MARCELO COELHOCOLUNISTA DA FOLHAHá uma ironia na eleição do cardeal Jorge Mario Bergoglio para o pontificado. Ele tinha sido o único rival sério de Joseph Ratzinger no conclave anterior.
                          Espíritos mal intencionados podem ver agora, na escolha de Bergoglio, um velado arrependimento. Se Bento 16 renuncia ao cargo, por falta de vigor físico e intelectual, coloque-se Bergoglio, de quem se desistira naquela oportunidade. Uma lição?
                          Aos 76 anos, sem um pulmão, o cardeal argentino não parece ter o físico ideal para enfrentar as tarefas a que aludia Bento 16 em seu discurso de renúncia.
                          Talvez a eleição de Francisco corresponda ao figurino da que se deu em 1978. Diante das divisões que fizeram de Paulo 6º um personagem "hamletiano", os cardeais optaram naquela época por um santo -Albino Luciani, sorridente, simples, ausente das disputas burocráticas.
                          É também possível que o conclave tenha se deixado levar pela semelhança física de Bergoglio com Pio 12.
                          Os olhos amplificados pela lente dos óculos, o queixo oval e forte, o formato da calva lembram muito aquele antecessor seco e místico, talvez santo, mas nem por isso acima de uma séria acusação - a de ter-se omitido diante do horror nazista.
                          Suspeitas de omissão diante de outro horror, o da ditadura argentina, pesam sobre o novo papa. O momento, entretanto, é de comemoração entre os católicos, e as críticas de alguns compatriotas surgem como minoritárias em meio ao alarido dos sinos e orações.
                          Um jesuíta, um "outsider", alguém distante das intrigas da Cúria, e ainda mais adotando o nome de Francisco -uma esperança de simplicidade. Assim reagem, com alegria, alguns analistas. "Alguém moralmente acima de qualquer crítica", exulta além disso Gary Macy, professor de história eclesial numa universidade jesuíta da Califórnia.
                          O problema é que muitas dessas razões podem ser invertidas para explicar a eleição do cardeal Bergoglio.
                          Ter alguém alheio às disputas internas da burocracia é a melhor receita para que elas prossigam, enquanto o papa se entrega à oração, à pregação e à contemplação mística. O santo pode alhear-se bastante dos que, dedicados a um cotidiano mais terreno, preferem vê-lo pairando acima do teto.
                          SUSPEITAS COMPLEXAS
                          A simplicidade imaculada do novo papa se percebe a olho nu. Mas as suspeitas à sua volta são mais complexas.
                          Se alguém queria livrar a igreja de escândalos recentes, não sei se é uma excelente ideia dar ocasião para se remexer em casos tão sinistros como os da prisão dos padres Orlando Yorio e Francisco Jalics, o da entrega para adoção de uma recém-nascida, filha da prisioneira política Elena de La Cuadra, ou o da concessão do título de doutor honoris causa pela Universidad del Salvador ao mortífero almirante Emilio Massera. Casos nos quais se acusa Bergoglio de ter tido participação.
                          Quando não se confessa Jesus Cristo, disse o papa em sua primeira homilia, confessa-se "o mundanismo do Diabo". Ou se está com Cristo ou com o demônio, portanto.
                          Afora o tom ultraconservador dessas palavras, cabe perguntar com quem estava Bergoglio durante as torturas e os desaparecimentos na Argentina.
                          Quem achava cansativas as denúncias de pedofilia pode esperar sem dúvida por novos tempos na Igreja Católica.

