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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Raul Juste Lores

folha de são paulo
Kerry tenta aliviar mal-estar com Brasil
A dois meses de visita de Dilma aos EUA, secretário de Estado chega amanhã e deve discutir espionagem da NSA
Kerry, que já se referiu duas vezes à América Latina como 'quintal', tem de conter incômodo do Brasil com vigilância
RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTONAmanhã, em sua primeira visita como secretário de Estado americano ao Brasil, John Kerry vai tentar melhorar o clima entre os dois governos às vésperas da visita de Estado que a presidente Dilma Rousseff fará aos EUA, em outubro.
Para diplomatas dos dois países ouvidos pela Folha, a visita não vai acontecer "em um bom momento". E boa parte dos acordos e anúncios que poderiam ser feitos em Washington está "travada".
Kerry, que chamou duas vezes a América Latina de "quintal" durante a sabatina no Senado americano que o confirmou no cargo, precisa reduzir os estragos provocados pelas denúncias de Edward Snowden de que os americanos estão espionando milhões de pessoas, governos e empresas pelo mundo, incluindo o Brasil.
O mal-estar levanta diversas questões sobre a visita de Dilma a Washington, com honrarias militares e um jantar de gala.
Se Dilma está tão preocupada com a espionagem dos americanos, aceitará ficar hospedada na Blair House, o palacete em frente à Casa Branca que costuma hospedar chefes de Estado convidados pelos EUA?
Os preparativos para a visita estão atrasados dos dois lados. O primeiro rascunho de comunicado conjunto que Dilma e Obama apresentarão já atrasou mais de um mês.
Desde maio, o governo americano está esperando saber que tipo de música a presidente Dilma gosta para montar o cardápio do jantar de gala na Casa Branca. Após os protestos de junho, quem tem coragem de incomodar a presidente com um assunto desses?', lamenta um diplomata brasileiro.
Os protestos de junho levantaram muitas dúvidas entre os funcionários do governo americano consultados pela Folha.
Praticamente todos perguntaram ao correspondente se Dilma pode não ser reeleita no pleito do ano que vem. Também questionam se o crescimento vertiginoso da economia brasileira "já virou história".
A última vez que um presidente do Brasil foi convidado a uma "visita de Estado" aos EUA foi Fernando Henrique Cardoso, em 1995. No mesmo período, chefes de Estado da China (1997 e 2011) e da Índia (2005 e 2009) foram recebidos duas vezes com a maior gala da Casa Branca.
Kerry, que foi derrotado por George W. Bush em 2004, conheceu sua mulher, a bilionária americana, filha de portugueses, Teresa Heinz, no Brasil, durante a Eco 92, no Rio de Janeiro.

    quarta-feira, 7 de agosto de 2013

    O que quer Jeff Bezos? - Raul Juste Lores

    folha de são paulo
    Dono da gigante on-line Amazon intriga analistas com suas pretensões para o "Washington Post", um dos jornais mais tradicionais dos EUA
    RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTON
    "Abem in vignos, tam et; nos, cortus, more fac videssa noverum ocum pesici tasdam it vitermis consunum vit, venimpe rurore victatimum ese tam nis, coenati maionsultus. Cervilica me diciam vit L. Ad mente ca; inam nox mantea dius cut viris
    A lista de especulações dos motivos que levaram o bilionário criador da Amazon, Jeff Bezos, 49, a comprar o centenário jornal "Washington Post" não para de crescer.
    Para especialistas em mídia, Bezos quer entender como funciona a distribuição de informação "curta" pela rede, agora que já domina a de livros e de varejo em geral.
    Outros opinam que ele gostaria de usar os editoriais do "Post" para ser ouvido na capital americana --e promover leis que abrangem de impostos a monopólios na internet.
    E há quem diga que é apenas um projeto pessoal, mais vaidade do que negócios.
    Bezos comprou na segunda o "Washington Post" por US$ 250 milhões.
    O debate não se limita a cifrões. Há 226 anos, Thomas Jefferson, um dos pais da Constituição americana, afirmou que "entre um país com governo e sem jornais, e um sem governo, mas com jornais, prefiro o segundo".
    Não são poucos que se questionam se Bezos bancaria a independência que levou a lendária editora Katharine Graham a publicar o escândalo de Watergate, que derrubou o presidente Richard Nixon, em 1974.
    O colunista da revista "The Atlantic" James Fallows, amigo da família Graham, escreve que jornalismo sério é "quase inviável como negócio", por ser muito caro.
    TABLETS
    Em uma entrevista publicada no jornal alemão "Berliner Zeitung" no ano passado, Bezos disse que, "em 20 anos, os jornais impressos não terão utilidade".
    "Mas descobrimos que as pessoas pagam por suas assinaturas no tablet. Logo, todos os lares terão tablets. Isso vai fortalecer os jornais."
    Para o consultor de mídia Ken Doctor, os jornais saíram das bolsas para as mãos de "poucos bilionários, que têm apetite por papéis sociais e cívicos, além dos financeiros".
    Já Fallows acha que o investimento que Bezos está fazendo é modesto se comparado "ao que fizeram em uma era anterior os Rockfellers, os Carnegies e os Fords ao criar universidades e fundações" e que será preciso mais para revitalizar o jornal.
    Otimista, ele defende que "os maiores beneficiários desses anos dourados reinvistam na infraestrutura da nossa inteligência pública".
    O escrutínio sobre as posições políticas de Bezos apenas começou. Sabe-se que ele fez mais doações a candidatos democratas do que a republicanos e que fez doações para a fundação que publica a revista "Reason" do movimento libertário americano --defensor de uma ação mínima de governo e Estado.
    Na semana passada, o presidente Barack Obama fez um discurso sobre empregos em um dos depósitos da Amazon e concedeu uma entrevista a ser lançada no Kindle, o leitor eletrônico da marca.
    Bezos é visto como grande criador de empregos (tem 92 mil funcionários), embora as condições de trabalho na Amazon sejam contestadas. Há críticas à temperatura alta e às enormes distâncias às quais os empregados são submetidos em seus gigantescos galpões de armazenagem.
    Bezos pode dar cinco rumos ao "Post"
    folha.com/no132264
      VENDA
      Buffett tem ganho com a operação
      Principal acionista do grupo The Washington Post Company, a holding Berkshire Hathaway (do bilionário americano Warren Buffett, terceiro homem mais rico do mundo) teve ganho com a venda do jornal para Jeff Bezos, fundador da Amazon. As ações do grupo de mídia subiram 4,3% ontem, para US$ 593, o maior valor desde setembro de 2008, no auge da crise global.

