Estado de Minas: 11/08/2013
Acontece que estou olhando as nuvens.
Enquanto você viu e sofreu a tempestade de notícias estampadas neste jornal, a fala dos políticos, fofocas, crimes, preços de automóveis e apartamentos, agora chegou a esta crônica e encontrou uma pessoa que está olhando as nuvens.
Venha ver as nuvens comigo. Você olha de onde puder. Vá até a janela. Elas estão esperando. Se está no clube, levante os olhos para o céu. Se estiver doente, deitado, imagine, pense nas nuvens de ontem.
Estou aqui nas docas do antigo cais de Belém. E olho as nuvens. Este talvez seja o porto restaurado mais bonito que conheço, mais bonito que o de Buenos Aires ou de Nova York. Poderia descrevê-lo, mas estou fixado nas nuvens.
Acho que olhar as nuvens é uma forma de arte. A pessoa está ali fazendo nada, e, no entanto, é neste nada que a coisa acontece. Poderia dizer que olho o mar, ou melhor, o vasto rio à minha frente. Na Amazônia, muitos rios têm vocação de mar.
Estou olhando fixamente as nuvens, como fazia quando era menino. Sentado na calçada, atravessando os morros ou vendo-as ao entardecer, percebia que, de repente, tinham rosto humano. Que se moviam como animais e como fantasmas, elas se formavam e se deformavam. As nuvens iam se desfazendo e se refazendo em novas silhuetas. Espantosas.
Pensei nesta banalidade: as nuvens estão ali se desenhando e se precipitando desde os primeiros instantes imemoriais da criação.
Júlio César viu nuvens. O camponês que habitava seu vasto império via nuvens.
Sócrates viu nuvens.
Os incas e maias, os egípcios e sumérios viram as nuvens. Viram e desapareceram como nuvens.
Um político mineiro (tinha que ser Minas!) dizia que política é como nuvem: a gente olha, vê uma coisa, torna a olhar e já mudou tudo. Quer dizer, é assim a opinião dos políticos.
Reparem. Até ontem, o Brasil era uma coisa, hoje é outra. Antes dos idos de junho, éramos uma ilha de prosperidade. Moeda forte, balança comercial positiva, emprego e casa para os pobres. Estávamos até salvando a economia americana, mandando turistas para Nova York. Éramos tão ricos e senhores do futuro que perdoamos as dívidas dos países africanos, coitados!
A gente olhava a Europa com pena, a Espanha, a Grécia. Enfim, éramos, finalmente, o país do futuro. Sim, o futuro havia chegado.
De repente, as nuvens mudaram. Mudaram de forma espantosa, barulhenta, quebrando vitrines e vidros dos palácios. Que nuvens são essas? Os jornais ficaram nebulosos, o horizonte ficou preto. Eu, que sempre amei olhar as nuvens, parei de ler jornais. Esperando a tempestade passar.
Penso na teoria do caos, criada nos anos 1970 a partir da formação das nuvens. Portanto, não é só o político, não é só o poeta acusado de ser nefelibata (aquele que vive no mundo das nuvens). A nuvem, minha gente, é coisa séria. Ainda outro dia, vi um documentário na TV sobre elas. E uma das questões era: quanto pesa a nuvem? A gente pensa que são como algodão. Não são. Têm peso, densidade. Muitas deixam cair tempestades de pedras.
Por isso me dei conta de uma coisa fantástica: as nuvens têm história. Exatamente como os ventos. Há mais de 30 anos, movido por esse espanto, escrevi uma crônica sobre a história natural dos ventos. Revelo que só descobri os ventos quando vim morar à beira-mar e vi as diferenças entre o sudoeste e o nordeste e aprendi o que é a lestada. Para mim, antes só havia brisa, vento e ventania.
E agora penso na história natural das nuvens.
Alguém vai dizer: “Impossível! Você vive nas nuvens! Só o ser humano tem história!”. E eu digo: temos tanta história quanto as nuvens. A diferença é que elas não são arrogantes. Passam por modificações e não insistem em permanecer. Vejam as multidões. Pensamos que as multidões fazem história. Engano: parecem-se com nuvens: formam-se, deformam-se e desaparecem nas praças do tempo.
As nuvens não têm pretensão. Deixam textos que são nuvens. Deixam palavras que são nuvens. E as nuvens me ensinam uma coisa rara: fecundantes, vivem se metamorfoseando, e, quando iradas, desabam sobre nós numa tempestade de pedras.