                            Elio Gaspari

                            folha de são paulo

                            Uma trapalhada em Cingapura
                            Antonio Patriota deverá explicar quem mandou sugerir à Jurong que saísse do caminho de Eike e André Esteves
                            Está sobre a mesa do chanceler Antonio Patriota uma daquelas encrencas que caem nas costas dos diplomatas e acabam em fritura quando eles ouvem os poderosos do momento. O senador Ricardo Ferraço denunciou que o embaixador do Brasil em Cingapura, Luís Fernando Serra, procurou a direção da empresa Jurong para que ela transferisse seu estaleiro do município capixaba de Aracruz para o Porto do Açu, no norte do Rio de Janeiro. Esse empreendimento pertence ao empresário Eike Batista, que há pouco se associou ao banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. A gestão de Cingapura foi confirmada pelos diretores da Jurong no Brasil.
                            Como se fosse uma brincadeira de cubos, um estaleiro que está com 15% de suas obras feitas, com investimentos previstos para R$ 500 milhões e encomendas assinadas, seria transferido total ou parcialmente para outro lugar. No fundo, trata-se de repassar as encomendas e de absorver um concorrente. Dificilmente uma ideia dessas sairia da cabeça do embaixador. Segundo o senador Ferraço, num contato que teve com Nery De Rossi, secretário do Desenvolvimento do governo capixaba, o diplomata informou que a gestão foi solicitada pelos ministros Guido Mantega, da Fazenda, e Fernando Pimentel, do Desenvolvimento. Os dois negaram que tenham patrocinado a proposta.
                            Se os ministros pediram a gestão, deveriam tê-lo feito formalmente. Nesse caso, estaria documentada. O que levaria um diplomata lotado em Cingapura a sugerir a transferência de um empreendimento para a carteira de interesses de Batista e Esteves? Não é da tradição do Itamaraty esse tipo de ligeireza. Pelo contrário, em 1980 o embaixador do Brasil no Chile, Raul de Vincenzi, provocou uma situação de barata-voa no Planalto quando um general muy amigo de Augusto Pinochet disse-lhe que a transação de uma hidrelétrica já tinha sido acertada em escalões superiores brasileiros. Quando De Vincenzi narrou o encontro num telegrama oficial e pediu instruções, os hierarcas disseram que nada tinham a ver com a história.
                            Ricardo Ferraço preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado e pediu formalmente a Patriota que explique a história. A ver.

                            MP 608
                            O governo enviou ao Congresso uma medida provisória (608) mexendo com as relações entre a banca e a Receita. Na essência, ela corrige uma anomalia, pela qual os bancos têm que pagar impostos sobre empréstimos antes que eles sejam pagos. Assim como cobrar a um jornal um imposto sobre a tiragem, em vez de fazê-lo sobre os exemplares vendidos. Como todas as legislações do gênero, tem seus cantinhos empoeirados. Há parlamentares lendo o texto arcano da MP, certos de que um de seus dispositivos, prevendo que as despesas da Viúva entrarão no Orçamento do ano que vem, indica que vai sobrar para o Boa Senhora.
                            BARRA PESADA
                            Para que se meça o tamanho da encrenca em que se meteu o papa Francisco. Seu antecessor, Bento 16, jogou a toalha e, para não ser sequestrado pela Cúria, João Paulo 2º não repassava ao secretário de Estado memorandos de algumas de suas audiências privadas. Dava a memória das conversas ao seu secretário particular que mantinha um diário, guardado num cofre. Algumas cartas a ele endereçadas deveriam ser entregues fechadas. O papa Woytila exasperava alguns cardeais ouvindo-os por horas e fazendo o contrário do que lhe sugeriam.

                            EREMILDO, O IDIOTA
                            Eremildo é um idiota e ouviu o ministro Guido Mantega dizer que, se houver "abusos" com os preços de mercadorias que tiveram seus impostos desonerados, o governo poderá suspender os benefícios. O cretino não sabe definir "abusos", mas acha que, nesse caso, os preços subirão ainda mais e ele pagará a conta pela valentia do ministro.