        domingo, 4 de agosto de 2013

        Raul Juste Lores

        folha de são paulo
        Ilusões perdidas
        O livro que sacudiu os arredores da Casa Branca
        RAUL JUSTE LORESRESUMO O jornalista Mark Leibovich escandalizou Washington com seu retrato debochado dos bastidores da confraria entre políticos, lobistas e jornalistas na capital americana. Espécie de balanço da era Obama, "This Town" narra inúmeros casos de promiscuidade entre o governo e empresas do setor privado.
        Em 1975 Truman Capote publicou na revista "Esquire" os primeiros capítulos de seu romance de fundo autobiográfico "Preces Atendidas". Em chave satírica, o autor de "Bonequinha de Luxo" revelou adultérios, brigas e facetas nada elegantes de algumas de suas amigas socialites. De nada adiantou escondê-las sob pseudônimos: durante anos, nova-iorquinos discutiram o "quem-é-quem" do livro. Capote foi defenestrado da alta sociedade que o acolhera e morreu, em 1984, sem concluí-lo.
        Quase 40 anos depois, mas longe do glamour de Manhattan, Washington vive dias de escândalo e repete a lamúria: "Fomos traídos por um dos nossos". O traidor, no caso é o jornalista Mark Leibovich. E a prova do crime é o livro "This Town - Two Parties and a Funeral" [Penguin, 386 págs., R$ 88,70; e-book: R$ 41,29 ], em que o correspondente da revista dominical do "New York Times" na capital americana descreve de velórios no Kennedy Center ao casamento em Las Vegas de um colega famoso da rede Fox News (com o bolo em formato de Casa Branca).
        Não faltam os diversos jantares da Associação de Correspondentes da Casa Branca, o equivalente local da noite de premiação do Oscar. Celebridades, políticos e empresários desfilam no tapete vermelho da cidade conhecida como "a Hollywood de gente feia".
        Diferentemente de Capote, porém, Leibovich revela os nomes de todos os envolvidos. O retrato que resulta é muito mais debochado do que aquele pintado na série política "House of Cards", sucesso do Netflix. Muita gente aposta, fantasiosamente, que o autor será estapeado se algum dia voltar às festas estreladas que frequentava.
        Os bastidores da confraria de políticos, lobistas e jornalistas na cidade --ao redor da qual se reúnem os condados mais ricos do país e que tem uma taxa de desemprego de 5,7% (Nova York tem 9,6%, Los Angeles, 10%, e a Chicago de Obama, 9,3%)-- contrastam com a economia americana e sua recuperação um tanto sem fôlego.
        ERA OBAMA "This Town" também pode ser lido como o balanço das ilusões perdidas da era Obama, já que a história começa em 2008, em plena campanha presidencial que levou o primeiro presidente negro à Casa Branca. Obama e seu círculo mais próximo, políticos de Chicago, não escondiam seu desprezo pela promiscuidade da capital entre negócios e políticos, seu círculo de adulação e seu provincianismo. O então candidato tinha uma regra pétrea: nenhum lobista seria indicado a cargos no primeiro escalão do governo. Com seu idealismo e sua sobriedade, a equipe do democrata pretendia mudar Washington. Mas a capital riu por último.
        Em 2008, os bancos de Wall Street entraram em colapso. Andrea Mitchell, apresentadora da rede de notícias MSNBC, continuava a cobrir a crise econômica e lutou o quanto pôde para continuar fazendo isso -- apesar de ser mulher de Alan Greenspan, o ex-presidente do Fed, o Banco Central Americano, entre 1987 e 2006.
        Conflitos de interesse multiplicam-se pelo livro. A tragédia ambiental do derramamento de petróleo no Golfo do México, por exemplo, é narrada como um saboroso negócio para Washington.
        Para consertar sua imagem após a tragédia ambiental ocorrida em 2010, a BP, antiga British Petroleum, contratou grandes lobistas republicanos e democratas, além de um porta-voz do ex-vice-presidente Dick Cheney, e fez uma campanha de US$ 50 milhões na TV --com os serviços de dois "especialistas em comunicação", o republicano Alex Castellanos e a democrata Hillary Rosen. Nas horas vagas, Castellanos e Rosen são comentaristas políticos da CNN.
        Quem virou diretor de Comunicações da BP nos EUA, então, foi Geoff Morell, ex-correspondente na Casa Branca da rede de TV ABC, e que serviu dois governos (Bush e Obama) como porta-voz do secretário de Defesa. Os contratos da BP com o Pentágono, mesmo após o desastre, deram um salto: de US$ 1 bilhão em 2010 para US$ 2,51 bilhões em 2012.
        Na mesma temporada, um assessor do Departamento de Tesouro foi para o banco Goldman Sachs, e Peter Orszag, diretor do escritório de Administração e Orçamento da Casa Branca, para o Citigroup, outra das instituições bancárias que receberam resgates bilionários e continuaram a distribuir bônus generosos enquanto o país afundava.
        Segundo o livro, um dos melhores empregos na cidade é o de ex-diretor de Comunicações da Casa Branca. Nos dois anos desde que deixou o cargo de porta-voz de Obama, Robert Gibbs amealhou US$ 2 milhões em palestras e virou comentarista da MSNBC, canal que é o equivalente democrata do republicano Fox News.
        Anita Dunn ficou apenas seis meses no mesmo cargo, em 2009, primeiro ano do governo Obama. Ainda que tenha ajudado a primeira-dama a lançar uma campanha contra a obesidade infantil, ela tornou-se lobista da indústria que combatia: começou a trabalhar para empresas alimentícias que lutam contra qualquer restrição à publicidade de fast-food para crianças. Além disso, também virou comentarista da MSNBC.
        Secretário de imprensa de Bill Clinton durante o escândalo com a estagiária Monica Lewinsky, que quase custou ao presidente seu cargo em 1998, Joe Lockhart formou, com dois ex-assessores de Al Gore, uma firma "suprapartidária" de "negócios integrados" de lobby e "comunicação estratégica" --com faturamento de US$ 60 milhões ao ano-- e que atuava em Washington defendendo os interesses da News Corp., de Rupert Murdoch. Mais tarde, deixou o escritório para ser chefe de comunicação corporativa do Facebook, na Califórnia, entre 2011 e 2012.
        Mas o destaque máximo entre as trocas de opinião a soldo vai para o ex-deputado Richard Gephardt, democrata que representou por 28 anos um distrito proletário do Estado mais pobre dos EUA, Missouri, como grande defensor dos sindicatos.
        Após deixar o Congresso, em 2005, transformou-se consultor sênior de um escritório de gerenciamento de crises e, dois anos mais tarde, abriu seu próprio escritório, com o qual, em 2010, faturaria US$ 6,59 milhões. Seus clientes incluíam o Goldman Sachs, a Boeing e Visa. O tema das consultorias prestadas era, invariavelmente, como derrotar demandas sindicais e protestos trabalhistas.
        Foi também Gephardt quem, como deputado, apoiou resolução da Câmara para condenar o genocídio armênio de 1915, mas não teve problemas em, como lobista a serviço do governo turco, se transformar em ferrenho opositor da resolução, em troca de US$ 70 mil ao mês.
        Os casos relatados exemplificam um movimento hoje comum. Em 1974, apenas 3% dos deputados largavam o Congresso para virar lobistas. Atualmente, esse é o destino de 50% dos ex-senadores e 42% dos ex-deputados americanos. A maioria permanece em Washington e abandona de vez seus Estados de origem.
        O livro de Leibovich não poupa os colegas de profissão. O jornalismo da capital não sai nada bem do painel de "This Town". "A patota não mudou", ele escreve. O autor do livro assim descreve a situação dos repórteres de política, que moram na mesma cidade, encontram-se com as mesmas pessoas, usam as mesmas fontes e pertencem aos mesmos grupos de origem. "Eles chegam a suas perguntas de forma tão independente quanto uma classe de garotos da sétima série partindo do mesmo texto de geometria. Eles não precisam colar para chegar à mesma resposta." Watergate virou história.
        Nem tudo no livro, porém, são denúncias. Muitas passagens lembram o antigo colunismo social, que se encaixa bem no ambiente provinciano de Washington. Uma das regras para a sobrevivência na cidade é o "name dropping": a cada frase, solta-se o nome de "amigos do peito" famosos.
        "A principal identidade de Tedd McAuliffe", ex-presidente do Partido Democrata e atual candidato a governador de Virginia, exemplifica Leibovich, é "ser amigo de Bill Clinton". "Privá-lo de usar as palavras Bill Clinton' seria como privar um matemático de números", escreve no livro.
        Se alguém se salva (ou, mais que isso, se sai muito bem) neste "House of Cards" literário é Hillary Clinton. Leibovich reuniu desde histórias sobre seus instintos maternais para com funcionários gripados no Departamento de Estado até uma série de piadas comparando a eterna candidata à Casa Branca com o homem que a derrotou nas primárias democratas: ao repetir que Obama não tinha colhões para dirigir Washington, o ex-marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, dizia que "se Hillary desse uma de suas bolas ao Obama, ele finalmente teria duas".
        E ainda traz um mantra favorito de Hillary, atribuído a Eleonor Roosevelt (outra primeira-dama lendária e ambiciosa como ela): "Mulheres na política precisam desenvolver uma pele tão dura quanto o traseiro de um rinoceronte". Ao poupar a possível futura ocupante da presidência, Leibovich se demonstra menos kamikaze que Truman Capote --talvez por ser parte integrante de "This Town", a Brasília americana.

          segunda-feira, 29 de julho de 2013

          Raul Juste Lores

          folha de são paulo
          Nos EUA, 'clones' de séries amargam vida curta
          'Smash', produzida por Spielberg, tentou sem sucesso surfar na onda da musical 'Glee'
          RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTONSteven Spielberg como produtor e dono da ideia original, um orçamento de superprodução de US$ 4 milhões por episódio e Anjelica Houston e Debra Messing (de "Will e Grace") no elenco.
          A série "Smash" tinha tudo para dar certo, mas virou um grande fracasso na competitiva TV americana, em que os canais abertos, menos afeitos a riscos do que os pagos, reproduzem fenômeno já visto no cinema comercial: o lançamento (invariavelmente malsucedido) de derivados de um único sucesso.
          "Smash" quis ser o "Glee" adulto. Vendeu-se como uma série sobre o nascimento de estrelas da Broadway, com números musicais inspirados na música pop.
          Depois da audiência decepcionante da primeira temporada, Spielberg trocou produtores, roteiristas e parte do elenco (escalando até a vencedora do Oscar Jennifer Hudson), além de tentar imitar o sucesso "Girls" --o novo musical da trupe era ensaiado no Brooklyn, com "hipsters" de butique. Os poucos espectadores que tinham restado trocaram de canal. (Essa segunda leva é exibida atualmente no Brasil às terças, no Universal.)
          O fenômeno se repetiu com "The New Normal", série sobre um casal gay que contrata uma barriga de aluguel para ter um filho (versão sem graça do sucesso "Modern Family") e "1600 Penn", comédia de risos amarelos sobre a vida na Casa Branca, que casava "Family" e bastidores de Washington, à la "Veep".
          Nenhuma das duas terá um segundo ano. Séries com vampiros e mortos-vivos que tentam pegar carona em sucessos como "True Blood" e "The Walking Dead" tampouco convenceram.
          NASCE UMA ESTRELA
          "Smash" até parte de uma boa premissa: a criação de um musical contando a vida de Marilyn Monroe (1926-1962). Ao mostrar a seleção da atriz que dará vida à mítica protagonista, radiografa o surgimento de uma diva --as inseguranças, trapaças, assédios e a bajulação que rondam uma nova estrela.
          Com atores vindos da Broadway, recebeu ótimas críticas nos primeiros episódios e teve bom ibope. Mas diversas subtramas novelescas, com adultos infantilizados --especialidade de Spielberg--, acabaram tirando o foco do que interessava. O público pediu o ingresso de volta.
          Quando a Folha visitou as filmagens em Nova York, Messing não disfarçava a frustração, e a grande Huston, pouco diva e comemorando a mudança para a cidade depois de anos na Califórnia, perguntava ao repórter se ele queria comer algo.
          Se tivesse chegado à terceira temporada, talvez "Smash" fosse transplantada para Washington, cenário dos atuais sucessos "House of Cards" e "Scandal", o que nos obrigaria a espiar deputados e lobistas sapateando. Por sorte, não será necessário.