>> >> www.affonsors@uol.com.br
Enquanto você viu e sofreu a tempestade de notícias estampadas neste jornal, a fala dos políticos, fofocas, crimes, preços de automóveis e apartamentos, agora chegou a esta crônica e encontrou uma pessoa que está olhando as nuvens.
Venha ver as nuvens comigo. Você olha de onde puder. Vá até a janela. Elas estão esperando. Se está no clube, levante os olhos para o céu. Se estiver doente, deitado, imagine, pense nas nuvens de ontem.
Estou aqui nas docas do antigo cais de Belém. E olho as nuvens. Este talvez seja o porto restaurado mais bonito que conheço, mais bonito que o de Buenos Aires ou de Nova York. Poderia descrevê-lo, mas estou fixado nas nuvens.
Acho que olhar as nuvens é uma forma de arte. A pessoa está ali fazendo nada, e, no entanto, é neste nada que a coisa acontece. Poderia dizer que olho o mar, ou melhor, o vasto rio à minha frente. Na Amazônia, muitos rios têm vocação de mar.
Estou olhando fixamente as nuvens, como fazia quando era menino. Sentado na calçada, atravessando os morros ou vendo-as ao entardecer, percebia que, de repente, tinham rosto humano. Que se moviam como animais e como fantasmas, elas se formavam e se deformavam. As nuvens iam se desfazendo e se refazendo em novas silhuetas. Espantosas.
Pensei nesta banalidade: as nuvens estão ali se desenhando e se precipitando desde os primeiros instantes imemoriais da criação.
Júlio César viu nuvens. O camponês que habitava seu vasto império via nuvens.
Sócrates viu nuvens.
Os incas e maias, os egípcios e sumérios viram as nuvens. Viram e desapareceram como nuvens.
Um político mineiro (tinha que ser Minas!) dizia que política é como nuvem: a gente olha, vê uma coisa, torna a olhar e já mudou tudo. Quer dizer, é assim a opinião dos políticos.
Reparem. Até ontem, o Brasil era uma coisa, hoje é outra. Antes dos idos de junho, éramos uma ilha de prosperidade. Moeda forte, balança comercial positiva, emprego e casa para os pobres. Estávamos até salvando a economia americana, mandando turistas para Nova York. Éramos tão ricos e senhores do futuro que perdoamos as dívidas dos países africanos, coitados!
A gente olhava a Europa com pena, a Espanha, a Grécia. Enfim, éramos, finalmente, o país do futuro. Sim, o futuro havia chegado.
De repente, as nuvens mudaram. Mudaram de forma espantosa, barulhenta, quebrando vitrines e vidros dos palácios. Que nuvens são essas? Os jornais ficaram nebulosos, o horizonte ficou preto. Eu, que sempre amei olhar as nuvens, parei de ler jornais. Esperando a tempestade passar.
Penso na teoria do caos, criada nos anos 1970 a partir da formação das nuvens. Portanto, não é só o político, não é só o poeta acusado de ser nefelibata (aquele que vive no mundo das nuvens). A nuvem, minha gente, é coisa séria. Ainda outro dia, vi um documentário na TV sobre elas. E uma das questões era: quanto pesa a nuvem? A gente pensa que são como algodão. Não são. Têm peso, densidade. Muitas deixam cair tempestades de pedras.
Por isso me dei conta de uma coisa fantástica: as nuvens têm história. Exatamente como os ventos. Há mais de 30 anos, movido por esse espanto, escrevi uma crônica sobre a história natural dos ventos. Revelo que só descobri os ventos quando vim morar à beira-mar e vi as diferenças entre o sudoeste e o nordeste e aprendi o que é a lestada. Para mim, antes só havia brisa, vento e ventania.
E agora penso na história natural das nuvens.
Alguém vai dizer: “Impossível! Você vive nas nuvens! Só o ser humano tem história!”. E eu digo: temos tanta história quanto as nuvens. A diferença é que elas não são arrogantes. Passam por modificações e não insistem em permanecer. Vejam as multidões. Pensamos que as multidões fazem história. Engano: parecem-se com nuvens: formam-se, deformam-se e desaparecem nas praças do tempo.
As nuvens não têm pretensão. Deixam textos que são nuvens. Deixam palavras que são nuvens. E as nuvens me ensinam uma coisa rara: fecundantes, vivem se metamorfoseando, e, quando iradas, desabam sobre nós numa tempestade de pedras.
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