                            UMA CARIDADE PARA FRANCISCO, LEIA SEU LIVRO
                            O papa Francisco precisa de uma ajuda. Leiam seu livro "Sobre el Cielo y la Tierra". (O e-book está à venda na Amazon americana por US$ 6,99, mas, por arte de Asmodeu, está fora da loja eletrônica brasileira.) Tem 215 páginas e saiu no início do ano passado. Trata-se de um longo diálogo com o rabino Abraham Skorka. Coisa inteligentíssima. É impossível lê-lo e sair por aí repetindo rótulos tais como "conservador" ou "homem simples" porque anda de ônibus. A simplicidade do cardeal Bergoglio vai muito além. Ele vê o catolicismo como algo despojado: "Bispos e padres têm que sujar os pés de barro". Uma das suas mais duras críticas (depois das lambadas nos ladrões-milionários) vai para os meios de comunicação que simplificam as agendas, tornando-as irrelevantes ou insolúveis: "Desinformam".
                            Até a noite de quarta feira o signatário não sabia quem era ele. No dia seguinte, não encontrou um só bergogliólogo que mostrasse ter lido o livro de Francisco. Ele é tudo menos um clérigo conservador. (Segundo o fidedigno jornalista Horácio Verbitsky, há 30 anos ele deu uma mãozinha à ditadura, numa época em que a hierarquia católica estava casada com os generais. Bergoglio admitiu que foram cometidos erros genéricos, mas não assumiu responsabilidade pessoal.)
                            Pode ser conservador um cardeal que quer abrir os arquivos do Vaticano para que se estude o Holocausto? Ele é contra o casamento de homossexuais e o aborto, mas isso não é conservadorismo, é a doutrina da igreja. Pílula? Astuciosamente calado. Em diversas ocasiões critica a conduta da igreja, seu regalismo e a promiscuidade com afortunados que fingem fazer caridade. Propõe tolerância zero para os pedófilos e chama o velho truque de transferi-los para outras paróquias de "estupidez".
                            O papa Francisco é um jesuíta severo. Diz que senhoras emperiquitadas, "vestidas, ou desvestidas", em casamentos não vão às igrejas para um ato religioso, mas para exibirem-se. Tabela de preços para cerimônias? "Isso é fazer comércio com o culto." Ao mesmo tempo, reconhece que casais morando juntos antes do matrimônio são um "fato antropológico".
                            Francisco tem um "alertômetro". Evita dar a comunhão a notórios vigaristas e jamais se deixa fotografar com eles.
                            O livro é muito melhor que este breve resumo. Quem lê-lo viverá umas boas duas horas. Não pode ser conservador (seja lá o que isso significa) uma pessoa que diz o seguinte:
                            "O religioso às vezes chama atenção sobre certos pontos da vida privada ou pública porque é o condutor da paróquia. Ele não tem direito de se meter na vida privada dos outros. Se Deus, na criação, correu o risco de nos tornar livres, quem sou eu para me meter?"