            segunda-feira, 22 de julho de 2013

            Cultura do carro nos EUA dá marcha a ré - Raul Juste Lores

            folha de são paulo
            Total de jovens que não dirigem no país dobrou em 30 anos; ciclovias e transporte público recebem investimentos
            Nova economia, além de concentrar emprego nas cidades, fez carro perder seu status de objeto de desejo, dizem estudos
            DE WASHINGTONDos jovens americanos entre 20 e 24 anos de idade, 20% não têm carteira de habilitação; 40% dos que têm 18 anos tampouco. Nos dois casos, o número de jovens que não dirigem no país das autoestradas dobrou em 30 anos.
            Desde 2001, o total de quilômetros dirigidos pelos americanos está em declínio, muito antes da crise de 2008.
            Assim como Detroit --berço das montadoras, cuja prefeitura entrou em concordata e que encolheu de 1,8 milhão de habitantes nos anos 70 para 700 mil hoje--, a cultura automobilística dos EUA vive momento de marcha a ré.
            "Minha geração quer cada vez mais morar nas cidades e fugir dos subúrbios. O uso de bicicleta e de transporte público nas maiores cidades está em alta", disse à Folha o urbanista Owen Washburn, 29, do Instituto Brookings.
            Estudos dizem que os aparelhos tecnológicos substituíram os carros como objetos de desejo dos mais jovens. E que a vida na cidade, onde os empregos da chamada nova economia se concentram, também ficou mais atraente.
            Apesar do barulho provocado pelo grande sistema de compartilhamento de bicicletas em Nova York, lançado em maio com 7.000 bikes, a surpresa é que cidades médias e até no interior americano seguem a tendência.
            San Antonio, Austin (Texas) e Atlanta (Georgia) têm criado várias ciclovias --Austin terá compartilhamento de bicicletas no fim do ano.
            "Há forte redução do uso do carro em Austin. Mas, no interior, ainda há caminhonetes por todo lado", diz o professor mineiro Fernando Lara (Universidade do Texas).
            Washington e Seattle criam 20 km por ano de ciclovias. Em vários casos, há financiamento federal para as obras.
            É o caminho oposto das políticas dos EUA que nos anos 40 e 50 estimularam o uso de veículos, da criação do sistema de rodovias à concentração de empregos em distritos aonde só se chegava de carro.
            Um dos prefeitos que mais investiram na mudança acaba de virar o secretário dos Transportes dos EUA. Anthony Foxx, 42, fez do transporte público prioridade na Prefeitura de Charlotte, a maior cidade da Carolina do Norte --algo incomum nos conservadores Estados do Sul.
            Estendeu um metrô de superfície e ressuscitou uma rede de bondes. A economia ajudou: Charlotte virou o segundo maior centro financeiro do país, após Wall Street, e muitos de seus novos trabalhadores são jovens que preferem viver perto do trabalho.
              ANÁLISE
              Montadoras já se preocupam com desinteresse em dirigir
              ROHIT JAGGIDO "FINANCIAL TIMES"Uma das mudanças mais visíveis causada pela humanidade no planeta pode ser atribuída ao automóvel --não só veículos são encontrados em quase todas as paisagens como é impossível escapar da infraestrutura que exigem.
              Mas a alta da população de carros de quase zero para muito mais que 1 bilhão em pouco mais de um século teve um preço. Em muitos lugares, o trânsito converteu o automóvel em gaiola quase imóvel. Somem-se a isso as preocupações ambientais e é muito possível que a maré da opinião pública sobre os carros tenha virado em boa parte do mundo desenvolvido.
              A China ainda compra muitos carros, mas muitos jovens de países desenvolvidos não demonstram nenhum interesse em aprender a dirigir, e isso preocupa as montadoras.
              A alemã BMW já investe em esquemas de partilha de carros. Carros elétricos devem ficar mais comuns. Prevenir acidentes terá destaque cada vez maior; a extensão lógica disso é entregar a tarefa de dirigir o carro a computadores.
              Veículos assim podem revolucionar o modo como usamos carros e o que fazemos com o tempo passado neles.

                Entrevista da 2ª Stephen Walt - Raul Juste Lores

                folha de são paulo
                Caçar delator tira foco do debate sobre os limites de espionagem
                PARA PROFESSOR DE HARVARD, GOVERNO E MÍDIA DOS EUA FOGEM DE ABORDAR A NECESSIDADE DE CRIAR UM CÓDIGO DE CONDUTA SOBRE INFORMAÇÕES ELETRÔNICAS
                RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTON
                A caçada ao ex-analista da CIA Edward Snowden está ofuscando o debate sobre um necessário e urgente "código de conduta" para grandes corporações e governos ao lidar com a informação digital.
                "Governos sempre se espionaram, mas é diferente quando milhões de indivíduos têm a privacidade violada", afirma o professor de relações internacionais da Universidade Harvard Stephen Walt, 58.
                Ex-diretor acadêmico da Escola de Governo Kennedy de Harvard, ele é um dos maiores críticos a como a mídia e o governo dos EUA tratam a revelação do vasto sistema secreto de espionagem.
                Em artigo no jornal britânico "Financial Times", sugeriu a Barack Obama conceder o perdão presidencial ao delator. Leia a seguir trechos de sua entrevista à Folha:
                -
                Folha - O Brasil e alguns países europeus já reclamaram da espionagem de seus e-mails. O que esperar?
                Stephen Walt - Todo governo faz espionagem de outros governos. Os EUA devem fazer do brasileiro, assim como o do Brasil deve espionar o americano. A novidade aqui é a espionagem de cidadãos comuns, do comportamento individual. O cidadão brasileiro deve protestar e pedir aos políticos brasileiros que exijam que os EUA parem com essa espionagem.
                Isso teria resultado?
                O que ficou claro é que não há um código de conduta para grandes corporações, governos e indivíduos a respeito do que fazer com suas bases de dados. Não há consenso nem leis. Os países precisam aproveitar a oportunidade e começar essa discussão. Não é a ONU que vai discutir isso.
                Nos EUA, o debate se concentra na caçada humana a Edward Snowden e quase ignora a espionagem do governo. Não houve surpresa?
                A maioria dos americanos não sente que é alvo da espionagem, pensa que só "gente perigosa" tem o que temer, o que é um tanto ingênuo.
                Um grande problema de um banco de dados assim é o de ser violado por alguém no futuro, algo inevitável.
                Para 55% dos americanos, Snowden é alguém que alertou para um problema, enquanto 36% o veem como traidor. A maioria acha que ele colocou luz em coisas erradas que estavam escondidas. Mas não causou escândalo. Muita gente acha que somos espionados o tempo todo pelas empresas de internet.
                Snowden virou o assunto único aqui nos EUA.
                Parte do debate de Snowden é sobre seus porquês, quem o estaria ajudando, se os inimigos do país, e menos sobre o que ele denunciou.
                A mídia em Washington tem uma relação simbiótica com o poder, com o governo. Há cooperação e cooptação, independentemente de qual partido esteja no poder. Não querem falar da espionagem.
                O sr. defende que Barack Obama dê o perdão presidencial a Snowden. Mas o governo não quer uma punição exemplar para evitar novos delatores?
                Obama deveria dar o perdão presidencial. Snowden fez o que fez por motivos louváveis, coerentes com a retórica de Obama, de defender a liberdade individual e a transparência do governo.
                Ele não vendeu as informações a um governo estrangeiro, como espião tradicional. Um vasto sistema secreto de vigilância pode ser usado com fins mesquinhos em pouco tempo. [O ex-presidente Richard] Nixon foi perdoado, assim como envolvidos no Irã-Contras [escândalo dos anos 80 em que os EUA venderam armas ao Irã por um esquema escuso, que envolvia rebeldes na Nicarágua].
                Mas Obama quer punição exemplar para evitar novos delatores, não?
                Se Snowden for exilado, vai continuar a ser uma figura polarizadora ou até um mártir no mundo por muitos anos. Perdoado, ele atrairia menos atenção. E não seria melhor deixar isso para trás e debater o que foi vazado? Não foi por isso que Obama se negou a processar as autoridades dos anos de George W. Bush [2001-09] que autorizaram a tortura?
                Tiranos e revolucionários fracassados costumavam pedir asilo. Hoje, são idealistas que acreditam na transparência da democracia. Se Snowden fosse chinês ou iraniano e tivesse vazado informações sobre espionagem, daríamos asilo ao herói.
                A punição duríssima contra Snowden ou [Bradley] Manning [soldado dos EUA preso desde 2010 por repassar informações ao site WikiLeaks] tenta conter os vazamentos de informação, mas isso já é uma raridade. É um passo arriscado, raro, alguém dentro dessas organizações ter coragem para isso.
                Como o sr. compara Snowden a Bradley Manning?
                Há uma grande diferença entre Snowden e Bradley Manning/WikiLeaks. Ao trabalhar com [o jornal britânico] "The Guardian", os jornalistas e editores responsáveis selecionaram o que deveria ser divulgado ou não, checaram informações, exerceram a seleção crítica, responsável.
                Uma organização de mídia que soube tratar dos papéis confidenciais. Não despejaram a informação sem filtro ou sem pensar nas consequências, como o WikiLeaks.
                E Obama o perdoaria?
                É cedo para dizer, mas é improvável. Obama não parece corajoso a esse ponto, ainda que presidentes tomem decisões polêmicas no final de seus governos, quando já não precisam mais ser reeleitos.
                Não estou surpreso que Obama não tenha desmontado os sistemas de vigilância do governo Bush. Nunca pensei que ele seria muito progressista. É um centrista. Em alguns sentidos, até aumentou a escala de espionagem e a perseguição a jornalistas.
                Delações como a dos Papéis do Pentágono [documentos secretos sobre a dificuldade da Guerra do Vietnã, vazados em 1971 pelo analista militar Daniel Ellsberg] seriam impensáveis hoje?
                O governo Obama tem se mostrado muito mais agressivo em processar delatores e correr atrás de jornalistas que deram furos de reportagem, sempre em nome da segurança nacional. Isso não é saudável. Delações sobre abuso de poder de autoridades são necessárias à democracia.
                Ícones da esquerda americana, como a senadora Dianne Feinstein, chamam Snowden de traidor. Por quê?
                As linhas políticas de quem defende ou ataca Snowden estão embaralhadas, não é democrata versus republicano. Quem acha que os EUA sofrem ameaças graves de terrorismo aceita a perda de liberdades. Quem acha que essas ameaças são um exagero, como eu, defende as liberdades individuais.
                O que aprendemos com essa polêmica é que é otimista pensar que o Congresso faça uma supervisão séria desse sistema [de espionagem].
                A América Latina deve esperar sanções dos EUA se asilar Snowden?
                No último século, os EUA tiveram papel dominante no hemisfério, e países que tentaram desafiá-los sofreram pressões adicionais. Pode ocorrer isso com quem oferecer asilo a Snowden, mas seria algo infeliz piorar nossas relações com a região, contra nossos próprios interesses, por causa de um indivíduo.
                O que o sr. acha da negativa do governo Obama de chamar o golpe militar no Egito de "golpe"?
                Obviamente houve golpe militar no Egito, mas o melhor que Obama tem a fazer lá é uma "negligência benevolente". Ele não pode chamar de golpe, porque nossas leis o obrigariam a cortar a ajuda militar. Mandamos dinheiro para lá para reter influência, ainda que ela seja limitada.
                Se fosse para ajudar mesmo o Egito, os EUA enviariam comida, não ajuda militar.
                Como seria?
                Os US$ 2 bilhões [R$ 4,47 bilhões] em brinquedos militares para o Exército egípcio poderiam ajudar o povo egípcio, que hoje precisa mais de comida, turismo, luz e água.
                Revoluções têm reviravoltas, antes de qualquer estabilidade, da Francesa à Russa. Mesmo a americana --nossa Constituição levaria uma década para ficar pronta depois da independência, com focos de oposição. Certamente os britânicos na época disseram que não estávamos preparados para nos autogovernar.

                RAIO-X - STEPHEN WALT
                NOME
                Stephen Martin Walt
                NASCIMENTO
                2 de julho de 1955, em Los Alamos, Novo México (EUA)
                CARREIRA
                Professor de relações internacionais e ex-diretor acadêmico na Escola de Governo Kennedy da Universidade Harvard (EUA)
                OBRA
                "The Israel Lobby and US Foreign Policy" (O lobby de Israel e a política externa dos EUA, 2007) e "Taming American Power: The Global Response to U.S. Primacy" (Domando o poder americano: a resposta global à primazia dos EUA, 2005), ambos inéditos no Brasil

                sexta-feira, 19 de julho de 2013

                Detroit pede concordata histórica nos EUA - Raul Juste Lores

                folha de são paulo

                Cidade-símbolo da indústria automotiva é o maior município americano a pedir proteção judicial por dívidas
                Objetivo é renegociar finanças; após décadas de decadência e abandono, débitos superam US$ 20 bi
                RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTONCom dívidas superiores a US$ 20 bilhões, Detroit tornou-se ontem a maior cidade dos EUA a pedir concordata.
                A cidade, que já foi a quarta maior do país e berço da indústria automobilística, com 1,8 milhão de habitantes nos anos 1970, hoje tem 700 mil habitantes e está sob intervenção emergencial do governo do Estado de Michigan.
                Além da crise das montadoras, que encolheram ou mudaram suas linhas de montagem para países ou regiões com custos menores, a cidade sofreu uma reversão na arrecadação comum a grandes cidades americanas entre os anos 1950 e 1980.
                A população branca e rica migrou para subúrbios distantes, onde paga seus impostos. Em Detroit, ficou a população negra (80% do total), que paga menos impostos e usa mais serviços públicos.
                A estrutura pública está em colapso: 40% da iluminação pública está desligada, e as linhas telefônicas de emergência raramente funcionam. Metade dos parques está fechada desde 2008.
                A taxa de homicídios é a maior do país entre cidades acima de 200 mil habitantes, com 54,6 casos por 100 mil habitantes no ano passado (pouco menos que cidades brasileiras violentas, como Salvador ou Vitória). O número de assassinatos cresceu 10% em 2011 --ao contrário do resto do país, onde a taxa de homicídios recua.
                A cidade é quase um terço do que já foi em população, mas seu vasto território é o mesmo, com a mesma estrutura de transportes, saúde e educação inflando a dívida.
                Projetos de urbanistas nas últimas duas décadas tentaram adensar e "diminuir" a cidade na prática, criando hortas e granjas em terrenos abandonados e promovendo a mudança de moradores que ficaram em bairros vazios.
                RENEGOCIAÇÃO
                A concordata da cidade será acompanhada de perto por prefeituras, mercado de títulos e sindicatos de funcionários públicos em todo o país, pela raridade da situação.
                O caso mais célebre até agora era o de Orange County, na Califórnia, em 1994. Nova York e Cleveland, quase falidas nos anos 1970, evitaram a quebra com ajuda federal.
                O pedido de concordata permite mudanças e cortes no pagamento de funcionários públicos e aposentados, maior redução de serviços públicos e tenta convencer os credores para futuros empréstimos --o que seria um "recomeço" para a cidade.
                A decisão do interventor estadual Kevyn Orr de tentar renegociar com credores e cortar benefícios dos sindicatos, não vem sem a polêmica partidária americana.
                Detroit, há anos, é uma cidade administrada por democratas, que dão maior peso à estrutura e benefícios sociais.
                Já o governo estadual está nas mãos dos republicanos, que estariam agora enfraquecendo o polo oposicionista.
                Em concordatas municipais, a habilidade dos juízes de intervir na prefeitura é limitada --mais um ajuste das dívidas do que uma liquidação ou reorganização.

                RAIO-X DETROIT
                Fundação
                1701 (312 anos)
                Estado
                Michigan
                População
                cerca de 700 mil habitantes
                Região metropolitana
                em torno de 4 milhões de pessoas
                Vocação econômica
                Indústria automobilística
                Dívida estimada
                mais de US$ 20 bilhões
                Queda na arrecadação municipal desde 2000
                40%
                  AGÊNCIA DE RISCO
                  Perspectiva de nota dos EUA melhora
                  A agência de classificação de risco Moody's melhorou ontem a perspectiva da nota de crédito "AAA" dos Estados Unidos de negativa para estável, ao afirmar que a economia norte-americana tem mostrado resiliência. Para a Moody's, o crescimento dos EUA, embora moderado, progride atualmente em ritmo mais rápido que outros países com "triplo A".

                  domingo, 30 de junho de 2013

                  Minha História Pascal Tessier, 16 - Raul Juste Lores

                  folha de são paulo
                  Com lenço, sem preconceito
                  Escoteiro gay consegue pôr fim à proibição de jovens homossexuais dentro do grupo nos EUA; agora quer a aceitação também de adultos
                  RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTON
                  Nunca pensei que minha campanha para que os gays fossem aceitos no movimento escoteiro renderia uma homenagem como a que recebi na última terça-feira.
                  Todo ano, o estádio do Nationals, o time de beisebol aqui de Washington, celebra o orgulho gay com um jogo.
                  Havia umas 20 mil pessoas nas arquibancadas, três mil gays pelo menos, que participam da associação esportiva gay da cidade, a Team DC.
                  Eu estava no meio do gramado e ganhei o prêmio anual Spirits, que destaca lideranças gays em sua luta pelos direitos iguais.
                  Como conseguimos acabar com a proibição a gays no movimento escoteiro, recebi a homenagem. Fui aplaudido pela multidão. Meus pais, minha avó, meus primos, a família toda estava lá.
                  Fui cumprimentado pela Tammy Baldwin, a única senadora homossexual no Congresso americano. O Hino Nacional foi cantado pelo Coral Gay de Washington. Tremi um pouco no meio de tanta gente.
                  Sou escoteiro desde os sete anos de idade. O escotismo é parte da minha família. Aprendi muito mais do que sobrevivência e primeiros socorros, ou participar de acampamentos, algo que também adoro.
                  Descobri o que é trabalhar em equipe, ser um líder, ter responsabilidades, cuidar dos mais fracos, ajudar os outros. Para quem tem 16 anos, como eu, é quase como se sentir adulto.
                  Sempre fui muito bem acolhido pelo meu grupo escoteiro. Contei a todos que era gay aos 13 anos de idade e nunca sofri preconceito.
                  Só mais recentemente, me dei conta de que o movimento proibia gays. Sim, se a organização nacional soubesse que eu era gay, eu poderia até ter sido expulso. Mas, no nível local, eu jamais fui discriminado.
                  Senti que tinha responsabilidade de lutar. Pessoas que não conhecem gays podem ter preconceitos, mas é mais difícil discriminar quando você tem um amigo, um conhecido --e você vê que os gays são iguais a todo mundo.
                  Minha mãe, Tracie, falou com muitos pais nos Estados Unidos. Então nós fomos a Dallas, no Texas, em maio passado, quando a organização se reuniu para votar o fim da proibição aos gays.
                  Havia 1.400 membros de 270 conselhos. Sentei no chão e fiquei preocupado. Até por me expor tanto, sabia que, se mantivessem a proibição, seriam meus últimos minutos como escoteiro.
                  Mas conseguimos 61% dos votos a favor. Posso ser gay e escoteiro. Mas também fiquei triste ao ver tantos gays adultos discriminados. Eles lutaram para mudar essa regra e, um dia, tiveram que abandonar o escotismo.
                  SEM BULLYING
                  Tenho bastante sorte. Meu irmão, quatro anos mais velho que eu, Lucien, também foi escoteiro. Ele se assumiu gay aos 16 anos, então foi fácil seguir os passos dele. Contei aos meus pais um ano depois dele.
                  Meus pais sempre nos apoiaram e deram carinho, então não houve o menor problema. Nem na escola ou com os vizinhos.
                  Jamais sofri bullying por ser gay. Descobrir-se gay é como se descobrir hétero. Isso é parte da sua natureza, do que você descobre na adolescência.
                  Mas sei que, em várias partes dos Estados Unidos, não é nada fácil. Você pode ser expulso de casa, morrer de medo que descubram, ser discriminado.
                  Então vou aproveitar a fama desse prêmio e das reportagens sobre a nossa família para que os gays de lugares mais conservadores saibam que eles não são inferiores a ninguém.
                  SAIR DO ARMÁRIO
                  No meu grupo escoteiro, dois garotos já saíram do armário e dizem que seguiram meu exemplo, pois não tinham o que temer. Pra que ter vergonha do que se é?
                  Daqui a dois anos faço 18, e, pelas leis atuais do escotismo, não pode haver gay maior de idade no grupo. É preconceito, claro. No entanto, dou mais um ano ou um ano e meio para derrubarmos isso.
                  A sociedade americana está mudando rapidamente. Nos seriados da TV, nos filmes, nas grandes empresas, os gays são mais visíveis e respeitados.
                  O presidente Barack Obama apoiou o casamento gay, e sinto que é uma bola de neve, imparável. Os gays jovens já não se sentem mais sozinhos.