                              Suzana Singer - Folha Ombudsman

                              folha de são paulo

                              O papa do fim do mundo
                              A "surpreendente" escolha de Francisco mostra que é inútil tentar adivinhar o resultado de um conclave
                              A Folha gastou todo o seu latim nos 30 dias entre o anúncio da renúncia de Bento 16 e a escolha de seu sucessor. Foram sete manchetes, quatro editoriais, 64 artigos e 13 entrevistas, publicados antes de se saber quem seria o novo papa.
                              A julgar pelo jornal, o Brasil só deve perder em número de teólogos para o Vaticano. Somados os entrevistados, os colunistas e os colaboradores, tivemos a opinião de 47 especialistas sobre a transição na igreja.
                              Nem nos artigos nem nas reportagens apareceu o nome do então cardeal Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco. Só José Simão, que não entrou na contagem dos textos, acertou ao decretar, bem antes do conclave: "Papa argentino não pode!".
                              Zebra total? Terceira via? Essas são as explicações preferidas dos vaticanistas, que incensaram os nomes do brasileiro d. Odilo Scherer e do italiano d. Angelo Scola.
                              A impressão que fica é que tentar adivinhar o resultado de uma eleição única como a do papa é perda de tempo. As especulações sobre os "papáveis" vêm de algumas fontes, sempre as mesmas: os poucos cardeais e seus auxiliares que aceitam falar com jornalistas, em geral, do seu próprio país. As informações podem ser sinceras ou apenas balão de ensaio para testar ou para "queimar" certos candidatos.
                              Para serem consistentes, as previsões teriam que partir de uma enquete com um número razoável de votantes, o que é impossível num colégio que reúne 115 cardeais, procedentes de todas as partes do mundo.
                              "[As apostas] são um jogo que nós, jornalistas, precisamos jogar porque é divertido e é o que as pessoas esperam de nós", definiu Sean-Patrick Lovett, diretor da programação em inglês da rádio Vaticano. Antes de a fumaça branca aparecer, ele acertou ao dizer que, "no final do dia, ficaremos surpresos com o homem que aparecer no balcão".
                              Boa parte das análises tenta prever o futuro a partir do passado. Foi dito que a tradição mostra que, depois de um pontificado curto (Bento 16 ficou apenas oito anos), o escolhido é alguém mais jovem, capaz de permanecer por mais tempo. Errado. Francisco tem 76 anos.
                              Apostou-se que, surpresos com a renúncia e sem um herdeiro indiscutível de Ratzinger, os cardeais prefeririam um nome consagrado. Errado. O arcebispo de Buenos Aires não era uma liderança, mesmo tendo sido, aparentemente, bem votado no conclave de 2005.
                              E, sendo alguém de fora da Europa, o escolhido seria de um país africano (o primeiro papa negro) ou do Brasil (o maior país católico do mundo). Errado. Ganhou o da Argentina.
                              Previu-se que o papa teria que ser capaz de responder aos anseios modernizantes da sociedade. Errado. Bergoglio pode até mostrar-se progressista, mas suas posições sobre casamento gay, aborto e celibato são bem conservadoras.
                              O problema, para a imprensa, é como preencher o vácuo que antecede a escolha do papa, que desta vez foi um período bastante longo. Da morte de João Paulo 2º até a escolha de Ratzinger, passaram-se 17 dias; agora, a transição demorou um mês.
                              Sem notícias diárias, sobraram conjecturas, pensatas e infográficos para explicar os rituais e um amontoado de curiosidades (a família de alfaiates que faz as vestimentas do pontíficie, o clérigo brasileiro que quase morreu em um assalto há 40 anos, o conclave que durou três meses em 1800).
                              As melhores reportagens e artigos publicados foram os que tentaram entender, pela lógica da igreja, o legado de Bento 16 e os desafios que esperam por Francisco.
                              Provavelmente nunca saberemos o que levou ao consenso obtido na capela Sistina. Quando se imagina que, no mundo da comunicação instantânea e do fim da privacidade, nenhum segredo resiste, está aí uma instituição de 2.000 anos para provar que não é bem assim.