                  sexta-feira, 28 de junho de 2013

                  Reforma imigratória avança nos EUA

                  folha de são paulo
                  Senado aprova proposta para regularizar até 11 milhões de pessoas, mas texto deve sofrer resistência na Câmara
                  Projeto é uma das principais promessas de campanha de Obama e conta com apoio de empresas de tecnologia
                  RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTONO Senado americano aprovou ontem, com 68 votos favoráveis e 32 contrários, a maior reforma imigratória do país em décadas. Agora o projeto vai para a Câmara dos Deputados, onde sofre maior oposição.
                  Com o apoio de 54 democratas e apenas 14 republicanos no Senado, a reforma cria um processo de legalização escalonada, que pode levar até 13 anos, para os 11 milhões de imigrantes sem papéis nos Estados Unidos.
                  Ela também aumenta gradualmente a emissão de vistos de trabalho H-1B para trabalhadores altamente qualificados, os que ganham acima de US$ 115 mil dólares (cerca de R$ 253 mil) por ano.
                  Autoriza ainda o investimento de US$ 30 bilhões (R$ 66 bilhões) na segurança da fronteira do país com o México, uma das principais exigências da oposição republicana para aprovar a lei.
                  Os 3.141 quilômetros de fronteira terão uma sucessão de muros e cercas, passando por quatro Estados americanos, e o número de guardas pulará de 21 mil para 40 mil --ainda que, nos últimos quatro anos, a entrada de imigrantes pela fronteira seja a menor em 30 anos.
                  A reforma imigratória virou uma das maiores promessas de campanha da reeleição do presidente Barack Obama em 2012.
                  Como 73% dos hispânicos votaram em Obama no ano passado, muitos republicanos achavam que era hora de se reconciliar com as minorias de imigrantes para reduzir a rejeição ao partido entre os latinos.
                  Mas os republicanos encontram-se divididos. Muitos calculam que a reforma simplesmente dará voto a 11 milhões de possíveis eleitores democratas.
                  Vários deputados republicanos foram eleitos em distritos majoritariamente brancos e com poucos estrangeiros, que se opõem à reforma.
                  Mas tanto associações de empresários quanto sindicatos, antes contrários à reforma, apoiam a legalização. Sindicalistas dizem que imigrantes sem papéis são mais vulneráveis e puxam salários para baixo.
                  VALE DO SILíCIO
                  Facebook, Apple, Microsoft, Yahoo! e Google estiveram entre os maiores lobistas para a aprovação da reforma. Essas empresas criaram uma associação no início do ano para promover a reforma.
                  Os empresários do setor se queixam que os 85 mil vistos concedidos anualmente para especialistas em tecnologia se esgotam em apenas 10 semanas. A reforma aumenta o número desses vistos a 180 mil.
                  CÂMARA
                  Agora, o projeto será votado na Câmara dos Deputados, onde os republicanos são maioria. Lá, a reforma não deve passar tão facilmente. Ted Cruz, deputado do Texas e estrela ascendente dos republicanos, já chamou a reforma de "anistia para criminosos".
                    Para ex-secretário de Bush, republicanos precisam de mudança
                    Carlos Gutierrez defende apoio a imigrantes para evitar que partido fique cada vez menor
                    PATRÍCIA CAMPOS MELLODE SÃO PAULOA sobrevivência do partido republicano americano depende da aprovação da reforma da imigração, que agora segue para votação na Câmara, onde a sigla tem maioria.
                    Esse é o alerta de Carlos Gutierrez, ex-secretário de comércio do governo George W. Bush, que hoje preside o grupo "Republicans for Immigration Reform" (republicanos pela reforma imigratória).
                    Veja os principais trechos da entrevista à Folha.
                    Folha - Muitos republicanos que irão enfrentar primárias em 2014 temem ser atacados por candidatos da extrema direita se apoiaram a reforma...
                    Carlos Gutierrez - Isso tem acontecido muito, e nós tentamos ser uma espécie de defesa para eles.
                    Quem no partido republicano apoia a reforma?
                    Principalmente empresários. Eles entendem que o que faz o partido poderoso é sua ideologia econômica ­--livre mercado, baixos impostos e redução do Estado-- e não questões sociais. Gastamos tanto tempo falando sobre tudo o que somos contra --aborto, imigração, gays... Ora, isso representa 50% da população.
                    Foi como o senador Marco Rubio disse: os hispânicos podem até apoiar nossas propostas para a economia e os impostos, mas, se acharem que queremos deportar a avó deles, não vão votar na gente.
                    Quem se opõe à reforma, além da extrema direita e quem tem medo das primárias?
                    Também há quem acredita que os imigrantes ilegais são democratas sem documentos. Ou seja, por que dar a chance para eles votarem?
                    A aprovação da reforma é essencial para a sobrevivência do partido republicano?
                    Se o partido não apoiar a reforma e, consequentemente, não atrair o voto hispânico, vai ficar cada vez menor. Talvez possamos conseguir eleição em 2016, por causa da fadiga de Obama, mas em 2020, 2024, estamos condenados a virar um partido regional.
                    O que você acha que vai acontecer na Câmara?
                    A Câmara pode acabar aprovando uma lei que é tão extrema para a direita que não poderá ser "reconciliada" com a lei do Senado. Se for muito dura em relação à segurança da fronteira, mas não fizer concessões para a legalização dos 11 milhões de ilegais, por exemplo.
                      Saúde de Mandela ofusca visita de Obama
                      Presidente dos EUA chega hoje à Africa do Sul e tentará visitar o líder antiapartheid
                      FÁBIO ZANINIENVIADO ESPECIAL A JOHANNESBURGOO presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, inicia hoje uma aguardada, mas azarada, visita à África do Sul. Pela manhã estão marcados protestos organizados por aliados do mesmo governo que o recebe em Pretória.
                      Nada deve importar muito, no entanto: a viagem deve ser totalmente ofuscada pelo estado de saúde do ex-presidente Nelson Mandela.
                      Mandela, 94, permanecia ontem internado em estado crítico. Ao longo do dia, o governo sul-africano deu informações contraditórias sobre a situação dele, que sofre de crise respiratória. Pela manhã, o porta-voz da Presidência, Mac Maharaj, disse que a condição do líder havia se deteriorado muito.
                      Mas, à tarde, o próprio presidente Jacob Zuma desmentiu o auxiliar, afirmando que Mandela estava "bem melhor", embora em situação ainda delicada.
                      Uma visita de Obama a Mandela é improvável, para frustração do líder americano. Segundo assessores, ele contava com o encontro para simbolizar sua preocupação com a África e contraditar acusações de que negligencia o continente de seu pai (que era queniano).
                      Obama esteve só uma vez na África subsaariana, em Gana, em 2009. Os EUA vêm perdendo espaço no continente, sobretudo para a China, hoje líder em investimentos nos países africanos.
                      O presidente começou seu giro africano no Senegal e termina na Tanzânia. Ontem, ele pediu aos governos no continente que parem de criminalizar a homossexualidade e elogiou a decisão da Suprema Corte dos EUA que reconheceu benefícios federais aos casais gays. Para o presidente, foi uma "vitória da democracia".
                      Em território sul-africano, além de encontro com Zuma, Obama deve visitar um dos locais mais associados à figura de Mandela: o antigo presídio de Robben Island, na Cidade do Cabo, onde o ícone antiapartheid passou 18 de seus 27 anos de prisão.
                      A chegada de Obama deve coincidir com um protesto convocado pela Cosatu, maior central sindical do país, e pelo Partido Comunista Sul-Africano (SACP), além de grupos menores. Cosatu e SACP fazem parte do governo Zuma.
                      O protesto, segundo Bongani Masuku, secretário de Relações Internacionais da Cosatu, tem vários alvos: a militarização da política externa dos EUA, sobretudo com o uso de drones (aviões não tripulados), o apoio a Israel e a relação econômica desigual Norte-Sul.
                      "Não há constrangimento para o governo, porque não estamos protestando contra a pessoa de Obama, mas contra aspectos do poder americano", disse Masuku.
                      A marcha deve terminar na embaixada dos EUA, em Pretória, e tem o título de "Nobama" ("Não a Obama").

                        quinta-feira, 27 de junho de 2013

                        Casais gays obtêm vitória histórica no Supremo dos EUA

                        folha de são paulo
                        Corte decide que casamento entre pessoas do mesmo sexo tem direito a benefícios iguais aos heterossexuais
                        Tribunal derrubou ainda plebiscito que revogava a união gay na Califórnia --agora, o 13º Estado a permitir esse matrimônio
                        RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTONA Suprema Corte dos EUA decidiu ontem que o casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados americanos que aprovaram o casamento gay têm igualdade de direitos em nível federal.
                        Em outra decisão, o Supremo derrubou o plebiscito que havia revogado o casamento gay na Califórnia, o que o torna o 13º Estado a reconhecer essa união, além do Distrito de Colúmbia, onde fica a capital, Washington.
                        Um terço da população do país já vive em Estados que aprovam a igualdade.
                        De declaração conjunta de Imposto de Renda à Previdência, todas as leis federais reconhecerão esses casais com os mesmos direitos dados aos heterossexuais.
                        Uma das maiores mudanças afeta vistos de estrangeiros casados com americanos. Só americanos heterossexuais podiam pedir visto permanente aos cônjuges estrangeiros. Cerca de 30 mil casais binacionais gays podem agora requerer o mesmo.
                        HEROÍNA DA CAUSA
                        A ação contra o governo foi iniciada por Edith Windsor, 84, que teve relacionamento de 44 anos com Thea Spyer. Elas se casaram no Canadá em 2007, onde o casamento gay havia sido aprovado, mas moravam em Nova York.
                        Quando Thea morreu, Edith teve que pagar US$ 363 mil em impostos para ficar com a herança. Se fosse um casal heterossexual, ela não teria pagado nada.
                        Foi assim que ela decidiu tentar derrubar a Lei de Defesa do Casamento, assinada por Bill Clinton, em 1996, aprovada por democratas e republicanos. Neste ano, o próprio Clinton disse que a lei era "um erro". Edith vai pedir o dinheiro de volta.
                        O presidente Barack Obama, em voo para a África, ligou para Edith. Ele a felicitou por "uma luta que dignifica o país" e tuitou "Love is love" [Amor é amor].
                        A Corte não usou a decisão de ontem para aprovar o casamento gay em todo o país --o que foi criticado em editorial pelo "New York Times". Em 33 Estados os casamentos civis homossexuais permanecem vetados por lei.
                        O advogado David Boies, autor da ação que derrubou a revogação dos casamentos gays na Califórnia em 2008, afirmou à rede CNN que a decisão do Supremo "cria jurisprudência para desafiar leis discriminatórias no país inteiro". "Não tem volta."
                        Alguns casais de Estados do sul até se casam nos Estados mais liberais do norte, mas não têm seus casamentos reconhecidos onde moram. Agora a lei federal reconhecerá também esses casais.
                          Plateia na Corte deu as mãos e chorou no anúncio da decisão
                          DE WASHINGTONA fila para garantir um lugar na sessão histórica no Supremo americano começou por volta das 19h de anteontem. Cem pessoas puderam entrar na Corte. Os 50 primeiros com senha ingressaram às 7h de ontem e tiveram café à espera.
                          "Todos ficamos de mãos dadas e começamos a chorar quando o resultado saiu", disse à Folha Lane Hudson, ativista há 15 anos, que chegou à 1h da manhã na fila e assistiu ao julgamento.
                          A Corte foi cercada por aproximadamente mil ativistas e curiosos, que começaram a pular e a gritar com o anúncio das decisões, por volta das 10h de ontem.
                          Com muito sol e temperaturas que variavam de 33ºC a 36ºC, gays e simpatizantes se valeram de sombrinhas e chapéus. Alguns suavam em bicas por causa do traje de "noivos" que levaram --vários usavam paletós e gravatas-borboleta com bermudas em tons pastel.
                          Dezenas de redes de TV pediam aos casais presentes que repetissem beijos estalados para as imagens da celebração. Ao contrário de anos anteriores, não havia manifestações contra o casamento gay na entrada da Corte.
                          Nas escadarias, o Coral dos Homens Gays de Washington cantou "Make them hear you" [Faça-os Escutarem Você], do musical "Ragtime".
                          "Quando Obama foi eleito, os negros se sentiram mais fortes. Hoje foi o dia de os gays sentirem mais força", disse Hudson. (RJL)
                            Casal de modelos comemora com bolo em bar na Califórnia
                            FERNANDA EZABELLADE LOS ANGELESOs modelos Brandon Brown, 28, e Colby Melvin, 25, noivos há quatro meses, cortaram um bolo de casamento simbólico na manhã de ontem, num bar do bairro gay de Los Angeles, para celebrar a volta da permissão para a união de pessoas do mesmo sexo na Califórnia.
                            Cerca de 30 ativistas se reuniram às 7h no bar e restaurante The Abbey, mais famoso do West Hollywood, para assistir ao vivo a sessão da Suprema Corte.
                            O tribunal decidiu derrubar o resultado do plebiscito de 2008 que proibia o casamento gay no Estado, o mais populoso dos EUA (38 milhões de habitantes).
                            "Em 2008, nem ligava para isso. Mas agora que tenho um parceiro, dou valor para as conquistas e tenho ajudado no movimento", disse Brandon, ativista gay e dançarino do The Abbey. Ele conheceu Colby há um ano. Os dois começaram a viajar pelo país para divulgar a causa dos direitos civis dos gays.
                            O governador do Estado, Jerry Brown, pediu ontem que todos os condados da Califórnia estejam prontos para emitir licenças de casamentos gays.
                            Segundo um estudo da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), 37 mil pessoas do mesmo sexo devem se casar na Califórnia nos próximos três anos, gerando US$ 492 milhões (R$ 1 bilhão) em negócios.
                              ANÁLISE
                              Opositores veementes à união gay se arriscam a ficar para trás
                              LUCIANA COELHODE SÃO PAULOAinda não é o casamento gay, como muitos sonham, mas é o reconhecimento ante a lei americana de que todos os cidadãos do país são iguais, independentemente de sua orientação sexual.
                              Embora dividida, a Suprema Corte derrubou o trecho da Lei da Defesa do Casamento (Doma, na sigla em inglês) que barrava cônjuges gays de benefícios federais concedidos a casais heterossexuais.
                              Fez história, é verdade, mas não sozinha. Nem à toa.
                              Não por acaso, tampouco, Obama é o primeiro presidente dos EUA a abraçar, no cargo, a união entre pessoas do mesmo sexo: de 1996, quando o também democrata Bill Clinton aprovou a Doma, para cá, o apoio a esse direito saltou de 27% para 53%, afere o Gallup.
                              A questão é partidária, mas sobretudo geracional. Entre quem tem menos de 30 anos, 70% se declaram a favor do casamento gay (ante 41% dos maiores de 65).
                              Opositores veementes do casamento gay se arriscam a ficar para trás. Ainda que o apoio cresça mais lentamente entre os republicanos (de 16% para 26% em 17 anos), jovens que promovem o descolamento entre conservadorismo econômico e social se veem mal representados.
                              É preciso notar que a Suprema Corte não chancelou o matrimônio gay. Esse lastro ainda cabe aos Estados --e hoje, 13 dos 50 dizem "sim".
                              O que fez foi garantir que benefícios federais dados a casais hétero valham também para todos os casais gays e seus filhos: pensões, heranças, benefícios médicos. Nisso, os americanos estão agora mais adiantados que nós.