                                Antonio Patriota e Leandro Karnal no Tendências/debates

                                folha de são paulo

                                ANTONIO DE AGUIAR PATRIOTA
                                Por um tratado sobre o comércio de armas
                                O Brasil defende a proibição da transferência de armas por Estados para atores não estatais e que haja controle sobre o usuário final
                                A inexistência de mecanismos internacionais que disciplinem o comércio de armas convencionais é fator relevante na intensificação de conflitos internos e da violência em grandes cidades.
                                Ao contrário do que ocorre com as armas de destruição em massa -como nucleares, químicas e bacteriológicas-, não há, atualmente, acordo internacional que discipline o comércio de armas convencionais.
                                O Brasil, junto com ampla maioria dos Estados membros das Nações Unidas, tem trabalhado para que essa lacuna seja suprida. Vamos contribuir para que a conferência final das Nações Unidas para um Tratado sobre o Comércio de Armas (ATT -do inglês, Arms Trade Treaty), a realizar-se em Nova York, a partir de 18 de março, produza resultados concretos e significativos.
                                Estamos envidando esforços para que, ao final da conferência, seja adotado um instrumento que estabeleça parâmetros internacionais comuns a ser respeitados nos processos nacionais de autorização para a exportação de armamentos. Não é algo trivial: se adotado, esse instrumento representará um importante avanço.
                                A adoção do Tratado sobre o Comércio de Armas não significa menor ênfase por parte do Brasil no sentido de trabalhar no contexto da ONU pela eliminação das armas de destruição em massa, que representam a maior ameaça à própria sobrevivência da humanidade. A respeito dessas armas, o Brasil defende que sejam cumpridos com sentido de urgência os compromissos assumidos no plano multilateral, que são essenciais para alcançar o objetivo maior da paz.
                                O significado principal do ATT está em prever ferramentas para a prevenção e para o combate ao tráfico de armas, que tem contribuído para o surgimento de conflitos e incrementado a violência armada em diversas regiões do mundo.
                                O Brasil defende que o tratado preveja expressamente a proibição de transferência de armas por Estados para atores não estatais.
                                É também necessário que "certificados de usuário final" sejam emitidos em todas as transações, atestando que o armamento não será reexportado sem prévia anuência do exportador original.
                                É importante entender que o ATT não tem por objetivo restringir o comércio lícito de armas. Trata-se de iniciativa que visa a aumentar a responsabilidade dos Estados em relação a essas transações, condicionando as exportações de armas convencionais a controles nacionais que obedeçam a padrões mínimos -estabelecidos multilateralmente-, sem criar restrições indevidas às transações.
                                Por restringir o acesso ilegal aos instrumentos de violência, iniciativas como a adoção de um Tratado sobre o Comércio de Armas representam importantes avanços não apenas na proteção das populações civis em situações de conflito, mas também da agenda de prevenção de conflitos internacionais. Precisamos lutar por esse objetivo.
                                A facilidade na obtenção de armas convencionais pelo comércio ilícito multiplica os danos causados por conflitos. E quem sofre as consequências, na maioria das vezes, são civis desarmados, particularmente grupos vulneráveis como crianças e idosos.
                                O Brasil confia em que seja possível adotar, no âmbito das Nações Unidas, um acordo equilibrado e não discriminatório. E que, com isso, seja dado um passo auspicioso em direção a uma ordem internacional mais segura e pacífica.