                                domingo, 23 de junho de 2013

                                Acordes dissonantes na avenida principal

                                folha de são paulo ESPECIAL PAÍS EM PROTESTO
                                Dos 20 centavos na passagem ao saco sem fundo das insatisfações
                                RODRIGO RUSSO
                                RESUMO Ao sair às ruas para reivindicar redução nos preços do transporte coletivo, o Movimento Passe Livre catalisou demandas sociais variadas. A adesão multitudinária que parecia benéfica resultou em agenda confusa, como já se vira na Espanha e nos EUA, e em violência; manifestantes e analistas repassam os fatos da semana.
                                Eram quase 20h de quinta-feira, 20 de junho, quando, na esquina da avenida Paulista com a alameda Joaquim Eugênio de Lima, integrantes do Movimento Passe Livre (MPL) se questionavam sobre o que havia acontecido com os protestos da semana.
                                "Tive um mau pressentimento antes da manifestação de hoje, só tinha contado para você", afirmou uma jovem de cabelos curtos e olhos claros à amiga, preocupada em localizar outros companheiros pelo celular. "Meu, olha o que aconteceu", disse outra garota.
                                Um rapaz que escondia a camiseta do Passe Livre sob uma jaqueta preta lamentava que os protestos tivessem saído do controle e fugido completamente das pautas originais: a revogação do aumento na tarifa e a própria discussão sobre sua gratuidade.
                                Naquele momento, porém, a preocupação maior era com a agressão aos manifestantes que portavam bandeiras de partidos políticos. Acuados por quem protestava contra sua presença na avenida Paulista, viram-se obrigados a sair da marcha e virar à direita na altura da alameda Campinas --alguns integrantes do Passe Livre também deram a caminhada por encerrada nesse momento.
                                Outra jovem, formada em história pela USP --como a maioria do grupo--, relembrava ter percebido diferenças ao longo das três manifestações convocadas pelo MPL durante a semana. "A gente viu que estava dando uma guinada para a direita, que muitos coxinhas' estavam vindo para cá, mas não imaginou que isso aconteceria. Como é que se pode pensar em expulsar pessoas só por empunharam bandeiras de partidos? Preferiam viver em ditaduras?"
                                Enquanto conversavam, as pessoas do grupo vestiam casacos para ocultar as camisetas do movimento, que, até ali, usavam com orgulho --afinal de contas, a pressão do grupo fora bem-sucedida no objetivo principal de revogar o aumento da tarifa de ônibus, trens e metrôs de R$ 3 para R$ 3,20 em São Paulo.
                                O rapaz de jaqueta preta avaliava se a manutenção do protesto mesmo depois do sucesso tinha sido uma boa ideia. "A gente criou uma coisa imprevisível, que não tem como controlar", lamentava uma das meninas.
                                O grupo debatia a melhor forma de se deslocar até a estação de metrô mais próxima sem criar novas confusões e passava os acontecimentos em revista. Consideravam a conveniência de evitar, por um tempo, postagens no Facebook, além de outras hipóteses para ação no curto prazo.
                                CONTROLE No dia seguinte aos protestos, Erica de Oliveira, 22, estudante de história da USP e integrante do MPL, conversou com a Folha: "Estamos em avaliação. Consideramos uma vitória do movimento a redução da tarifa, mas a coisa degringolou um pouco. Em movimentos de massa, sempre há o risco de perder o controle. Nossa pauta é o transporte, e continuaremos na causa". O Passe Livre, um movimento horizontal e que não tem lideranças declaradas, afirmou em nota na noite de sexta que seguirá na luta pela tarifa zero.
                                Em análise sobre o movimento Ocupe Wall Street --que tomou as ruas de Nova York em 2011, com protestos inicialmente voltados contra o sistema financeiro que se alastraram pelos EUA, com repiques em outras cidades do mundo--, o pesquisador e arabista David Dietz, da Universidade Georgetown, avalia que a falta de líderes pesou contra o movimento.
                                "O fracasso da liderança do Ocupe foi não assumir a liderança. Nos últimos tempos, os acampamentos tinham mais sem-teto, hippies e anarcopunks que manifestantes originais. Faltavam lideranças com quem a gente comum' pudesse se identificar. E lideranças dispostas a trabalhar dentro do sistema. Poderia ter sido criado o terceiro grande partido americano, mas isso não aconteceu", conclui o pesquisador, que passou os últimos dois anos e meio estudando o Ocupe e as revoluções árabes.
                                15M Outro movimento popular que guarda semelhanças com os protestos no Brasil aconteceu na Espanha, em maio de 2011. O grupo de jovens intitulados de "indignados" passou a acampar em praças públicas a partir de 15 de maio --o grupo ficou conhecido como 15M em razão da data.
                                O filósofo Gonçal Mayos, professor da Universidade de Barcelona, acompanhou de perto o movimento na praça Catalunha, região central da cidade catalã, onde chegou a dar aulas para os jovens do 15M.
                                O professor avalia que, como o 15M ou a Primavera Árabe, os protestos no Brasil mostram uma enorme capacidade de formas novas e eficazes de comunicação. "Elas surpreendem o poder, os políticos e as administrações, despertando-os de suas rotinas partidárias'.
                                Pablo Ortellado, professor do curso de gestão de políticas públicas da EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e simpático ao MPL, avalia a mudança nos protestos.
                                "Até a quinta-feira, 13, o movimento era concentrado. Não ouvi uma profusão de pautas. Creio que a coisa mudou por duas razões: uma reorientação da imprensa sobre a cobertura dos protestos e, principalmente, a capa da revista Veja' incitando a profusão de pautas. Por alguma razão, isso encontrou eco nas ruas e tivemos a mudança das manifestações."
                                Nos três atos da semana seguinte, ocorridos na segunda, na terça e na quinta, o número de pessoas que compareceu às ruas cresceu de forma significativa. O professor manifestou, em redes sociais, a preocupação de que o movimento fixasse claramente sua demanda pelos R$ 0,20 a menos na tarifa de transporte coletivo.
                                Em Nova York, a proliferação de causas abraçadas pelo Ocupe fez com que o movimento perdesse foco, na opinião de Dietz. "Eram 5.000 pessoas com 500 bandeiras diferentes, da legalização da maconha ao casamento gay, da mudança climática ao feminismo. Todas boas causas, com certeza. Mas o ataque aos resgates bilionários aos bancos se perdeu no meio de tanta bandeira."
                                A estudante Erica, do MPL, aponta outra razão para que, aqui, tenha se dado a ampliação da participação popular: a desmesurada violência policial, inclusive contra jornalistas. "As pessoas ficaram comovidas a partir dos episódios de agressão, ninguém esperava o que aconteceu. Até ali, o que movia as pessoas era a repressão nas ruas, o caos em que se vive, mas a isso se acrescentou a própria repressão nos atos."
                                Dietz lembra que "a reação violenta da polícia sempre aumenta os movimentos. Nos anos 60, até quem era a favor da Guerra do Vietnã, protestou por causa da violência contra os garotos. Hoje nossa polícia é mais sofisticada e sabe controlar protestos e multidões sem provocar a repetição das cenas dos anos 60. A polícia só reprimiu o Ocupe quando o movimento já murchava, em dezembro". Nesse ponto, a atuação da polícia brasileira não guardou semelhanças com a dos Estados Unidos, sendo mais próximo do que aconteceu em Barcelona.
                                Os protestos na cidade cresceram quando a polícia catalã tentou expulsar à força os manifestantes da praça no fim da manhã de 27 de maio, com 121 feridos e imagens de manifestantes ensanguentados segurando flores. Naquele fim de tarde, o que estava confinado a poucas centenas de manifestantes tomou corpo e reuniu 12 mil pessoas em um panelaço de mais de 40 minutos.
                                No caso brasileiro, Ortellado crê que mesmo as pessoas que aderiram aos protestos após a violência policial e a convocação da imprensa também reivindicavam prioritariamente a redução da tarifa, e que havia um grupo político organizado --o MPL-- negociando com o poder público. "Isso foi uma sorte." Essa adesão, de acordo com o professor, beneficiou a bandeira da tarifa proposta pelo MPL, que obteve o objetivo desejado: na quarta-feira, 19, o governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo revogaram o aumento.
                                Ainda assim, decidiu-se manter a passeata programada para o dia seguinte, no que Erica pensava ser um ato para celebrar a conquista. Não foi bem assim.
                                MANIFESTAÇÕES Dizer que a Paulista foi palco de uma manifestação na quinta-feira (20) é impreciso. Foram muitas as manifestações que aconteceram na avenida a partir das 17h. Três grupos se distinguiram: pessoas que criticavam partidos e pediam mais verba para educação e saúde, os integrantes do MPL ou dos partidos de esquerda e, mais para o fim da noite, uma reunião de anarcossindicalistas.
                                Às 17h05, um grupo que bradava "o povo unido não precisa de partido" rumou no sentido Paraíso da avenida --a concentração era próxima à esquina com a rua da Consolação. Cartazes criticando a corrupção e pedindo hospitais e escolas no "padrão Fifa" eram recorrentes. Também fez muito sucesso entre essa multidão o lema "Copa é o caralho; educação, saúde e trabalho". Bandeiras nacionais e camisetas da seleção brasileira eram vistas por todos os lados.
                                Para Renato Janine Ribeiro, professor titular de filosofia da USP, o veio nacionalista não é um problema. Aliás, é uma qualidade. "O seu jornal não gosta do nacionalismo, nunca foi uma coisa de que ele goste, pelo menos nas últimas décadas", diz Janine Ribeiro.
                                "Mas o nacionalismo é o amor pela pátria, está presente nos movimentos de Diretas-Já, no movimento contra o Collor. As cores nacionais têm sido uma constante de admiração do país. Não vejo no nacionalismo a potencialidade de outra coisa. É claro que o nacionalismo é suprapartidário e apolítico. E é claro que o nacionalismo entregue a si próprio pode gerar o pior, o ódio ao estrangeiro. Mas o Brasil tem uma tradição muito grande de acolhimento da diferença", avalia.
                                Após a saída do primeiro bloco, o MPL preferiu aguardar um pouco e só deixou o local 20 minutos mais tarde, às 17h25. Logo em seguida ao seu grupo estavam os militantes e simpatizantes de partidos e agremiações de esquerda, como o movimento jovem do PSOL, o PCO, PCB, PCR e o PT, que se mostraria de longe o maior alvo de manifestantes contrários a partidos. Atrás desse bloco, a massa voltava a se parecer com o grupo que partiu inicialmente, com demandas mais difusas.
                                Desde o início, ficou claro que esses grupos seriam foco de problemas. Por volta das 17h40, diversos manifestantes gritavam que as agremiações eram "oportunistas" e compostas por "mensaleiros". Alguns tinham cartazes como "o po(l)vo não é Lula".
                                Havia pessoas mais exaltadas dos dois lados. "Fora petistas" eram contrapostos a "Fora tucanada" --embora não houvesse cartazes do PSDB à vista.
                                A bandeira principal do MPL nessa marcha, em vez de ameaçar com dizeres como "Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar", trazia o pedido "Por uma vida sem catracas". O que se via a poucos metros disso já mostrava que, mesmo sem catracas, a convivência urbana pode não ser fácil.
                                Uma guerra de palavras de ordem tomou conta da marcha. Aos gritos de "sem partido", os manifestantes respondiam com "Sem censura, acabou a ditadura" ou com "sem fascismo". A maior parte do público então retrucava: "Puta que o pariu, abaixa essa bandeira e levanta a do Brasil".
                                Beatriz, 23, estudante de ciências sociais da USP, chorava ao lado da amiga, Marina. A razão? "Esse fascismo é assustador. Não tenho partido, mas participei de todas as manifestações do MPL, e os partidos estavam ali para apoiar. Sofri com as bombas em um deles. Agora querem vir aqui e dizer como se deve protestar?"
                                Kalime Najn, 24, economista e com o rosto pintado de verde e amarelo, discordava. "Sou contra partidos. Eles estão se aproveitando, usam o protesto como marionete e depois vão usá-lo a favor deles. Sou a favor de uma reforma contra todos os partidos".
                                Em sua primeira passeata na série iniciada na semana passada, Najn se disse motivada por uma única razão: "Meus direitos. Li um cartaz e não poderia concordar mais com ele: direitos humanos para humanos direitos". Depois de morar no exterior, a economista decidiu que era hora de exigir o mesmo padrão de qualidade em sua pátria.
                                Um pouco à frente, dois homens negros discutiam na frente do prédio da Fundação Cásper Líbero. "Irmão negro, você não pode me censurar. Sou contra usar essas bandeiras aqui, é um erro", pediu um deles. "Isso é fascismo, é repressão", retrucou o outro.
                                SEQUESTRO Para Ortellado, "houve um movimento de sequestrar a mobilização popular", em processo similar ao ocorrido na Argentina em 2002, quando a população conseguiu destituir o presidente Fernando De La Rúa.
                                Os gritos iniciados pelo Passe Livre, no ponto em que liderava a passeata, eram rapidamente transformados: o "vem pra rua, vem, contra a tarifa" tornava-se "vem pra rua, vem, contra o governo" em questão de minutos.
                                Na opinião do professor, há três pontos de contato entre o movimento argentino e o que se viu na semana passada: a ojeriza aos partidos, a ideia de unidade em torno da bandeira nacional como símbolo de civismo, de respeito à coisa pública, e as manifestações populares de rua.
                                De fato, redes sociais estão repletas de convocações. Já há previsão, para o dia 10 de julho, de uma "Marcha da Família com Deus, em Defesa da Vida, da Liberdade e da Democracia, contra o Comunismo". Antes disso, há a organização de uma greve geral --que recentemente foi instrumento comum de pressão popular na Grécia durante a crise econômica-- para o dia 1º de julho. "Vamos mostrar ao governo que quem faz um país é o povo, e não os políticos", diz o texto da convocação no Facebook.
                                Durante a semana passada, o grupo de hacktivistas Anonymous divulgou um vídeo em que apresentava cinco causas para serem encampadas pela população: o arquivamento da PEC 37, sobre o poder de investigação do Ministério Público; a saída de Renan Calheiros da presidência do Congresso; a investigação e punição de irregularidades nas obras da Copa; a criação de uma lei que trate casos de corrupção de políticos como crimes hediondos; e o fim do foro privilegiado.
                                Muitos dos que foram à Paulista na quinta-feira já anunciavam a adesão às causas. Os integrantes do MPL não gostaram da mudança no perfil da manifestação. Erica de Oliveira lamentou as pautas conservadoras: "Isso ficou mais claro depois que conseguimos a vitória na revogação do aumento, extravasaram algumas causas".
                                Em conversa durante o protesto, uma das garotas ligadas ao movimento criticava o vídeo do Anonymous: "É muito fácil escolher causas como punir corrupção na Copa. Quem vai ser contra isso?".
                                O crítico literário Alfredo Bosi, referência para a militância de esquerda no país, tem dúvidas sobre o futuro das manifestações: "Como vai ser de alguma maneira dirigida essa massa? É imprevisto, você pode tanto ficar em reivindicações pontuais, contestar o caráter tecnocrático das decisões, como foi o caso da tarifa em São Paulo, ou então isso poderá ir longe".
                                Bosi, porém, evita alarme quanto ao direcionamento ideológico num futuro próximo: "Eu não veria uma coloração fascista, uma manipulação, não me parece, pelo menos nesse grupo que iniciou as manifestações, o Movimento Passe Livre. Não me parece que ele tenha qualquer conotação fascista, paramilitar. Se isso ocorrer, será por obra de outros grupos e outras conjunturas. O núcleo está muito distante dessa coloração".
                                SEM VIOLÊNCIA Quando a passeata se aproximou do prédio da Fiesp, que ficou boa parte da noite iluminado em verde e amarelo e exibindo a bandeira do Brasil, os ânimos se acirraram entre os grupos. Os partidos de esquerda, que ocupavam a faixa da direita, foram acuados pelos demais manifestantes, que estavam na pista esquerda. Uma bandeira foi queimada, e até gás foi lançado contra os integrantes desse grupo. Os gritos de "sem violência" recorrentes em protestos anteriores foram ignorados nesse momento. Os integrantes de agremiações políticas desistiram de prosseguir; houve um grande aplauso.
                                Ortellado acredita que a extrema-direita presente ao protesto estivesse provocando a população em geral a atacar, tentando ressignificar a passeata. "Quem de fato agrediu foram esses grupos".
                                Erica de Oliveira considerou um absurdo que manifestantes tentassem agredir outros manifestantes. "Nós repudiamos esse tipo de ação, queremos o Estado democrático de Direito". A estudante, porém, separa a violência entre os manifestantes dos atos de depredação e saques. Para ela, não lhes compete julgar esses episódios: "As pessoas vivem uma opressão".
                                Em nota divulgada na sexta, o MPL refutou a crítica da população de que os partidos eram oportunistas: "Oportunismo é tentar excluí-las [as organizações] da luta que construímos juntos". Para quem acompanhou a cena, portar bandeiras partidárias não parecia nada oportuno, sendo inclusive necessário que os manifestantes se organizassem em cordões de isolamento, diversas vezes rompido.
                                A reação contra aqueles que portam bandeiras partidárias, na opinião do filósofo Mayos, vem da profunda vontade da maioria dos manifestantes de não ser manipulados por partidos e interesses concretos. "Há uma rejeição profunda a partidos e sindicatos porque são estruturas hierárquicas e disciplinadas". Uma exigência muito notada é recusar todo aquele que não vá simplesmente como cidadão em total igualdade com os outros.
                                "Existe a consciência de que, se o clamor popular se identificar com um ou poucos partidos, perderá apoio popular, autenticidade, se moldará com interesses particulares e corruptelas. E não é isso que se quer."
                                Para o professor catalão, há grande dualidade, tanto nos indignados espanhóis quanto nos manifestantes brasileiros, quanto à participação partidária. "Muitos são aprendizes em política ou gente que até agora estava pouco politizada, mas que agora percebeu ter forças para exigir ser levada em conta em questões que afetam sua vida cotidiana: transportes, corrupção, ineficiências e contradições do rápido desenvolvimento brasileiro", elenca.
                                Por outro lado, muitos são "velhos lutadores políticos de várias causas que se sentem revitalizados e trazem o saber fazer'. Na Espanha, diz ele, "eram lutadores antifranquistas, ecologistas, soberanistas"; no Brasil, seus equivalentes seriam, "gente que viveu/sofreu na ditadura ou que participou de movimentos de ocupação de terras".
                                SINAL POSITIVO Antes e depois da manifestação, as estações de metrô da avenida Paulista eram palco da empolgação de quem comparecia à passeata. Por volta das 22h, as pessoas se deslocavam na estação Consolação aos gritos de "Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor".
                                Para Mayos, "as enormes, interclassistas, majoritariamente pacíficas e cívicas manifestações atuais no Brasil são um sinal positivo. Os protestos mostram que as gerações mais jovens e a classe média querem tutelar cada vez mais de perto a política e o governo".
                                O professor acredita que a maior parte das demandas brasileiras, apesar de dispersas, é muito factível: "Desenvolvimento mais equilibrado e justo, menor corrupção e mais eficiência administrativa, reconhecimento de necessidades cotidianas, que são reprimidas na pobreza mas que são muito importantes e que são permitidas pelo grande crescimento da economia do Brasil".