                                  LEANDRO KARNAL
                                  O último papa
                                  A renúncia de um papa hipnotizou a mídia ocidental. Mas as notícias anteriores indicavam uma igreja em declínio. O que aconteceu?
                                  No apogeu do papado medieval, Inocêncio 3º (século 13) tinha poder de excomungar e depor reis, interditar o paraíso a um país inteiro, convocar cruzadas contra heréticos e islâmicos e liderar concílios que movimentavam toda a geopolítica europeia. Na verdade, Inocêncio fez quase tudo isso. Dono de um poder internacional enorme, o bispo de Roma representava o topo simbólico de uma longa cadeia de mandos.
                                  A julgar pela imprensa, nada mudou depois de 800 anos. A renúncia de um papa e a eleição de outro hipnotizou quase toda mídia ocidental. Mas... as notícias anteriores indicavam uma igreja numericamente em declínio. Havia escândalos sexuais e financeiros por todo lado. Mesmo assim, o conclave de 2013 recebeu atenção ainda maior do que em 2005 ou 1978. O que aconteceu?
                                  No mundo líquido atual, uma instituição com quase 2.000 anos chama atenção. Pompa, hierarquia e pretensão metafísica combinadas são quase insuperáveis. A capilarização da igreja ainda é notável, das paróquias aos orfanatos, especialmente no Brasil. Para o bem e para o mal, a terra de Santa Cruz foi concebida católica. Sua maior cidade, São Paulo, foi batizada pela ordem do atual papa Francisco, os jesuítas.
                                  O conclave de 2013 surpreendeu com um papa argentino e da Companhia de Jesus. Há lições do episódio. Os jornais torciam abertamente por um brasileiro, como o fez a imprensa das Filipinas. Isso mostra o ranço nacionalista.
                                  Mas, esqueceram-se de sondar os eleitores, cuja lógica só pode ser decifrada pelos afrescos de Michelangelo na Capela Sistina. Os "papabili" da imprensa não coincidiram com os dos votos purpurados. Nacionalismo é fato do 19; ontem para a Igreja Católica. A lição deveria ser entendida: esse grupo vê, mas não joga para a torcida, mesmo sendo ainda a maior torcida do planeta.
                                  Segunda lição: a Igreja Católica não está numa crise; ela vive numa crise desde sua origem. Denúncias de pedofilia seriam piores do que o papa Júlio 3º viver em meio a garotos de programa? Escândalos financeiros atuais seriam maiores do que a ousadia de Leão 10º para vender indulgências? O conservadorismo atual seria mais denso do que o do beato Pio 9º, que considerou até a democracia condenável?
                                  Aparentemente, o repertório histórico do papado faz com que seja impossível criar nova virtude ou vício que já não tenha um predecessor mais notável. A igreja vive e sobrevive entre crises. O balanço do barquinho na tempestade do mar da Galileia virou ciclone constante. E "la nave va"... Talvez o niilismo contemporâneo talvez seja atraído por fundamentalismos, ou até os estimule.
                                  Última lição do conclave: a Igreja Católica e o papado despertam emoções polares. Os que já a amavam destacam que o papa pegava transporte público e cozinhava sua comida. Seria humildade, como se canalhas não pudessem estar num metrô ou serem cozinheiros.
                                  Os detratores trouxeram à tona conhecidas denúncias sobre as relações de Bergoglio com a ditadura argentina. Seus inimigos e fãs apenas continuam alimentando o fogo das vaidades e, querendo ou não, mantêm a igreja no lugar que ela mais deseja: no centro da mídia.
                                  Profetas canhestros determinaram que o último pontífice seria o "papa negro". O superior geral dos jesuítas tinha esse título não oficial. O hábito da ordem de Inácio era dessa cor. Um papa jesuíta, e ainda sendo o último da lista de são Malaquias, só pode indicar o fim dos tempos. Os maias estão desacreditados nesse campo.
                                  Cumpre-se uma ironia que não escapará ao humor tupiniquim: a Igreja Católica sobreviveu a tudo, menos a um argentino. Iremos ao apocalipse com esse sorriso nos lábios.
                                  Mas, se o mundo não acabar (como teima em fazê-lo), iremos a novo conclave. Haverá apostas certeiras sobre as chances enormes de um cardeal brasileiro, de um africano e do conhecido arcebispo de Milão... Deve ser melancólico ser eterno.

                                    sábado, 16 de março de 2013

                                    Entrevista D. Cláudio Hummes

                                    folha de são paulo

                                    A igreja não funciona mais, é preciso que seja reformada
                                    Cardeal brasileiro mais próximo do papa, ele defende uma ampla mudança na estrutura católica, incluindo missas
                                    FABIANO MAISONNAVEENVIADO ESPECIAL A ROMAApontado como o cardeal brasileiro mais próximo do novo papa, dom Cláudio Hummes, 78, diz que a igreja "não funciona" do jeito que está e pede mudanças em toda sua estrutura.
                                    Na sua apresentação ao mundo, Francisco convidou dom Cláudio, arcebispo emérito de São Paulo, a ficar do seu lado no balcão da basílica de São Pedro.
                                    Emocionado com o convite e com a homenagem ao fundador de sua ordem, o franciscano d. Cláudio disse à Folha que a escolha do nome é por si só uma encíclica.
                                    O ex-bispo de Santo André disse ainda que as acusações de que o novo papa colaborou com a ditadura militar argentina são "grande equívoco, senão uma falsificação".
                                    Folha O sr. foi convidado pelo papa Francisco a estar ao seu lado na primeira aparição. Como é a relação entre vocês?
                                    D.Cláudio Hummes - Nós nos conhecemos de tantas oportunidades, porque fui arcebispo de São Paulo, e ele, arcebispo de Buenos Aires. Mas sobretudo foi em Aparecida (SP) onde estivemos mais tempo trabalhando juntos, na 5ª Conferência Latino-Americana, em 2007.
                                    Existia ali a comissão da redação, a mais importante porque ali que se formulava o documento para depois ser votado. Ele era o presidente, e eu, um dos membros.
                                    Admirei muito a sua sabedoria, serenidade, santidade divina, espiritualidade. Muito lúcido e muito pastoral, grande zelo missionário, de querer que a igreja seja mais evangelizadora, mais aberta.
                                    Como foi o convite para estar no balcão?
                                    Quando se começou a organizar a procissão da Capela Sistina para o balcão na praça, ele chamou o cardeal Vallini, que faz as vezes do bispo de Roma, o vigário da cidade, e me chamou também. Disse: "D.Cláudio, vem você também, fica comigo neste momento".
                                    Disse até: "Busca o teu barrete [chapéu eclesiástico]", bem informalmente. Fui lá buscar o meu barrete e estava todo feliz....
                                    Porque não é o costume, quem vai junto são os cerimonários, nunca tem cardeais com o papa, eles estão nos outros balcões.
                                    E o fato de que ele nos convidou acabou rompendo um monte de rituais. Mas foi realmente, para mim, muito gratificante. E também pelo fato de ele ter escolhido o nome de Francisco.
                                    Eu sou franciscano, então isso me envolvia muito pessoalmente.
                                    O papa recusou a limusine, foi pagar a conta do hotel...
                                    São gestos simples, mas que mostram quem ele é e como ele vê as coisas. A minha maravilha foi que esses gestos foram compreendidos pelo povo simples e pela mídia. A mídia também interpretou esplendidamente, entendeu as mensagens que o papa queria dizer.
                                    Qual é o significado de ter um papa de fora da Europa depois de mais de mil anos e além disso latino-americano?
                                    Os outros papas que não foram exatamente europeus vinham da região do Mediterrâneo. Nesse sentido, era a Europa da época, era uma grande realidade geopolítica.
                                    Mas o fato de que hoje venha um papa de fora da Europa tem um significado muito grande porque mostra o que a igreja sempre tem dito: a igreja é universal, para a humanidade. Não é para a Europa.
                                    Ter um papa é o sinal maior. É o gesto de dizer: o papa pode vir de qualquer parte do mundo.
                                    Também acho importante que tenha vindo da periferia ainda pobre, emergente. Isso é uma confirmação para todos os católicos de lá: "Temos um papa que vem daqui".
                                    São Francisco também é lembrado pela missão de reformar a igreja como um todo. A escolha do nome também tem essa abrangência?
                                    Certamente, para o papa, o nome é todo esse programa. Hoje, a igreja precisa, de fato, de uma reforma em todas as suas estruturas. Organizar a vida da igreja, a Cúria Romana, de que tanto se falou e que precisa urgente e estruturalmente ser reformada, isso é pacífico entre nós.
                                    Será uma obra gigantesca. Não porque seja uma estrutura gigantesca, mas por um mundo de dificuldades que há dentro de uma estrutura como essa, que foi crescendo nos últimos séculos.
                                    Alguém disse já que a escolha do nome Francisco já é uma encíclica [mensagens do papa à igreja], não precisa nem escrever. Isso é muito bonito, é muito promissor.
                                    Em que sentido a reforma é necessária?
                                    Não é só da Cúria, são muitas outras coisas: o nosso jeito de fazer missa, de fazer evangelização, essa nova evangelização precisa de novos métodos. O papa falou no encontro com os cardeais sobre novos métodos.
                                    Mas se falou sobretudo da Cúria Romana, que precisa ser reforçada estruturalmente. É muito grande, mas tudo isso precisa de um estudo, a gente não tem muitas coordenadas.
                                    Muitos dizem que é grande demais, que foi feito um puxadinho aqui, um puxadinho lá, mais uma sala aqui, mais uma comissão lá, mas essa aqui não tem suficiente prestígio.... Essas coisas todas que acontecem numa estrutura dessas.
                                    A igreja não funciona mais. Toda essa questão que aconteceu ultimamente mostra como ela não funciona. E depois, uma vez feito esse novo desenho, você tem de procurar as pessoas adaptadas para ocuparem esses cargos, esses serviços.
                                    Reza a lenda de que o papa Francisco não gosta de vir a Roma, que sua formação foi longe daqui. Isso contribuiu para a sua escolha?
                                    Não sei se contribui para a sua escolha, mas contribui agora, que ele é papa, a ser mais independente, a ser uma visão mais objetiva. É muito diferente ver um jogo da arquibancada e ver um jogo jogando futebol.