                                quinta-feira, 20 de junho de 2013

                                Raul Juste Lores

                                folha de são paulo

                                Para quem continua na rua


                                1. Abrir a caixa-preta dos lucros das empresas de ônibus;
                                2. CPI do metrô-tartaruga de São Paulo;
                                3. CPI do treinamento de nossa polícia ou, de fato, a sua desmilitarização (serve para São Paulo, Rio, Ceará, Bahia e praticamente todo estado brasileiro).
                                Como a queda na tarifa ensinou, é bom ter uma reivindicação clara e sucinta que caiba nas bandeiras das manifestações e que os políticos não tenham como se safar com o "isso é impossível".
                                Dos lucros e cartéis das empresas de ônibus, é algo que Haddad deveria começar a fazer já, sem esperar mais protestos. Mas temos que falar também de metrô, não só de ônibus.
                                Por que o km construído de metrô em São Paulo custa US$ 200 milhões, enquanto o de Santiago do Chile e o da Cidade do México estão abaixo de US$ 75 milhões?
                                Por que os três metrôs foram inaugurados na mesma época (entre 1974 e 1975) e o mexicano já chegou a 201 km, o chileno a 103 km e o nosso empacou em 74 km?
                                Para não comparar com os de Madri, Seul e Pequim, acima de 300 km cada, porque aí é covardia. Comparemo-nos aos nossos vizinhos, que já dá pra chorar.
                                Sobre a polícia: haverá algum julgamento ao abuso das policiais cariocas que atiraram spray pimenta na jovem franzina, sem máscara ou arma, sozinha na foto que estampou a capa do NYTimes?
                                Algum comandante da PM paulistana já foi punido pelo tiro ao alvo cometido contra cidadãos comuns, sem armas, sem máscaras, que levaram balas de borracha no rosto porque a polícia tinha perdido seus nervos?
                                Alguém será punido pelas três horas de possível corpo mole durante a depredação do Centro de São Paulo, porque alguém no comando estava com birra?
                                O fracasso da nossa polícia não é novidade. Aqueles que não pagam por empresas privadas de segurança, aonde vários policiais lucram para valer, que se virem.
                                Quem corretamente pediu que a PM protegesse o bem público e reprimisse os poucos vândalos que bagunçam as manifestações pacíficas, não esperava que a PM não tivesse a menor ideia de imobilizar um punhado de vândalos ou até de dispersar multidões (sim, existe técnica para isso).
                                O governador Geraldo Alckmin precisa punir exemplar e publicamente os brucutus fardados que barbarizaram semana passada São Paulo, e que esconderam a identidade de seus uniformes (toda uma declaração de princípios). O mesmo sobre Sergio Cabral no Rio.
                                Imagens não faltam dos culpados --eles tiveram o azar de atirar contra jornalistas trabalhando e cidadãos com celulares espertos que gravavam tudo. Alguém precisa recordar à tropa que a polícia tem comando civil e pune má conduta.
                                POLITICA URBANA
                                A ineficiência policial e o colapso do transporte público são dois dos grandes dramas urbanos brasileiros. PT e PSDB ter uma política urbana para o novo século, já que mantiveram as mesmas dos militares desde os anos 70.
                                Baixar impostos para entupir as ruas com mais carros e produzir conjuntos habitacionais do Minha casa, minha vida a léguas de distância de qualquer área central são políticas que só provocarão mais explosões sociais de quem não quer viver como enlatado diariamente.
                                E a Copa nos custou R$ 33 bilhões, para quê?
                                O Brasil que protesta contra a ausência do prometido legado da Copa evoluiu em muitas e muitas coisas nos últimos anos, mas as cidades brasileiras parecem ainda retrato do Brasil inviável dos anos 80.
                                Para seguir o colunista no Twitter, clique @rauljustelores
                                raul juste lores
                                O jornalista Raul Juste Lores é correspondente da Folha em Washington,
                                ex-correspondente em Nova York, Pequim e Buenos Aires e ex-editor
                                do caderno 'Mercado', e bolsista da fundação Eisenhower Fellowships. Escreve às quartas-feiras no site. Siga: @rauljustelores