                                      sexta-feira, 15 de março de 2013

                                      Relação tensa de Cristina com o novo papa tem raízes antigas

                                      folha de são paulo

                                      ANÁLISE
                                      SYLVIA COLOMBONAS ILHAS MALVINASA festa nacional argentina ocorre em 25 de maio, celebrando o início do processo de independência da Argentina com relação à Espanha.
                                      Até a gestão do presidente Néstor Kirchner (2003-2007), era todos os anos comemorada com um ato religioso promovido conjuntamente pelo governo e pela igreja, sempre na Catedral Metropolitana de Buenos Aires.
                                      Desde 2005, essa tradição se quebrou. Enquanto Jorge Bergoglio abençoava fiéis na capital nacional, Néstor, e depois sua mulher, Cristina, davam sua mensagem à nação a partir de uma grande cidade de uma das províncias. Era a melhor imagem do afastamento entre o kirchnerismo e a igreja.
                                      Os problemas têm uma raiz muito antes desses personagens entrarem no cenário. Nos anos 1950, pouco antes do golpe que pôs fim ao governo de Juan Domingo Perón, os peronistas colocaram fogo em várias igrejas de Buenos Aires. Os religiosos mais conservadores, então, passaram a apoiar a solução militar, posição que repetiriam durante a nova ditadura (1976-1983), e a opor-se firmemente aos peronistas.
                                      Bergoglio abriu seu próprio espaço nessa disputa. Em razão de sua ligação com os padres terceiro-mundistas, associou-se com o peronismo de direita, opositor ao kirchnerismo hoje (que seria o peronismo de esquerda). Ao mesmo tempo, colocou-se numa posição conciliadora com o governo militar nos anos 70.
                                      Desde então, costura apoios entre a esquerda e a direita por meio de uma complexa rede de influências das quais participam ONGs, ordens e associações religiosas que o sustentam.
                                      Com Néstor, os problemas começaram logo no início de sua gestão. Bergoglio assumiu bandeiras abandonadas pelos partidos tradicionais, que caíram em descrédito depois da crise de 2001.
                                      Passou a pedir soluções ao governo para a prostituição, o trabalho escravo nas grandes fazendas e o narcotráfico nas favelas.
                                      Disse ao presidente que essas eram as verdadeiras questões de direitos humanos com as quais deveria preocupar-se, criticando-o indiretamente por promover tantos julgamentos de militares envolvidos na repressão dos anos 70.
                                      Kirchner, então, usou esse argumento para trazer à tona as acusações de que teria encoberto crimes da ditadura. Bergoglio sempre as negou.
                                      O atual papa marcou suas diferenças com Cristina a partir de acusações de ONGs e grupos religiosos.
                                      Foi o caso da denúncia da existência de prostíbulos em Río Gallegos, território político dos Kirchner, em 2009, ou a de que o juiz kirchnerista Eugenio Zaffaroni era dono de apartamentos usados como bordeis, em 2011.
                                      Bergoglio, ainda, mostrou apoio a opositores de Cristina, como o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, e o sindicalista Hugo Moyano.
                                      Ao enviar sua saudação ao novo papa, Cristina não buscava simples "carona" no sucesso do agora Francisco. Trata-se de uma movimentação política que marca a relação entre Igreja e Estado.